sábado, 26 de agosto de 2017

{S} Resenha | Amor e casamento

Amor e casamento é um drama sul coreano, que conta a história de Cha Gi-young, uma jornalista famosa, que se relaciona com um rapaz mais novo e acaba engravidando. A primeira reação do rapaz, o repórter culinário Park Tae-yeon, é fugir, pois ele não tem interesse em ser pai. Quando a ideia começa a ganhar espaço em sua mente, o casal encontra outro problema: a família conservadora dele. Ao saber da gravidez, os pais de Tae-yeon permitem o casamento, mas exigem que Gi-young pare de trabalhar e se enquadre no padrão conservador da família.

O problema é que desde pequena, Gi-young não confia nos homens. Enquanto crescia, ela viu a mãe ser a única responsável pela família, o que não apenas fez com que a jornalista tivesse pouca confiança nos homens, como a aproximou dos ideais feministas. Em vários momentos da série de dezesseis episódios, somos apresentados a questões de gênero na Coreia do Sul, a maioria muito parecida com os problemas que enfrentamos no Brasil. A não ser por um detalhe: aqui no Brasil, quando um casal se separa, é comum que o filho fique com a mãe. Na Coreia do Sul, a guarda fica com o pai.

Então, quando Gi-young se recusa a casar e aceitar as condições da família Park, e não encontra conforto em Tae-yeon, ela decide criar a criança sozinha. Sob a ameaça de ter a guarda do bebê tirada dela, Gi-young inventa uma mentira atrás da outra. Primeiro, diz que fez um aborto. Depois, quando a gravidez não pode ser mais escondida, ela diz que fez uma inseminação artificial. A princípio, ela diz que o doador é anônimo. Em seguida, seu ex-colega de bancada do jornal, Jo Eun-cha, por interesses políticos, afirma em rede nacional que ele é o doador do esperma.

Ou seja, a coisa vira uma bagunça.

Por ser uma figura pública - Cha Gi-young é a âncora do jornal da noite - sua gravidez e a decisão de ser mãe solteira torna-se o assunto da nação. Há muita gente - principalmente homens - que acham um absurdo e aqueles que têm poder de decisão em sua vida fazem de tudo para prejudicá-la. Gi-young perde a posição como âncora, é rebaixada, ameaçada várias vezes de perder o emprego, e se vê completamente sozinha por um bom tempo. Isso porque algumas mulheres não a tratam melhor. Sua própria mãe passa um longo período tentando convencê-la a interromper a gravidez, por se preocupar com "o que os outros vão pensar".

E, por mais estranho que pareça, o único apoio que Gi-young encontra é na figura de Eun-cha. Estranho porque, desde sua primeira cena, ele é apresentado como o típico cara machista que usa as mulheres e as descarta ao bel-prazer. Como co-âncora de Gi-young e acima na hierarquia, ele a destrata frequentemente e faz parte da turma que tenta prejudicá-la assim que descobre a gravidez. Ele é um personagem caricato e difícil de gostar. É através de suas falas que somos apresentados à síntese do pensamento machista que a série quer discutir. Eun-cha só tem interesse por si mesmo...

No entanto, também é ele que entrega algumas das melhores cenas. Enquanto suas atitudes são sempre dúbias, ele também é a pessoa que está presente quando Gi-young sente-se perdida. Quando Gi-young quase sofre um aborto espontâneo ao vivo, quando a bolsa estoura, quando Cha Dan (o filho, que conhecemos quando a história avança três anos) passa vergonha na escola por não ter pai, quando... melhor por aqui.

Achei interessante a maneira como o personagem deixa de ser o porta-voz do machismo e gradualmente se transforma em um porta-voz do feminismo. Isso porque ele presencia situações tão abusivas e absurdas que nem mesmo sua consciência consegue aceitar.  Não que você vá simpatizar muito com ele, porque no fim das contas, ele ainda é um personagem essencialmente chato. Mas você vai desculpá-lo.


Quem não é possível desculpar, é o Tae-yeon. A criatura mais egoísta e imbecil da história inteira. Gi-young como você pode se apaixonar por esse cara? Sério!

Algo que não é muito agradável na série são as atuações. Kdramas normalmente têm atuações exageradas, mas nada que se compare com Amor e casamento. É um overacting atrás do outro, seja na comédia, seja na tragédia. Para assistir e aguentar é preciso ter graduação em novelas mexicanas e pós-graduação em kdramas. Porém, no fim das contas, vale a pena.

Especialmente por causa da discussão social. Não apenas em relação à família tradicional sul-coreana, mas às outras questões apresentadas através dos demais personagens. Relacionamento com homens mais novos, divórcio, traição, casamento por interesse, etc.

Mesmo com todo o drama e as lágrimas intermináveis de Gi-young, a discussão de gênero permanece como sub-texto ao longo de toda a trama. Quem escreveu esse roteiro certamente queria passar uma mensagem. E passou. Claro, nesse caso, estavam pregando para uma convertida, mas quem sabe não abre os olhos de mais alguém por aí.

*****

Atores:
Gi-young - Park Si-yeon
Jo Eun-cha - Bae Soo-bin
Park Tae-yeon - No Min-woo

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