domingo, 20 de março de 2016

Livro | Resenha | Carrie, a estranha - Stephen King


Carrie, a estranha foi o primeiro livro publicado por Stephen King e já foi adaptado para o cinema em mais de uma ocasião:



  • Em 1976, dirigido por Brian de Palma e estrelando Sissy Spacek e John Travolta.
  • Em 2002, com Angela Bettis, Emilie de Ravin e Patricia Clarkson.
  • Em 2013, com Chloë Moretz e Julianne Moore.


Se o número de adaptações não diz algo sobre a qualidade do livro, pelo menos pode ser um indicativo de que essa é uma daquelas histórias que fazem parte do imaginário popular.



Carietta White era uma menina de dezesseis anos que, ao entrar na puberdade, descobre que tem poderes telecinéticos. Desde pequena ela é tratada como uma estranha, sofrendo todo tipo de abuso físico e psicológico que seus colegas de colégio conseguiam conceber. Além disso, sua mãe, uma fanática religiosa que via tudo e todos como pecado e pecadores, era obcecada por afastar a filha das tentações do mundo.

Ao mesmo tempo, Margareth White parece ter medo da filha, como se pudesse ver nela o próprio diabo, e está determinada a fazer tudo o que estiver a seu alcance para impedir que o tinhoso haja através da menina. Situação que gera alguns dos momentos mais angustiantes da história. Sob esse aspecto, não é difícil ver na mãe de Carrie o verdadeiro monstro da história.



Eu ainda era pequena, menos de doze anos, quando assisti ao filme de 1976, em uma das muitas vezes em que o SBT o passou. Eu me identifiquei com a personagem logo de cara. Desde aquela época, e até o fim do ensino médio, eu me sentia a estranha da turma. Não digo que durante esse tempo todo eu tenha sofrido bullying, mas lembro que na minha primeira série, alguns garotos me chamavam de lesma e lerda, e mais de uma vez me vi sendo motivo de riso para alguém, sem falar nas muitas vezes em que passei o intervalo sozinha por falta de ter alguém com quem conversar. Eu era extremamente tímida.

De qualquer forma, é bem provável que aquele tenha sido o primeiro filme de terror que eu assisti e o único em que eu não consegui considerar o monstro – Carrie – como o vilão, ou mesmo como um monstro, propriamente dito. Ela é uma vítima, alguém que foi abusada ao longo de toda a sua vida e que encontrou em um poder inexplicável, incontrolável e inconcebível, um meio de se livrar de seu sofrimento.



O livro começa com Carrie e suas colegas tomando banho após uma aula de educação física. De repente, Carrie percebe que está sangrando e que o sangue está saindo do meio de suas pernas. Ela fica desesperada e olha para suas colegas em busca de ajuda, mas a única coisa que recebe é xingamentos e risadas de escárnio. Carrie não sabe o que está acontecendo, porque sua mãe nunca lhe contou o que era menstruação, por achar que isso era uma porta de entrada para o pecado da luxúria. É nesse momento que, em pleno desespero, Carrie começa a desenvolver seus poderes.
Não vou contar muito do livro, pois em termos de história, ele é pequeno. Meu ebook tem 163 páginas, nas quais a narrativa em terceira pessoa é intercalada com trechos de estudos fictícios sobre telecinésia, estudos acadêmicos sobre o “Caso Carrie White”, trechos da investigação feita sobre esse os eventos da “Noite do baile”, depoimentos de sobreviventes, etc, dando ao livro um aspecto de documentário e de que tudo aquilo poderia ter acontecido de verdade.



Não sei se o livro vai agradar todo mundo, assim como o próprio Stephen King pode não agradar todo mundo. O próprio autor diz que acha que o livro é cru, um de seus primeiros romances. Mas é uma leitura interessante, ainda mais se você levar em consideração que esse é um dos livros banidos das escolas americanas, pois poderia incentivar vítimas a se vingarem de agressões… sabe como é, adolescentes influenciáveis, competição constante, política de incentivo ao armamento, Marlyn Manson, tiroteios em colégios… quem quer adicionar uma vítima de bullying com poderes telecinéticos à essa equação? (Para quem não entendeu a referência, fica a dica do documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore).

*

Carrie, a estranha é uma história que eu já conheço há bastante tempo. Acredito que, como eu, muita gente se relacionou à personagem, porque já se sentiu deslocado em algum momento da vida. A impressão que aquele filme causou em mim foi tão forte, que nunca fui capaz de esquecer cenas como a de Carrie ensanguentada e os horrores que ela produziu na cidade. E sempre me senti fascinada pela história. Assisti até a sequência do filme, The Rage: Carrie 2, que passou uma vez no SBT, e a adaptação de 2013 com Chloë Moretz e Julianne Moore (recomendo apenas a primeira adaptação). Não lembro de ter visto a de 2002, mas não importa, a melhor continua sendo a de 1976.



Desde o momento em que descobri que aquele filme tinha sido baseado em um livro, eu quis lê-lo. Porém, mesmo depois de conhecer Stephen King e comprar o ebook, adiei o início da leitura por bastante tempo, até que li a introdução do livro e, mais tarde, o comentário do autor no livro “Sobre a escrita”. Em ambos, Stephen King fala sobre a sua inspiração para escrever Carrie, especialmente sobre suas duas colegas de escola que se fundiram para formar a protagonista:
“No fim do outono ou início do inverno de 1972, tive uma ideia para um conto sobre uma menina com poderes telecinéticos (ou psicocinéticos, se preferirem). Eu vinha com essa ideia na cabeça desde que estava no ensino médio e li um artigo na revista Life sobre um caso de atividade poltergeist numa casa de uma cidadezinha da periferia de um centro urbano. (…) Olhando com mais atenção, a atividade nessa casa aparentemente não tinha nada a ver com fantasmas. Havia uma menina perturbada na família. Quando ela estava em casa, objetos – sobretudo religiosos – saíam voando. Quando ela estava fora, as coisas ficavam no lugar. O artigo aventava a hipótese de que a maior parte da atividade atribuída a fantasmas seria na verdade causada por crianças, e que sobretudo as meninas ao entrar na puberdade são propensas a usar esse talento espontâneo; aparentemente, a ideia era que havia uma força maior dentro delas, acessível somente nessa época da vida.
Achei que isso daria uma boa história (…).
Eu não tinha escrito nem duas páginas, quando meus próprios fantasmas começaram a me interromper; os fantasmas de duas meninas, ambas falecidas, que acabaram se fundindo e dando Carrie White. (…) Chamarei uma delas de Tina White e a outra de Sandra Irving.
Tina estudou comigo na Durham Elementary School (…), era gorducha e quieta, caipira de chorar. Em toda turma há aquele bode expiatório (…), que sempre acaba carregando o cartaz dizendo ME CHUTE, o que está por baixo na hierarquia social. Tina era essa aluna. Não porque fosse burra (não era), nem porque sua família fosse estranha (era), mas porque ia todos os dias com a mesma roupa para a escola.
(…) Um ano, depois do Natal, Tina apareceu com uma roupa nova em folha. Não me lembro de como era, só me lembro da felicidade que Tina demonstrava vestida com ela. Acho que estava até de meias náilon. E me lembro nitidamente de como aquela animação esperançosa se transformou – primeiro em surpresa, depois em raiva e, finalmente, num conformismo murcho -, depois da chuva de comentários sarcásticos que se abateu sobre ela. Em vez de diminuir, a rejeição da garotada a Tina se acentuava mais ainda.



(…) Sandra Irving morava a uns dois quilômetros e meio da casinha onde eu me criei. Não havia pai no cenário, só a mãe e o enorme pastor alemão com o nome estapadúrdio de Cheddar Cheese. A Sra. Irving um dia me contratou para ajuda-la a mudar uns móveis de lugar (…) e fiquei impressionado com o crucifixo que havia na sala, pendurado em cima do sofá delas. (…) Eu sabia que as Irving tinham uma religiosidade esquisita e fervorosa que excluía nossa Igreja Metodista normal, mas até ver aquele Cristo horrendo no alto da sala – a figura pregada na cruz com sangue escorrendo nas mãos, dos pés e do peito, olhos revirados numa combinação horrível de agonia e compaixão – eu nunca havia entendido até onde ia aquela religiosidade. Nem quão estranha era.
Essa religião era em parte o que mantinha as crianças longe de Sandy. O cheiro dela – não de sujeira, mas um ranço estranho de poeira, doce e enjoativo como o de pó de livro – também contribuía para isso, assim como o fato de ela ter ataques epiléticos e usar roupas estranhas, pudicas e antiquadas. Mas como ocorria com Tina, ainda havia algo mais. Algo que anunciava: ESTRANHA! DIFERENTE DA GENTE! AFASTE-SE!, numa onda que só outras crianças conseguem sintonizar.



(…) Nenhuma das duas – feliz ou infelizmente – tinha o dom espontâneo de Carrie White. Nenhuma das duas terminou o ensino médio, nem chegou aos 30 anos. Tina suicidou-se, enforcando-se no porão de casa. Sandy morreu durante um ataque epilético no apartamento que alugara na cidade (…).
Esses eram os fantasmas que ficavam tentando se enxerir na minha escrita, insistindo em que eu os fundisse, de alguma forma, numa história que contasse o que poderia ter acontecido caso existisse mesmo uma energia telecinética (e pelo que sei, talvez exista). O que poderia ter acontecido se o mundo fosse tão justo quanto era cruel com as adolescentes. Em resumo, os fantasmas queriam que eu escrevesse um romance.”

*


No fim, percebi que o que mexeu comigo a respeito desse livro não foi o autor, que eu adoro, nem a identificação pessoal com a protagonista, mas o fato de ela ter sido baseada em pessoas reais que sofreram e tiveram suas vidas influenciadas pelo que outras pessoas pensavam delas.



Stephen King é conhecido por suas histórias de terror, seus monstros e sua crítica constante ao fanatismo religioso. Mas seu mérito também é conseguir escrever sobre pessoas reais, com sentimentos nem sempre fáceis de descrever e demonstrar, com falhas e hipocrisias. Carrie, a estranha é sobre isso. É sobre vermos a nós mesmos como pessoas boas e justas porque vamos à igreja e, no instante seguinte, julgarmos e maltratarmos pessoas diferentes da gente. Carrie é um livro para cutucar e causar desconforto. E, no fim, a gente sabe que merece.

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