sábado, 31 de outubro de 2015

Livro | Resenha | It, a Coisa - Stephen King

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Derry

“Pode uma cidade inteira ser assombrada?
Assombrada como algumas casas em teoria são?
Não uma única construção nessa cidade, nem a esquina de uma única rua, nem uma única quadra de basquete em um único parque, (…), não só uma área… mas tudo. A cidade toda.
Isso é possível?”

Derry, no Maine, é uma cidade assombrada. A criatura que vive em Derry caiu naquele pedaço de mundo quando a Terra ainda era jovem e a cidade cresceu em volta do lar da Coisa. Em intervalos de aproximados 25 anos, a cidade sofre um aumento considerável nos casos de violência, começando e culminando em um grande desastre.
Essa é uma história sobre Derry, um lugar onde as pessoas não se assustam com coisas terríveis, não se contém em nome da moral e da ética, não se incomodam com cenas de violência a um metro de distância. Um lugar onde as pessoas não gostam de falar do passado, porque têm medo da própria culpa.

O Clube dos Otários

Conhecemos os personagens principais durante o verão de 1958, logo após o início das férias escolares.
Bill Denbrough está tentando se acostumar com a nova realidade de sua família após a morte de seu irmão mais novo, no outono de 1957. George Denbrough era um garoto de 6 anos que, no dia em que morreu, tinha saído para brincar com um barco de papel que Bill tinha feito para ele. Apenas alguns minutos depois, ele estava morto. Seu corpo mutilado foi encontrado ao lado de um bueiro.
Não demorou muito para que outras crianças de Derry começassem a desaparecer e algumas serem encontradas mortas. A cidade entrou em alerta e instituiu um toque de recolher. Parecia claro que havia alguma coisa ou alguém matando crianças naquela região. Apesar de George não ter sido diretamente ligado a esses desaparecimentos, que aumentaram no período entre sua morte até o fatídico verão do ano seguinte, Bill sentia que sim, seu irmão tinha sido a primeira vítima.
Ao lado de seus amigos Eddie Kapsbrak, Richie Tozzier, Stan Uris, Ben Hanscon, Mike Hanlon e Beverly Marsh, ele percebe que os assassinatos e desaparecimentos não são obra de um serial killer ou um maluco qualquer. Há alguma coisa podre em Derry, algo que apenas as crianças entendem e que os adultos sentem da mesma forma que sentem o vento, a água, a terra. É justamente essa naturalidade com que os adultos de Derry encaram os estranhos eventos que cercam a história da cidade que os torna impotentes diante dessa ameaça.



O nome “Clube dos Otários” não é por acaso. Cada uma deles representa aquelas crianças excluídas e diferentes que todos nós conhecemos – ou fomos – na escola: Bill, gago; Eddie, asmático; Ben, gordo; Richie, nerd; Stan, judeu; Mike, negro; Bev, piranha. É impossível não se identificar com um deles, não se sentir como um deles.
A história dessas crianças, mais do que a versão delas adultas, que conhecemos no verão de 1985, é o elemento mais poderoso desse livro. A amizade deles, o amor, a lealdade e, principalmente, a coragem e inocência da infância são o que tornam It um livro mágico.
As sete crianças enfrentam a Coisa pela primeira vez naquele verão, nos túneis debaixo da cidade. Porém, alguma coisa dá errado e elas fazem uma promessa de voltar e terminar o serviço, quando o ciclo de 25 anos se fechasse e a Coisa voltasse a aterrorizar Derry.
A Coisa quer vingança e sai na frente das crianças, pois ela sabe algo que elas só descobrirão 27 anos mais tarde: os adultos trocam a inocência fácil da infância pela rigidez cética da vida adulta.

O livro

Vi em algumas resenhas pessoas reclamarem da prolixidade de Stephen King nesse livro. Isso é relativo. De fato, o livro é muito longo. A edição de 2014 da Suma das Letras tem 1103 páginas. Alguns podem achar que são páginas demais. A adaptação cinematográfica de 1990 claramente achou-as desnecessárias. Mas, ainda que possamos considera-las demais, discordo que não sejam pertinentes.
A narração se divide em pelo menos duas linhas temporais, o verão de 1958 e o verão de 1985. Não há, no entanto, uma linha rígida entre os dois períodos, levando a história do ponto A ao ponto B. É mais como se os dois períodos ocorressem paralelamente.
Quando os personagens se reencontram 27 anos depois do primeiro confronto com a Coisa, eles não se lembram do que aconteceu no verão de 1958. Eles apenas sabem que devem estar lá e fazer o que prometeram fazer. Conforme as lembranças chegam, acompanhamos passado e presente, numa estrutura de suspense que prende o leitor do início ao fim.
Há também outros cortes na narrativa, através de trechos do diário de um dos personagens, Mike Hanlon, que contará partes importantes da história da cidade. São passagens em que podemos ver que Derry não é uma cidade normal: a explosão na Siderúrgica Kitchener, o incêndio no Black Spot, o assassinato da gangue Bradley, a enchente no outono de 1957.
Casos expressivos que mostram o quanto Derry não é apenas uma cidade que convive silenciosamente com a violência, mas também está acostumada com as tragédias, como se elas acontecessem porque Derry é assim e essa é a única explicação necessária.
Não, não são trechos relevantes para o enredo central, mas são importantes para dar o clima de suspense e terror do livro, e para contextualizar a relação simbiótica de Derry, a cidade assombrada, e a Coisa, o ser sobrenatural que a assombra.



Outro momento em que a prolixidade do autor pode ser um problema para alguns está na construção dos personagens. Ao mesmo tempo em que para haver identificação é preciso conhecer os personagens e suas histórias, Stephen King vai além do necessário ao tentar dar profundidade aos personagens secundários. Por exemplo, não faz diferença saber que a melhor amiga da Beverly-adulta é uma feminista que vive da pensão do ex-marido ou que Tom, marido de Beverly, teve uma infância difícil após a morte do pai.
Isso é algo que também aparece em outros livros do autor, como O Pistoleiro, com uma aeromoça desconfiada, ou em A escolha dos três, com dois policiais que estavam no lugar errado, na hora errada. Ambos os livros da série A Torre Negra.
Há alguns pontos, porém, mais complicados que a necessidade de Stephen King de contextualizar, literalmente, tudo. Sem querer dar spoiler, vou apenas deixar isso aqui e seguir em frente: a cena em que Beverly tem uma idéia para tirar ela e os amigos dos túneis é um tanto… despropositada. Sério que não tinha outro jeito, Stephen King? Sério mesmo?
O tamanho do livro assusta. Não recomendo para quem não leu outras obras do autor. Aliás, para iniciantes, recomendo os livros de contos, especialmente Sombras da noite que foi a minha porta de entrada para a escrita de Stephen King, de onde não quero sair nunca mais. Outra recomendação é o livro de memórias e dicas de escrita, Sobre a escrita.
A Coisa é o melhor e pior monstro ao mesmo tempo, pois é aquilo de que você tem medo. E dá medo de verdade. Ela tem várias formas e muitos truques. Ela é capaz de enxergar o seu maior medo e usar contra você. Não é aleatória a forma com a qual é mais conhecida, como o icônico Pennywise, o Palhaço. Quantos de nós têm medo de palhaço? Quantas crianças choram ao ver um palhaço?



A escrita de Stephen King é maravilhosa. Ao mesmo tempo ele consegue criar um ambiente tenso, um contexto completo, uma criatura assustadora, personagens realistas e uma história sobre amizade que superou uma das minhas referências no assunto, não por acaso o filme Conta comigo, baseado no conto O corpo do próprio King (presente no livro As quatro estações).
It, a Coisa é um livro sobre a fé, não em um ser cósmico onisciente e atemporal, mas a fé cega e pura das crianças em Papai Noel, Coelho da Páscoa e Fada do Dente. E, inevitavelmente, no Monstro-Debaixo-Da-Cama.

“Eu amava vocês todos, vocês sabem.
Eu amava vocês tanto.”

sábado, 10 de outubro de 2015

Livro | Resenha | O hobbit - J. R. R. Tolkien

Um comentário:


Expectativa x Realidade


Já faz um mês que terminei de ler esse livro e, desde então, estou pensando em como resenha-lo. De certa forma, é a mesma dificuldade que encontrei quando tive que resenhar As crônicas de Nárnia e, se você prestar atenção naquela resenha, está mais parecida com aquelas sinopses que as editores escrevem tentando vender um livro, do que com uma resenha propriamente dita. Mas eu me esforcei e não estou de todo descontente com o resultado.
Com O hobbit, no entanto, a situação parece só um pouquinho mais difícil.
Em ambos os casos, eu estava plenamente ciente de que se tratavam de livros infantis e que eu não deveria encará-los da mesma maneira que encararia um livro mais sério. Teria que vestir minha capa de infanto-juvenil e ler esses livros como eles mereciam ser lidos. Ao mesmo tempo, em ambos os casos, eu estava com muita expectativa de que os livros seriam incríveis e que eles entrariam fácil no meu hall de favoritos. Não foi o que aconteceu.
Sim, eu gostei dos livros, mas eles estão longe de representar na minha vida o que eu achava que eles representariam. E é uma pena, eu sei, mas isso não dá mais para mudar.

O livro


O hobbit conta a história de Bilbo Bolseiro e de como ele conseguiu o Um Anel. Bom, na verdade, o Um Anel é só mais um elemento do livro, não algo realmente importante. Para quem leu e assistiu aos livros/filmes da trilogia OSDA, às vezes chega a ser brincadeira a maneira como Bilbo usa o Um Anel como muleta durante quase todo o livro. A explicação, obviamente, é que Tolkien escreveu O hobbit muito antes de escrever O Senhor dos Anéis e, naquela época, o Um Anel era apenas um anel.
Enfim, eu divaguei.
Bilbo Bolseiro era apenas mais um hobbit pacífico e tranquilo do Condado. Ele não era muito chegado a aventuras e, como os outros de sua raça, olhava torto para aqueles que gostavam de aventuras, como seus parentes distantes, os Tuks. Um dia, enquanto está fumando seu cachimbo, Bilbo depara-se com uma figura tão diferente, alta e parecida com um humano, que era óbvio que se tratava de um andarilho… na verdade, tratava-se de Gandalf, o cinzento.
Gandalf lhe diz que está a procura de alguém que possa ajudar a ele e a alguns amigos em uma aventura. Bilbo, que sabiamente desconfia de Gandalf e da tal aventura, trata logo de se livrar do visitante e volta para sua confortável toca de hobbit.
Gandalf, malandro que só ele, não aceita a rejeição de Bilbo (porque isso é exatamente o que acontece) e decide fazer uma marca na porta de entrada da toca. Mais tarde naquele dia, Bilbo começa a receber visitas inesperadas. Nada mais, nada menos que treze anões simplesmente aparecem em sua toca: Balin, Bifur, Bofur, Bombur, Dori, Dwalin, Fili, Gloin, Kili, Oin, Ori, Nori e Thorin. É muito anão.
Todos eles são amigáveis, mas nenhum deles tinha sido convidado. Longe de saber o que eles estavam fazendo ali, Bilbo esforçou-se para ser um bom anfitrião. Quando boa parte dos não-convidados já estava presente, eis que chega Gandalf, com a maior cara lavada.
É assim, basicamente, que Bilbo descobre que é a décima quarta parte de um grupo que atravessará toda a Terra Média até a Montanha Solitária. Lá costumava ser o reino dos anões que estão agora em sua toca, mas há muito tempo suas famílias foram expulsas de lá por um perigoso dragão, chamado Smaug. Quando chegarem à Montanha Solitária, caberá ao pequeno hobbit (redundância) ser o “ladrão” dessa expedição suicida.
O líder dessa expedição é Thorin, Escudo de Carvalho, herdeiro do “reino sob a montanha”, que deseja devolver ao seu povo a honra e os tesouros que foram roubados por Smaug.
Durante a jornada, muitas coisas dão errado. Eles têm que fugir de trolls, gigantes, orcs, wargs (lobos da Terra Média), aranhas gigantes, elfos (mais saltitantes aqui que nos três livros de OSDA), Smaug e, por fim, conseguem se meter em uma batalha com nada menos que cinco exércitos! Isso porque Bilbo não gostava de aventuras, imagina se gostasse!
Então sim, o livro é divertido e mágico, como deveria ser.

O filme



Eu li os três livros da trilogia O Senhor dos Anéis em 2009 (literalmente o ano inteiro de 2009). Isso foi depois de ter assistido aos filmes, o que não foi um grande problema para mim. Na tela tinha tudo o que merecia aparecer e foi uma ótima adaptação.
Quando foi anunciado que seriam feitos três filmes para adaptar O hobbit, acompanhei as discussões a respeito de longe. Ao mesmo tempo que entendia que era muito filme para pouco livro, não estava realmente me importando com a questão. Fui assistir ao primeiro filme, Uma aventura inesperada, com um misto de pé no chão e expectativa. Sei que as duas coisas não combinam, mas vou tentar explicar. “Pé no chão” com o fato de que haveria partes inventadas pelos roteiristas e na expectativa de que o filme seria pelo menos bom. Era um filme do Peter Jackson sobre a Terra Média, afinal! Ele tinha acabado de usar três filmes para provar que sabia como fazer...
E eu gostei do filme. Aliás, dos filmes. Nada que entre nos meus favoritos, mas ainda assim, gostei. Claro que tem muita coisa que não está no livro:

1)      O romance entre uma elfa e um anão – sou neutra a respeito disso.
2)      A presença de Legolas. Para mim, faz sentido que ele esteja lá, pois ele faz parte dos Elfos da Floresta.

Há outras coisas que foram tiradas de outro livro de Tolkien sobre a Terra Média, o Silmarillion, mas eu não me importo muito com isso. Algumas das mudanças foram necessárias, como as explicações a respeito do Necromante. Outras foram apenas para justificar a existência de três filmes e não vou tentar convencer ninguém que esse número era necessário.
Porém, não é sobre as diferenças que quero falar. Quero falar das partes dos filmes que estavam no livro.
Os filmes que foram feitos para adaptar O Senhor dos Anéis têm uma pegada séria e adulta, seguindo o padrão dos respectivos livros. Quando foram fazer os filmes do O hobbit queriam aproveitar e contar a origem do Um Anel, como ele foi parar com Bilbo e seu breve encontro com Smeagle. Tratava-se, portanto, de filmes que estariam diretamente ligados com a trilogia anterior filmada por Peter Jackson. Seria estranho se os filmes de O hobbit seguissem o padrão do livro no qual foram baseados, ou seja, se tivessem um tom infantil.
Essa foi a escolha de Peter Jackson. Ou ele faria um filme coerente com os anteriores ou faria um filme coerente com o livro. Ele escolheu os próprios filmes.
O resultado foi que O hobbit recebeu o mesmo tratamento sério dos demais filmes e precisou ser esticado para que as ligações necessárias entre a primeira trilogia e a segunda fizessem mais sentido. Você precisa ter em mente que, quando uma obra - qualquer obra - é adaptada para o cinema, o estúdio não está interessado em agradar apenas quem já conhecia o material original. Eles querem atrair também um público completamente novo. Quantas pessoas vocês acham que assistiu aos três filmes de O Senhor dos Anéis, gostou, mas nunca se interessou em ler os livros?
Não sei se Peter Jackson fez a escolha certa. Da minha parte, como tive dificuldade para vestir minha capa de criança e ler o livro tal qual uma criança provavelmente o leria, acabei gostando mais dos filmes. Não nego as deficiências dele, assim como não nego os méritos do livro.

Favoritos


Personagem: Bilbo é, sem dúvida, meu personagem favorito, assim como os demais hobbits de OSDA. Eu gosto desses baixinhos!
Cena: Minha cena favorita é o encontro de Bilbo e Smeagle, quando eles jogam aquele perigoso jogo de adivinhação.
Filme: Meu filme favorito é o primeiro, especialmente o comecinho, quando Bilbo começa a receber os anões e Gandalf, até a parte que descobre que os anões apostaram sobre ele aceitar ou não a missão.
Ator: Martin Freeman simplesmente porque ele foi perfeito como Bilbo.
Livro ou filme: Filme…



(Soraya foge das pedras).