sábado, 11 de abril de 2015

Livro | Resenha | Battle Royale - Koushun Takami

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“Koushun Takami nasceu em 10 de janeiro de 1969, na cidade de Amagasaki, perto de Osaka. Formado em literatura pela Universidade de Osaka, trabalhou como repórter de política e economia. Deixou o jornalismo para se dedicar à literatura, mas não lançou nenhuma obra além de Battle Royale, que foi desclassificada na fase final do prêmio Japan Grand Prix Horror Novel pelo seu conteúdo polêmico.” - Globo Livros

Capa da edição nacional

Contexto

Publicado em 1999, no Japão, o livro chegou à fase final do prêmio “Japan Grand Prix Horror Novel”, mas foi desclassificado por causa de seu conteúdo polêmico. Mas o que poderia ser considerado polêmico em um livro de terror? Para os japonese, polêmica é uma história onde 42 estudantes do ensino fundamental são sequestrados pelo próprio governo e levados para uma ilha onde deverão participar de um jogo. Pior, um jogo onde terão que matar uns aos outros, até que reste apenas um.
Apesar, ou por causa da polêmica, o livro foi um sucesso, publicado em 17 países, vendeu mais de 1 milhão de exemplares no Japão, ganhou adaptação cinematográfica em 2000, com continuação em 2003, e uma versão no formato de manga. Curiosamente, foi justamente a versão em manga que chegou primeiro ao Brasil, seguido pelo filme. Apenas em 2014 a Globo Livros lançou a versão brasileira da obra, traduzida direto do japonês por Jefferson José Teixeira.

História

“Vivemos sob um regime fascista bem-sucedido. Em que outra parte do mundo há algo mais malévolo?”



O livro é uma distopia, passada em um país autoritário chamado “República da Grande Ásia Oriental”. Como em toda distopia, o governo autoritário precisa de um mecanismo para controlar a população e impedi-la de voltar-se contra o regime. Para isso, foi criado o Programa, no qual estudantes do nono ano de uma turma de ensino fundamental são escolhidos para participar de um jogo sangrento pela sobrevivência. O objetivo é simples e cruel: “mostrar para a população como o ser humano pode ser cruel e como não podemos confiar em ninguém – nem mesmo no nosso melhor amigo de escola”.

O jogo

Nessa edição do “Progama” a Turma B da Escola de Ensino Fundamental Shiroiwa é a escolhida. Durante uma suposta viagem de excursão, eles são sedados e sequestrados pelos realizadores do “Programa”. Eles acordam em uma sala de aula, cada um com uma coleira no pescoço. Ali, eles são avisados sobre o jogo do qual participarão nas próximas horas e as regras que deverão seguir:
1 – Todos receberão um kit de sobrevivência com pão, água e algum tipo de arma, que pode ser uma pistola, uma metralhadora, um garfo de cozinha, um vidro com veneno ou qualquer outra coisa útil, ou inútil.
2 – Nos kits também serão entregues uma lista com os nomes de todos os estudantes e um mapa, dividindo a ilha em que estão em quadrantes. A cada 6 horas, o responsável pelo “Programa”, Kinpatsu Sakamochi, fará um anúncio listando os alunos que morreram e os quadrantes que passarão a ser proibidos. O objetivo é fazer com que os estudantes não fiquem escondidos em um único local.
3 – Além de possuir um localizador, as coleiras também têm um explosivo, que será ativado quando um estudante estiver em um quadrante proibido.
4 – Se passar 24 horas sem que nenhum estudante morra, os explosivos explodirão e não haverá sobrevivente.
5 – Só poderá haver um sobrevivente, ou nenhum, no caso de 24 horas sem mortes.

Na versão do filme, em inglês, uma comparação com "Laranja mecânica" e "O senhor das moscas".

Narração

A história é narrada em primeira pessoa e, apesar de ter um trio de protagonista bem definido, não se concentra apenas neles. A intervalos, Koushun Takami narra o que está acontecendo em outros lugares da ilha, as lutas pela sobrevivência e pela sanidade.
A maioria dos estudantes da Turma B se conhecem desde crianças, possuem todo tipo de laços afetivos ou inimizades alimentada ao longo de anos.
Cada personagem tem sua perspectiva contada, dando ao leitor um vislumbre de quem eles eram antes do jogo, quais seus sonhos, qualidades e defeitos. A identificação é natural e, em determinado ponto, o leitor se sente como o 43º estudante, ou jogador. Ele conhece todos os colegas de turma, gosta de alguns, detesta outros, e é impossível não entender a dor daqueles que viram alguém de quem gostam morrer.
Em uma situação como essa, cada pessoa reagiria de uma forma, e Koushun também mostra isso de maneira impecável. Há os que se recusam a participar do jogo e buscam uma maneira de fugir dele, arranjar alianças e convencer os colegas a não lutarem. Há os que enlouquecem e deixam de distinguir amigos de inimigos. Os que liberam seus instintos de sobrevivência, seu caráter individualista ou a pura e simples crueldade.
Em outras palavras, ao fazer o leitor se aproximar do personagem, Battle Royale se torna visceral.

Comparações

Inspiração, plágio ou coincidência?


Parabéns a você que até esse momento conseguiu fugir das prováveis e inevitáveis comparações com outras obras com temática parecida. A mais tangível delas é Jogos Vorazes. E a comparação é até razoável:
Em um cenário distópico, o governo autoritário de um país decide que a melhor maneira de controlar seu povo e evitar uma revolução é controlando suas “crianças”. Sendo assim, criam uma espécie de jogo em que adolescentes são levados para um arena e obrigados a lutar pela própria vida, restando apenas um.
Como tentei explicar na minha resenha sobre Jogos Vorazes, o conceito de levar pessoas a arenas foi trazido da Roma Antiga e sua política de “pão e circo”, ou seja, dar à população comida e entretenimento. Os gladiadores faziam parte desse entretenimento e frequentemente eram jogados no Coliseu para lutas sangrentas pela sobrevivência.
Suzanne Collins, autora de Jogos Vorazes, admite que suas inspirações foram: A Roma Antiga, sua política do entretenimento e seus gladiadores, a guerra, e os Reality Shows. Segundo ela, nunca havia lido Battle Royale, portanto, a acusação de que sua obra fosse uma “cópia” ou uma “repaginada” da obra de Koushun Takami seria infundada.
Não dá para saber se ela está dizendo a verdade, mas vou usar a “Presunção de Inocência”, princípio do Direito, a favor dela. Até que se prove o contrário, Suzanne Collins deve ser considerada inocente.
Num primeiro momento, Jogos Vorazes fala sobre a decadência da sociedade, que foi tomada pela futilidade e pelo individualismo. Num segundo momento, a política toma a frente do enredo e o livro passa a falar sobre lutar contra o autoritarismo do governo estabelecido em Panem.
Em Battle Royale há, por parte de alguns personagens, uma raiva mal contida contra o governo e o desejo de vingança e/ou rebelião. Mas, no contexto em que estão inseridos, as possibilidades de fazer algo fica bastante limitada. Além disso, o que sustenta o “Programa” não é exatamente o “pão e circo”. Grande parte da população passa por dificuldades financeiras, muitos dos estudantes moram em orfanatos, há várias insinuações de prostituição infantil, em outras coisas. A população sabe da existência do “Programa”, mas só é informada sobre a última edição, depois que há um vencedor e as informações fornecidas se resumem ao número de mortos, as maneiras como cada estudante morreu e o nome do vencedor.
Em Battle Royale a revolta contra o governo parece muito mais um pano de fundo, do que o tema central da obra. Prova disso é o foco da narração, que é a relação entre os personagens.
Outra inspiração do autor foi, acredite ou não, um tipo de “luta livre” profissional do qual ele era fã. Caso não acredite em mim, está na página 15 da edição brasileira do livro.
Há muitas outras histórias, seja na literatura ou no cinema, que usam a cultura dos gladiadores como inspiração. Se as pessoas forem se focar apenas nisso, então pouquíssimas obras serão originais.
De fato, como identificar quem foi o primeiro a fazer isso ou aquilo, se todas as ideias são baseadas em alguma outra coisa? Nada surge do nada.

Adaptações

Battle Royale I: Survival Program

Um ano após sua publicação, Battle Royale ganhou uma adaptação cinematográfica, que entrou para a lista de favoritos do cineasta Quentin Tarantino, que teria declarado que, de todos os filmes feitos desde que ele se tornou cineasta, esse era um dos que ele gostaria de ter filmado. De fato, tem várias cenas que poderiam muito bem ter a assinatura de Tarantino, com destaque para a cena do farol.



A continuação do filme chegou em 2003, chamada Battle Royale II: Requiem, que mostra o personagem que “venceu” o Programa descrito no livro original, como um rebelde unindo forças contra os “adultos” que permitem que tal jogo aconteça, e contra o governo. No filme, o Programa sofre uma mudança nas regras: os estudantes andarão em pares e não podem afastar-se um do outro, caso contrário, terão suas coleiras explodidas. E o objetivo: matar o líder da rebelião. Essa continuação não foi tão bem aceita, nem possui um livro no qual se basear.

Capa do manga

O livro também ganhou uma versão em manga, parceria de Koushun Takami com Masayuki Tagushi. E uma continuação, dessa vez em parceria com Hitoshi Tomizawa, Battle Royale II: Blitz Royale, que segue a mesma premissa, mas conta uma história diferente.

Capa do Battle Royale II: Blitz Royale

Cada adaptação sofreu alguma mudança em relação à obra original. Por exemplo, no livro, Kinpatsu Sakamochi é apenas um dos realizadores do Programa, o homem responsável por falar com os estudantes e dar os anúncios diários a respeito dos mortos e dos novos quadrantes proibidos. No filme, esse personagem é Kitano, que teria sido professor daquela turma dois anos antes de serem escolhidos para o Programa. No manga, esse papel cabe a outro personagem: Yonemi Kamon.
Portanto, ler o livro, os mangas ou assistir aos filmes, são experiências completamente diferentes.

Extra

Meus personagens favoritos:

- Shogo Kawada (o estudante nº 5): um ano mais velho que o restante da turma, ele repetiu um ano. É quieto e ninguém sabe muito sobre ele. 
- Mitsuko Soma (a estudante nº 11): teve uma vida difícil, desde pequena e aprendeu a depender e se importar apenas consigo mesma.
- Shuya Nanahara (o estudante nº 15): mora em um orfanato, gosta de rock'n'roll, mas seu governo não permite nada que venha dos "Imperialistas americanos". Tem ideias controversas.
- Noriko Nakagawa (a estudante nº 15): é apaixonada por Shuya e paixão platônica do melhor amigo dele, Yoshitoki Koninobu.
- Shinji Mimura (o estudante nº 19): inteligente, ele aprendeu boa parte do que sabe com seu tio, um ativista contra o governo.

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Stephen King, para o Entretaimment Weekly:

“Battle Royale é uma pulp riff insanamente divertida […]. Ou talvez só insana. Quarenta e dois estudantes japoneses, que acreditam estar partindo para uma excursão de escola, são largados em um ilha, equipados com armas, de metralhadoras a garfos de cozinha, e forçados a lutar entre si até que apenas um sobreviva.”

Agora, você se pergunta: que tipo de história é capaz de agradar ao mesmo tempo Quentin Tarantino e Stephen King?

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Booktrailer produzido pela Globo Livros


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A edição da Globo Livros é caprichadíssima, com auto relevo na capa, mapa da ilha, quadrantes proibidos e uma ajudinha para o leitor ocidental: lista com os nomes dos estudantes e seus números de chamada.
Para quem não está acostumado com mangas e animes, os nomes dos personagens são muito difíceis de pronunciar, escrever e diferenciar. Porém, o autor sempre que se refere a um personagem, coloca ao lado o número de chamada do sujeito. Se for complicado pronunciar algum nome, concentre-se no número. Para ajudar, uma pequena, improvisada e incerta aula de japonês:
- O "U" é quase sempre mudo, como em "Sasuke", personagem de "Naruto", onde se lê "Saske".
- O "H" tem som de "R", ou seja, no nome "Hiroki, a pronúncia é "Riroki" e no nome "Haruka", a pronúncia é "Raruka". Ou pelo menos é o que aprendi com a "Hinata", também de "Naruto".
Sim, meus conhecimentos de japonês começam e terminam em Naruto.