sábado, 14 de março de 2015

Livro | Recomendação | Distopias | Parte 1

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Jogos Vorazes e Divergente

Desde o lançamento do primeiro filme de “Jogos Vorazes” vários livros com temas distópicos começaram a pipocar nas livrarias, todos voltados para o público adolescente. “Divergente”, “Maze Runner”, “Starters”. Neles adolescentes tornam-se as peças principais em um jogo de poder e manipulação, sustentando nos ombros a condição de “salvador da pátria” e dividindo com um par romântico aleatório o maior número de páginas possíveis, especialmente aquelas em que o único propósito é desenvolver o romance. Por mais que eu gosto de “Jogos vorazes”, por exemplo, não vejo o menor sentido em tanto drama daquele triângulo amoroso desnecessário. “Divergente” perde um tempo precioso com carícias bobas entre os personagens “Tris” e “Quatro”, em trechos que eu apenas queria pular, porque… enfim.
No entanto, não estou aqui para atirar pedras nas distopias adolescentes. Elas são, no fim das contas, o ponto de partida para aqueles que gostarem do tema e quiserem se aprofundar. Mas é preciso esquecer o romance. Esqueça os triângulos amorosos complicados, esqueça o final romântico de Hollywood. As distopias que foram realmente importantes para o mundo não são românticas. São cruas, cruéis e diretas. São sujas, tensas e sem esperança.
Em uma distopia, encontramos uma sociedade alienada e controlada por um governo autoritário. Uma sociedade de prazeres e/ou deveres, que ignora completamente sua posição inferior e indigna, ou está com tanto medo de seu governo, que se encontra impotente para reagir. É um ambiente sufocante, do qual parece não haver escapatória.
Vaidade é poder, ignorância é servidão.
As distopias cutucam feridas, mostram no que a sociedade poderá se tornar se parar de sentir as coisas que precisam ser sentidas, se as pessoas pararem de pensar por si mesmas e começarem a pensar como um único órgão coletivo, caminhando cegas para o mesmo destino sem propósito.
As distopias são metáforas que trazem um ressoante aviso: “É nisso que vamos nos tornar”.



Nome: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Lançamento: 1953
Páginas: 177
Editora: Biblioteca Azul
Gênero: Distopia

Premissa:
Guy Montag é um bombeiro e, como tal, seu trabalho é queimar. Quando o alarme soa no posto dos bombeiros, ele sai com seus colegas, encontra a casa denunciada. Se encontra um ou mais livros ali, queima-os. Livros são proibidos. Livros são ameaças à felicidade. Guy faz seu trabalho sem reclamar, sem questionar.
Quando conhece Clarisse, uma menina que parece não ter medo dos bombeiros, que gosta de falar sobre dentes-de-leão e sobre como as coisas são e como as coisas costumavam ser, Montag começa a perceber que alguma coisa está errada. A princípio, ele pensa que é ele quem está com um problema.
Depois, Montag começa a olhar ao redor e observar a forma de vida das pessoas. O entretenimento vazio. A correria, os deveres e as diversões. A impessoalidade. A profunda falta de conteúdo e de sentido nas vidas de todos.
Apesar de sua função ser queimar livros e de saber que os livros são responsáveis por colocar ideias tolas e tristes nas cabeças das pessoas, Montag tem cada vez mais dificuldade para controlar sua curiosidade e, com ela, suas dúvidas e seus questionamentos.

Comentário:
Qual a importância dos livros nas nossas vidas? Por que nós, leitores, nos importamos tanto com um conjunto de papéis sem nenhuma utilidade além de lotar nossas prateleiras? Por que gastamos dinheiro com eles, mesmo em um país como o Brasil, onde os livros são caros, quase sempre feitos sem amor, sem cuidado, com erros de tradução?
E os livros digitais, uma solução prática para a falta de espaço e barata para o nosso bolso. Eu posso comprar quantos livros digitais eu quiser, armazená-los em um dos muitos e-readers e não incomodar ninguém com a quantidade.
Pois não temos por esses o mesmo amor, a mesma devoção que temos pelos físicos? Você não gosta mais de um livro só porque ele é físico ou digital. Você gosta do que está dentro dele. Da história, da informação que você tira dele. Uma vez lido, um bom livro nunca é esquecido. Ele se torna parte de você. Aquela história vai para o seu arquivo, ele faz parte do seu conhecimento do mundo que te cerca. Mesmo que seja um livro de fantasia, ficção científica. Mesmo que seja um livro ruim. Passar pela experiência de ler um livro ruim também transforma a pessoa, a torna capaz de distinguir o que é bom do que é ruim, capaz de opinar, de não ser um perpetuador de discursos preconceituosos e vazios.
Você gostaria de viver em um país que não permite a leitura de grandes clássicos? Um país que proíbe o jovem de ler um livro sobre maga, Deus ou robôs? Você gostaria de viver em uma sociedade que vive para o desperdício, para o “entretenimento vazio” como a sociedade em que está Montag? Se sua resposta é “não”, você provavelmente está pronto para entender sobre o que Fahrenheit 451 fala.
Livro é conhecimento. Conhecimento é opinião. Opinião é pensamento crítico. E pensamento crítico é ameaça para aqueles que querem governar a sua mente e dizer-lhe o que fazer, o que sentir, em que acreditar.


Nome: 1984
Autor: George Orwell
Lançamento: 1949
Páginas: 414
Editora: Companhia das letras
Gênero: Distopia

Premissa:
O mundo divide-se em três grandes nações:
·         Oceania – Oceania, América, Islândia, Reino Unido, Irlanda e parte da África.
·         Eurásia – Europa (exceto as áreas governadas pela Oceania) e Rússia.
·         Lestásia – Japão, China, Coréia, Índia e demais países vizinhos.
A história se passa na Oceania, governada pelo Partido Interno, que tem no Big Brother seu maior símbolo, e segue o lema “Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”. Na disputa por parte da África e da Antártica, a Oceania está em constante guerra hora contra a Eurásia (aliando-se à Lestásia), hora contra a Lestásia (aliando-se à Eurásia).
O Partido governa através de quatro ministérios:
·         Ministério da Verdade – responsável pela informação. Na prática, o Ministério da Verdade é responsável por reescrever documentos históricos, jornais, livros e qualquer outro texto que possa contar a história tal como ela aconteceu.
·         Ministério da Paz – responsável pela guerra. A guerra, no mundo de 1984, nunca tem fim. A população vive sob a ameaça representada pelos países vizinhos, trabalhando em nome de uma guerra que só se mostra através da escassez e de tanques e soldados cruzando as cidades esporadicamente.
·         Ministério da Farturra – responsável pela esconomia. A informação oficial do governo é que o país está passando por um período de riqueza e prosperidade, mas os números divulgados não se refletem nas condições de vida de seus cidadãos, especialmente da classe baixa.
·         Ministério do Amor – responsável pela repressão. No regime totalitário imposto pelo Partido, o Ministério do Amor é responsável pela opressão, pela captura e “convencimento” dos opositores do governo.

É nesse contesto que “começa” a história de Winston Smith, cidadão cumpridor de seus deveres e funcionário do Ministério da Verdade. Seguindo as atribuições desse ministério, Winston reescreve a história constantemente. Por muito tempo, assim como seus colegas, ele permanece ignorante de seu papel e do significado do seu trabalho. Durante uma das sessões de ataque ao inimigo da nação Emmanuel Goldstein, e de adoração ao Grande líder, o Big Brother, Winston conhece Julia que, como ele, também percebe que há alguma coisa errada.

Comentário:
Nessa sociedade, diferente da sociedade criada por Ray Bradbury, não há espaço para entretenimento e prazer. O sexo, por exemplo, é visto como crime, a menos que praticado com o intuito de procriação. Porém, assim como em “Fahrenheit 451”, as pessoas são incentivadas a “não pensar”. A “Novilíngua”, idioma que está sendo criado pelo governo, o Partido elimina a possibilidade do cidadão ser “contra” o governo, usando termos como duplipensar (aceitar duas ideias contraditórias como verdadeiras), crimideia (que consiste em tornar o pensamento em um crime) e impessoa (alguém que não existe mais, que deve ser esquecido), transforma a comunicação entre as pessoas. Se você pode aceitar duas ideias contraditórias como verdadeiras, como você pode questionar uma delas?
Como escapar de um governo que não controla apenas seu pensamento, mas sua capacidade de pensar? Como escapar de um governo que o observa de dentro de sua própria casa? Onde se esconder? Em quem confiar?

Por fim, Winston descobre que em uma mão há seis dedos e não cinco. Sempre houve seis dedos. E sempre haverá…