domingo, 2 de novembro de 2014

Livro | Resenha | As crônicas de Nárnia - C. S. Lewis

Possíveis spoilers.

"Inclino-me quase a afirmar como regra que uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim. As boas permanecem." - C. S. Lewis.

Capa do Volume único
Um dos exercícios mais difíceis e essenciais para uma leitura proveitosa é aquele que exige do leitor adaptar-se ao livro que vai começar a ler. Ou seja, entrar no clima da história, seja romance, terror, drama, comédia ou, como o assunto desse post, infantil.
Quando peguei "As crônicas de Nárnia", de C. S. Lewis para ler, eu procurei ser cuidadosa. Não que a leitura possa ser incomoda para a mente de um adulto, mas certamente a compreenção será diferente. Para dar exemplos práticos, quando eu era criança e assistia "Chaves", "Chapolin" e "Os Simpsons", eu interpretava as histórias de maneiras completamente diferentes das que interpreto agora. Hoje tenho consciência de que "Os Simpsons" é tudo, menos um desenho feito para crianças.
A minha edição é o volume único com os sete livros apresentados na ordem cronológica da história, e não da publicação, embora todos possam ser lidos separadamente e em qualquer ordem, sem prejuizo do entendimento. Recomendo, apenas, que "A última batalha" seja lida por último, por motivos que a própria história revelará a seu tempo.
Eu sinceramente não sei dizer qual das sete histórias é a minha favorita, cada uma tem sua própria atração, embora talvez eu possa apontar uma ou duas que não me agradaram muito, como Príncipe Caspian, sabe-se-lá porquê, talvez pela demora para que alguma coisa acontecesse, e "A última batalha", por causa de Suzana e do arremate da história que é, simplesmente, "..." demais pra mim. Sei que muita gente gosta e que o significado vai muito além do preto no branco, mas mesmo assim...
Algumas pessoas consideram "Nárnia" como um "livro bíblico", como eu tive a oportunidade de ouvir pessoalmente. Errado. Não é um livro bíblico, embora alguns pontos sejam claramente inspirados na bíblia e Aslam, o Leão que guia os personagens, seja uma alusão óbvia à Jesus Cristo. Talvez tais alusões incomodem, por exemplo, um ateu, mas como eu disse no começo do texto, é preciso "entrar no clima da história", vestir sua capa de criança e ler sem compromisso com significados cristãos ocultos.
Eu tive uma criação católica, mas por x motivos acabei por me afastar da igreja e questionar alguns dogmas religiosos se tornou uma atividade natural para mim. Mesmo assim, procurei ler esses livros como leria uma fantasia, ou um conto de fadas. Se você não for o tipo de pessoa irredutível, radical, preconceituosa e sem imaginação, não terá dificuldade para ler Nárnia.
Nessa edição também há um ensaio do autor, chamado "Três maneiras de escrever para crianças", no qual ele disserta a respeito do que significa, para ele, escrever para criança, dar o que a criança quer, de forma automática, ou procurar a melhor forma para descrever a ideia que se quer passar? Recomendo a leitura, pois se eu for colocar todas as citações que achei interessante desse texto, esse post não acaba mais.

O sobrinho do mago

A primeira história foi a penúltima a ser lançada, em 1955. Conta a história de Digory, um menino cuja mãe está doente e que vai morar com os tios, e de sua nova vizinha, Polly. Um belo dia os dois estão brincando no sótão da casa, quando por acidente vão parar no quarto do tio de Digory, um homem meio maluco chamado André.
Esse tio é um estudioso de universos paralelos e acaba de descobrir uma maneira de viajar por esses universos através de dois tipos de anéis que ele inventou: um verde, para ir para outro mundo, e um amarelo, para retornar. Porém, o tio André não tem coragem para embarcar nessa aventura e acaba enviando o sobrinho e a amiguinha dele nessa empreitada.
Essa é a história que narra a criação de Nárnia, dos animais falantes, a nomeação de seus primeiros Rei e Rainha, de uma das principais inimigas desse novo mundo, a Feiticeira Branca, além de uma explicação plausível (dentro de um universo de fantasia) para os portais dimensionais que levam as crianças das outras histórias até Nárnia.

O leão, a feiticeira e o guarda-roupa

Essa história não deve ser novidade para quem já assistiu ao filme com o mesmo nome, e vale dizer que dos três filmes, esse é o mais fiel ao livro a que se refere. É aqui que conhecemos os quatro reis mais importantes de Nárnia, Pedro, Edmundo, Suzana e Lúcia. Vou logo largar um spoiler inofensivo aqui e dizer que eles são sobrinhos de Digory (desculpa, se você não achou isso inofensivo). A Inglaterra está em meio à guerra e as quatro crianças são enviadas para a casa do tio, onde, durante uma brincadeira de esconde-esconde, Lúcia encontra um guarda-roupa mágico que a transporta para Nárnia.
Seu irmão, Edmundo entra no guarda-roupa atrás dela, mas não a encontra, ao invés disso, conhece a Feiticeira Branca, que o convence que há um grande mau cercando Nárnia e que, se ele a ajudar, será nomeado Grande Príncipe e governará aquela terra ao seu lado. Para isso, tudo o que ele precisa fazer é entregar a ela as outras crianças que entraram em Nárnia.
Tudo bem que, nessa história Edmundo nada mais é que um traidor, mas acredito que de todos os irmãos, é ele quem mais se transforma a partir de sua ida para Nárnia. Ele era chato, arrogante e egoista, e ao perceber seu erro, e ouvir um sermão de Aslam, Edmundo se transforma e passa a ser um garoto justo e leal.

O cavalo e seu menino

Uma das histórias que eu mais gostei, embora muita gente discorde de mim. Narra a história de um garoto órfão, Shasta, que é criado como um escravo, e de um cavalo falante de Nárnia, chamado Bri, que foi levado para longe de sua terra natal e usado como cavalo de guerra comum. Shasta tem um forte pressentimento de que seu verdadeira destino está longe da Calormânia, onde está no início da história, e tudo o que Bri quer é voltar para sua terra natal, onde os cavalos são nobres e tratados descentemente.
Essa é uma história sobre auto conhecimento e humildade, quando Shasta aprende sobre ser corajoso e Bri sobre ser humilde.
Também nos apresenta as terras vizinhas a Nárnia, como a Arquelândia, amiga, e a Calormânia, inimiga.





Príncipe Caspian

Em determinado momento da história de Nárnia, essa terra deixa de ser governada pelos quatro reis, as crianças que voltaram para o "mundo real" e sumiram de Nárnia sem maiores explicações para seu povo. Agora, Nárnia é governada pelos telmarinos, um povo que veio das Montanhas Ocidentais, e que praticamente "transformaram" a história de Nárnia em lendas, afinal, que coisa absurda crer que animais falam e que houveram quatro reis vindos de outro mundo! Enfim, é desse povo que provém Caspian, herdeiro do trono, mas que tem fortes ligações com as histórias que os telmarinos chamam de lendas. Quando seu tio tenta assassiná-lo para que seu filho seja o herdeiro do trono, Caspian foge e acaba por ser acolhido por anões e animais falantes, que lhe juram lealdade e prometem ajudá-lo a reconquistar Nárnia. Além deles, Cáspian também recebe ajuda dos quatro grandes reis de Nárnia, há muito desaparecidos, e que retornam nessa história, e em outras, sempre que Nárnia se encontra em perigo.

A viagem do Peregrino da Alvorada

Essa é, provavelmente, a minha história preferida e tem aquele que eu considero meu personagem favorito: Eustáquio. Da mesma forma que aconteceu com Edmundo em sua primeira viagem à Nárnia, esta é a vez de Eustáquio ser "transformado", no que vem a ser uma das transformações mais extremas de toda a narrativa sobre Nárnia. Além disso, nessa história o Rei Caspian tem como missão encontrar os sete fidalgos de Nárnia fieis a seu pai e que, há muito tempo, tinham sido mandados por seu tio para o mar em busca das Ilhas Solitárias. Toda a viagem e as paradas nas ilhas são interessantes, e lamento hoje, tendo lido o livro após assistir o filme, que certas coisas tenham sido mudadas.






A cadeira de prata

Nessa história Eustáquio retorna a Nárnia em companhia de uma colega de escola, Jill, e a missão deles é encontrar o príncipe desaparecido, Rilian, que foi sequestrado por uma feiticeira há mais de dez anos. Eles recebem de Aslam alguns sinais que devem ser seguidos para que consigam cumprir a missão e, embora, consigam, o final é um pouco... melancólico.

A última batalha

Nessa história, um macaco malandro usa seu inocente amigo, um jumento, e uma pele de leão para enganar os habitantes de Nárnia, fingindo agir sob as ordens de Aslam. Assim, ele faz um acordo com o povo historicamente inimigo de Nárnia, os calormanos, e começa a cortar árvores e vender animais como escravos para a Calormânia. O atual rei de Nárnia, Tirian, precisa fazer alguma coisa para salvar seu povo e sua terra. E mais uma vez, recebe a ajuda das crianças, Eustáquio e Jill, além de outras ajudas que aparecem mais tarde, para resolver a situação que já está bem crítica...
Tem algumas partes nessa história que são um pouco assustadoras, como a presença do deus Tash, que é simplesmente medonho, sob a forma de uma espécie de ave carniceira, de quatro braços e... dá calafrios só de pensar. Essa é a entidade venerada pelo povo da Calormânia, por quem eles têm adoração e pavor.

"As crônicas de Nárnia" são histórias muito ricas, sobre bondade, descência e fé. Como toda boa história, tem um começo, um meio e um fim, sem pontas soltas, sem grandes questionamentos, tudo apresentado de forma leve e bonita. São belas histórias para crianças e belas histórias para adultos, que valem a pena serem lidas e passadas a diante.

"(...) Em nossa época, se um homem de cinquenta e três anos admite ainda adorar de anões, gigantes, bruxas e animais falantes, é menos provável que ele seja louvado por sua perpétua juventude do que seja ridicularizado e lamentado por seu retardatismo mental."

"Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino, inclusive o medo de ser infantil e o desejo de ser muito adulto".

- C. S. Lewis.

Um comentário:

  1. Eu sumi, mas estou por aqui... Só observo... ;3

    Você ainda é a minha escritora favorita! Seja para contos, seja parq pitacos!

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