domingo, 14 de setembro de 2014

Livro | Resenha | Orgulho e preconceito - Jane Austen

Um comentário:
O livro é narrado em terceira pessoa (um viva para isso!) e conta a história da família Bennet, que, como outras famílias da região, descobre que há um novo rapaz rico e solteiro chegando para passar o verão. Imediatamente, a Sra. Bennet tenta convencer o marido a, conforme o protocolo da época, ir visitar seu novo vizinho, o Sr. Bingley, a fim de que, em algum momento, ele se apaixonasse e casasse com uma de suas cinco filhas.
A situação financeira da família Bennet, apesar de boa, não é muito promissora. Por não ter tido nenhum filho homem, assim que o Sr. Bennet falecer, suas propriedades passarão para um parente distante, o Sr. Collins, que nenhum deles jamais conheceu, e que poderia facilmente expulsar a Sra. Bennet e suas filhas de sua casa, deixando-as sem nada.
Por isso mesmo que é tão importante para a Sra. Bennet que uma de suas filhas, de preferência todas elas, faça um bom casamento. Porém, pode ser que nem tudo saia do jeito que a pobre Sra. Bennet deseja...
As cinco filhas do casal, com exceção de Kitty, não poderiam ser mais diferentes uma da outra. A mais velha, Jane, é a pureza em pessoa, embora às vezes inocente demais quanto a intenções maliciosas. Elizabeth Bennet é a segunda filha do casal, não tem grandes pretensões matrimoniais, é muito inteligente e tem sempre uma resposta sagaz na ponta da língua. Mari é uma garota chata e sem graça, que faz questão de se mostrar inteligente, eficiente e superior em tudo. Lydia, é, em termos simples, cabeça-oca e facilmente deslumbrável. Por fim, há Kitty, que apesar de ser mais velha que Lydia, é bastante influenciada pela caçula, sem personalidade mais específica que isso.
Durante um baile, pouco após a sua chegada, o Sr. Bingley demonstra considerável interesse na filha mais velha do casal, Jane, que também sente uma forte atração por ele. Parece uma história de amor bem simples, mas há de se considerar que numa sociedade em que os valores financeiros eram por vezes mais interessantes que os valores morais, nem tudo poderia ser tão fácil. A situação da família de Jane é muito distante da da família Bingley e não faltariam pessoas para se contraporem a uma possível união entre elas. Entre eles, está o Sr. Darcy.
Fitzwillian Darcy (nome lindo esse, heim? 'Bora colocar no seu filho?) é um homem arrogante, orgulhoso e absurdamente rico. Nesse mesmo baile, ele só dança com as irmãs de seu amigo Bingley, e com mais ninguém. Ele é tido por toda aquela pequena sociedade como um homem desprezível e desagradável, apesar de ele não ter ofendido diretamente ninguém, além de uma pessoa...
“Devido à falta de pares, Elizabeth Bennet fora obrigada a ficar sentada durante duas danças; e parte desse tempo ela passou suficientemente próxima a Sr. Darcy para ouvir uma palestra entre ele e Sr. Bingley.
(...)
__ Você está dançando com a única moça realmente bonita que existe nesta sala __ disse Sr. Darcy, olhando para a mais velha das irmãs Bennet.
__ Oh, é a mais bela moça que já vi na minha vida, mas bem atrás de você está uma das suas irmãs, que é muito bonita e agradável. Deixe-me pedir ao meu par que o apresente a ela?
__ Qual? __ perguntou ele, voltando-se e detendo um momento a vista em Elizabeth até que, encontrando os seus olhos, desviou os seus e disse, friamente: __ É tolerável, mas não em beleza suficiente para tentar-me. Não estou disposto agora a dar atenção a moças que são desprezadas pelos outros homens.”

Depois de ouvir esse comentário, Elizabeth, ou Lizzy como é chamada durante boa parte da história, pode não ter ficado tão ofendida quanto qualquer outra mulher ficaria, mas permaneceu determinada a não lhe oferecer mais simpatia do que havia recebido. De fato, a princípio, todas as interações entre o Sr. Darcy e Lizzy não foram mais simpáticas do que cordiais.
Porém, a inteligência e naturalidade de Lizzy começam a chamar a atenção do Sr. Darcy, que, apesar de preferir manter uma distância saudável de todos os membros da família Bennet, parece incapaz de ignorar Elizabeth, que por sua vez, ignora por completo o interesse dele.
“Ocupada em observar as atenções de Sr. Bingley para com sua irmã, Elizabeth estava longe de suspeitar que estava se tornando o objeto de algum interesse aos olhos do amigo de Sr. Bingley. A princípio, Sr. Darcy nem sequer tinha concordado com os que achavam que ela era bonita. Olhara-a no baile sem admiração. E da outra vez em que se encontraram, fitara a moça apenas para criticá-la. Mas logo que declarara a si mesmo e aos amigos que Elizabeth não possuía um só traço agradável no rosto, começou a achar que a bela expressão dos seus olhos negros dava àquele rosto um ar excepcionalmente inteligente. A esta descoberta sucederam outras igualmente humilhantes. Embora o seu olhar crítico houvesse descoberto mais de um defeito na simetria das suas formas, foi forçado a reconhecer que as linhas do seu corpo eram de grande pureza; e apesar de sua afirmação de que as maneiras dela não eram as do mundo elegante, sentiu-se fascinado pela sua encantadora naturalidade.”

Pobre Sr. Darcy, antes tivesse ficado de boca fechada. Depois disso, todas as suas tentativas de aproximação com Elizabeth estão fadadas ao fracasso, pois cada coisinha que falava a ela era recebida com severa crítica e devolvida com excessiva astúcia.
De fato, essa relação não parece de forma alguma promissora durante todo o livro, especialmente quando Lizzy conhece o jovem Whitham. Ele é um jovem oficial, que chega à cidade causando grande impressão em todos os moradores. É bonito, inteligente e agradável, tão diferente de Sr. Darcy, que não admira que sua recepção, onde quer que fosse, fosse tão calorosa. Principalmente aos olhos de Lizzy, que vê nele objeto de grande admiração. Durante uma conversa, Elizabeth descobre que o Sr. Whitham e o Sr. Darcy conhecem-se desde a infância e que, graças à ingratidão e antipatia de Sr. Darcy, o Sr. Whitham estava agora privado da vida que deveria ter e tinha que se arranjar como pudesse.
...
Aqui, vou parar de falar sobre o enredo, pois, além desse ponto, vou acabar falando mais do que devo e estragando a experiência da leitura.
O título “Orgulho e preconceito” é perfeito para o livro. Na primeira metade do livro, cabe ao Sr. Darcy a parte do orgulho, que é o que o impede de assumir seus sentimentos e merecer assim o afeto de Lizzy, preocupando-se demais com a situação financeira e nada prestigiosa da família dela, e agindo com todos como se fosse superior. E a Lizzy, cabe o preconceito, pois mesmo que no início tenha motivos para julgá-lo um homem orgulhoso e arrogante, mais para frente na história, está tão cega pela sua antipatia por ele, que não consegue avaliar as situações tal como elas realmente são. E ela, que se achava tão inteligente e imune à enganações, é forçada a perceber que nem tudo é como parece.
É muito gostoso observar como a autora desenvolveu cada um dos personagens, nenhum deles parecido com o outro, a menos que isso fosse proposital, como no caso das irmãs Lydia e Kitty. Elizabeth Bennet é uma personagem muitíssimo interessante, que não deixa a história ficar entediante em nenhum momento, algo difícil de fazer, tendo praticamente todo o foco sobre ela. Porém, o mais interessante de tudo, são as interações entre ela e o Sr. Darcy. Tudo bem que eu sou assumidamente uma “boba apaixonada”, mas sério, eles são perfeitos juntos, e não digo apenas como um casal, mas como personagens que atuam juntos na história. As mudanças que acontecem nas personalidades de cada um são naturais e as motivações totalmente justificáveis.
Há muito tempo que este livro estava na minha já grande e ainda crescente lista de livros que eu tenho que ler na vida, mas nunca tinha encontrado um momento apropriado para lê-lo. Até que, no mês passado, eu me rendi. Li e... me descobri subitamente obcecada pela história, pelo Sr. Darcy, pela Srta. Bennet (Elizabeth, para ser mais exata). A maneira como Jane Austen constrói o enredo torna impossível abandonar a história a menos que seja extremamente necessário, como para trabalhar, dormir, comer... A leitura fluiu absurdamente rápida, leve e apaixonante, e assim que terminei eu sabia que ainda não estava pronta para deixar a história para trás. Aliás, é por isso que gosto tanto de séries, elas permitem que a história demore mais para acabar. Enfim, na impossibilidade de uma continuação, eu tive que caçar outro jeito de me manter presa na história.

Minissérie da BBC - 1995
Não queria reler, então fui atrás da minissérie da BBC britânica, em 6 capítulos, adaptada por Andrew Davies e estrelada por Jennifer Ehle e Colin Firth, perfeitos em seus papeis (todos os episódios, legendados, estão no youtube).
Espero que eu tenha conseguido mostrar o quanto eu amei esse livro, o quanto me arrependo de ter demorado tanto e o quanto estou feliz por finalmente ter me rendido aos encantos dele. Esse é um daqueles livros que a gente quer recomendar não apenas por que é bom, mas porque ele tem que ser lido. Então leia o livro, assista à minissérie da BBC e até ao filme, pois tenho certeza que, quando você terminar, estará louco/a por mais.