domingo, 13 de abril de 2014

Livro | Resenha | Morte súbita - J. K. Rowling

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O primeiro romance da autora da série Harry Potter, que se arrastou por sete livros e mais três livros complementares (Animais fantásticos & onde habitam, Quadribol através dos séculos e Contos de Beedle, o Bardo) é completamente diferente daquilo que seus fãs estão habituados. À época de seu lançamento, e sob a sombra daqueles que acham que J. K. Rowling deu apenas a sorte de escrever o livro certo para o público certo, Morte súbita carregou nos ombros a responsabilidade de provar que JK não é apenas uma boa escritora, mas que sua carreira pode sobreviver após, apesar e além de Harry Potter.
O livro foi lançado em 2012, e acredito que muita gente esteve pensando exatamente como eu. Se por um lado não se aguentavam de vontade de comprar o livro e descobrir como ele era, por outro tinham receio de não sentir a mesma emoção na leitura dele, que sentiram ao ler Harry Potter.
De fato, não senti as mesmas emoções, mas isso não foi ruim. Como eu disse antes, Morte súbita é completamente diferente dos outros livros da autora. É um livro para o público adulto, ou o público que cresceu lendo seus livros, e procura discutir questões como a vaidade e a hipocrisia da sociedade.
Para isso, JK escolheu como cenário um pequeno vilarejo fictício no interior da Inglaterra, chamada Pagford. A comunidade parece pacífica, conservadora e de certa maneira orgulha-se de seu isolamento, o que a ajuda a preservar seu estilo de vida. Só tem uma coisa que incomoda os moradores de Pegford, uma mancha em sua sociedade que alguns acreditam que deve ser eliminada o quanto antes. Trata-se de Fields, um bairro pobre na divisa do vilarejo com a cidade de Yarvil, onde vivem as pessoas marginalizadas, os viciados e criminosos.
É nesse bairro que nasce Barry Fairbrother, um dos conselheiros do vilarejo, que tem a capacidade de conquistar as pessoas com seu jeito fácil e brincalhão. Ele é considerado um dos poucos casos de pessoas nascidas em Fields que conseguiram “vencer” na vida, e tem dedicado seu tempo e influência, defendendo a permanência de Fields como parte de Pagford (seus adversários defendem que Fields passe a ser anexado às fronteiras de Yarvil, tirando do vilarejo a responsabilidades pelo bairro e pelas pessoas que vivem nele).

Logo no início do livro, porém, Barry Fairbrother morre e é aí que a autora apresenta aos leitores a comunidade e as pessoas que nela vivem, mostrando as diferentes reações à morte desse homem tão importante, e dando início à uma disputa política para substituílo no Conselho Distrital.
De um lado, temos as pessoas que o amavam, que decidem defender seus ideais. Do outro, seus inimigos políticos, ávidos pelo poder e em defesa da imagem imaculada de Pagford. E ainda há pessoas que não tiveram suas vidas influenciadas diretamente por Barry Fairbrother, mas que nem por isso devam ser ignoradas.
O ponto forte de JK é sua construção de personagens e a importância que ela dá aos seus conflitos internos, a aparência externa versus seus desejos mais íntimos. Se por um lado grande parte dos personagens não está onde gostaria, por outro lá há alguns muito satisfeitos em mostrar que são importantes, no controle das próprias vontades e inabaláveis em seus tetos de vidro.
J. K. decide contar essa história através de cenas, como se estivéssemos assistindo a um filme ou uma série. Não é exatamente como o George R. R. Martim em "As crônicas de gelo e fogo" onde cada capítulo se refere a um personagem, mas o esquema é mais ou menos o mesmo. O livro é dividido em sete partes, cada uma subdividida por cenas marcadas por números romanos, sendo assim: Parte um, I, II, III, IV, etc. E cada uma dessas subdivisões se refere a um núcleo. Tem o núcleo da família Wall, o da família Mollison, o da família Weedon, o da família Jawanda, e por aí vai. A história vai se desenrolando lentamente, e cada coisa que acontece na cidade interfere de maneira diferente em cada uma dessas famílias. Não sei se vai agradar todo mundo, algumas pessoas preferem se apegar a um personagem e seguir a partir daí, mas eu acho que, quando você se acostumar logo de início com a narrativa, em algum momento vai se identificar com algum personagem.
Não sei se consigo falar sobre cada um dos personagens sem deixar esse post grande demais. Então, vou me focar em apenas um, Krystal Weedon, que representa todas as questões que me incomodaram durante a leitura. Não por ser mal trabalhadas, longe disso. Mas por lembrar situações que tenho assistido no “mundo real”.

O que eu amei sobre Morte súbita foi justamente essa proximidade com a realidade. Escolhendo uma pequena comunidade, JK Rowling conseguiu retratar um retrato muito maior da sociedade, e conseguiu trazer isso para perto dos leitores, mesmo aqueles que não vivem na Inglaterra, mesmo aqueles que não vivem em cidades pequenas, mesmo aqueles que nunca conheceram uma Krystal ou uma Terri ou um Robbie Weedon.
Morte súbita é um livro que fala sobre as pequenas falhas de caráter das pessoas, suas vaidades, seus egoísmos e suas hipocrisias. Mas também fala da sociedade, de como as pessoas preferem ignorar certos problemas, como as drogas e a desigualdade social, fingindo que o que falta aos outros é um pouco de autocontrole e senso crítico, e ignoram que talvez o que falte é um pouco de compaixão e humildade para enxergar os próprios defeitos.