domingo, 23 de fevereiro de 2014

Livro | Resenha | A culpa é das estrelas - John Green

Um comentário:

Mais um livro lido na série “todos estão lendo, então quero saber do que se trata”. É uma citação desse livro aqui, outra ali, e já tem até data de estréia no Brasil da adaptação para o cinema. Logo, vocês já devem saber que é um sucesso. Mas o que isso realmente significa? Muitas coisas fazem sucesso hoje em dia. Todos os livros que li nos últimos três anos tinham a inscrição “Best seller no New York Times”, o que agora posso dizer por experiência, não é sinônimo de qualidade.
Trata-se de um livro Y/A, young-adult ou, ainda, Jovem-adulto, público alvo que tem recebido bastante atenção do mercado publicitário nos últimos anos. Isso porque os fãs de Harry Potter e Crepúsculo cresceram e as editoras estão interessadas em fisgar esses leitores e sua tendência a amar incondicionalmente uma série.
Vale dizer que “A culpa é das estrelas” pode até ter o mesmo público alvo, mas não tem elementos fantásticos, nem faz parte de uma série. É um livro solo, narrado em primeira pessoa e bem simples de ler. Três coisas com as quais eu estou cada vez menos acostumada.
Aliás, é impressão minha ou os livros Y/A (uai-ei) quase sempre são escritos em primeira pessoa? O que eles pensam, que jovens e adolescentes não conseguem se apegar a um personagem se a história for escrita em terceira pessoa? (Uma pergunta com um “Q” de retórica, mas sinta-se a vontade para responder).
Já faz alguns dias que terminei de ler “A culpa é das estrelas” e precisei desse tempo para pensar bem antes de começar a escrever essa resenha. Não que seja um livro difícil de analisar. É só que eu terminei de ler em uma semana particularmente sensível, e chorei como se esquecesse que se tratavam de personagens fictícios.
Pôster do filme

Hazel Grace é uma adolescente de dezesseis anos, inteligente, de pensamentos um tanto ácidos, e com câncer no pulmão. Gostei da personalidade dela, porque 1) menininhas frágeis são insuportáveis, 2) apesar de ser frágil pela natureza de sua doença, Hazel é forte por sua personalidade e 3) ela detesta que a considerem “uma heroína” por causa de sua luta contra o câncer. Diversas vezes ela contesta a motivação das pessoas em achar que pacientes de câncer são especiais apenas por estarem doentes. O que, por outro lado, não a impede de usar as “vantagens de se estar morrendo”, mas para ser justa, nem sempre essa escolha depende dela.
Também temos o par romântico de Hazel, o encantador August Waters, que é simplesmente fofo demais. Ele também tem câncer, embora esteja em reminiscência há alguns anos. Tal como Hazel, Gus não quer ser lembrado por sua luta contra o câncer nos ossos. Luta essa que nenhum dos dois acredita que exista. Ele gostaria que sua vida tivesse algum propósito, que se tivesse que ser considerado um herói, fosse por realmente salvar a vida de alguém e que, se fosse para ser lembrado, que fosse como alguém que fez algo tão importante, que seus feitos serão lembrados até depois de sua morte.
O livro me fez pensar em algumas coisas. A sociedade tem lutado contra todo tipo de desigualdade e tem sido cada vez mais importante mostrar que somos todos iguais, mesmo em nossas diferenças. No entanto, às vezes parece que buscamos o efeito contrário ao nosso discurso, tornando ainda mais evidente aquilo que é diferente. Você entenderá o que estou dizendo, pela reação das pessoas à doença de Hazel. A compaixão exagerada, a síndrome do coitadinho, que atinge muito mais quem observa do que aquele que é observado. Ou não, talvez afete aos dois de maneiras diferentes… pense nisso você também.
A história em si é um pouco previsível, desde o início deu para perceber que se tratava muito mais de uma história sobre perdas, do que sobre esperança, mas não é um livro triste, embora também não dê para dizer que é o livro mais feliz do mundo. Talvez algumas pessoas odeiem o final, talvez amem, e talvez seja apenas mais um livro. Mas a história, e o autor, não são ruins. Pelo contrário, para esse tipo de livro e para esse público, em meio a uma enxurrada de livros que se copiam, sem nenhum atrativo próprio, John Green surge como um alívio mais que necessário.

Alguns infinitos são maiores que outros. - John Green (A culpa é das estrelas) 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Divagando | Harry Potter, Romione e J. K. Rowling

Nenhum comentário:
[Esse post pode conter spoiler]

            Harry Potter e os personagens secundários


Rony, Hermione, Luna, Harry, Gina e Neville
Nunca morri de amores pelo protagonista, embora seja difícil não gostar dele. No fundo, acho que gosto dos underdogs, os perdedores, pessoas como Ron, Mione, Neville e Luna. Não que Harry seja uma pessoa feliz e sortuda, exatamente o contrário. A única família que lhe resta o odeia e ele passa boa parte da vida sem saber porquê, seus pais foram assassinados e desde que tinha apenas um ano de idade, tem sido caçado pelo bruxo das trevas mais poderoso que já existiu. É muito azar e tristeza para uma pessoa só. Sinceramente não sei como Harry conseguiu se manter depois do final deprimente de “A Ordem da Fênix”, parabéns a ele pela perseverança.
Essas são as coisas que eu gosto em Harry, o fato de que, apesar de tudo, ele não desiste. Porém, Harry é o protagonista e isso lhe dá certas vantagens. Sim, eu acabei de citar as coisas ruins de sua vida e já estou falando das vantagens. Parece estranho, mas siga comigo.
Como o herói da série, Harry está numa posição em que ele não tem que lutar para ser reconhecido. As pessoas o amam, por uma coisa que ele não lembra de ter feito. Harry passou onze anos de sua vida sem saber que era bruxo, descobre da forma mais abrupta possível, e começa seu primeiro ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Na primeira aula de voo, ele sai voando como se tivesse feito isso a vida toda, torna-se apanhador do time de quadribol, e a justificativa para isso é o fato de seu pai ter jogado na mesma posição quando era estudante em Hogwarts. Harry também conquista facilmente a simpatia de algumas pessoas, especialmente da família Weasley, de Hagrid e de Dumbledore...
Resumindo, a condição de protagonista te dá muitas dores de cabeça, é uma merda, mas há algumas regalias, que compensam muito bem a maldade do autor (porque todo escritor é um pouco “sociopata” com seus personagens).
Voltando aos underdogs da série, temos um grupo apaixonante de azarões ajudando Harry em suas aventuras.
Hermione Granger é uma menina genial, nascida em uma família trouxa, ou seja, uma família de pessoas sem qualquer tipo de magia no sangue, chamada por isso de “sangue-ruim” pelos bruxos adeptos da magia das trevas. No primeiro livro, Hermione é metida, intrometida e não tem amigos. No último livro, Hermione faz uma escolha extremamente difícil e altruísta, em nome de seus amigos e daquilo que acredita, que a tornou uma das melhores personagens femininas da literatura.
Luna Lovegood aparece no quinto livro e é simplesmente muito fofa. Luna é provavelmente a aluna menos popular dos livros, é estranha e as pessoas não entendem seu jeito de ser. Mas o leitor entende e o jeito como nada parece assustá-la ou magoá-la é quase uma lição de vida e você fica desejando ser “tão normal quanto ela”.
Neville Longbotton consegue ser ainda mais fofo que Luna e é a essência do que significa ser um underdog. Passei seis livros torcendo por ele, no quinto livro quase chorei com a história de seus pais, e fui recompensada com um Neville confiante e na liderança da resistência! Que orgulho!
(Também fiquei torcendo por Neville + Luna, mas vamos falar das escolhas românticas da série mais tarde nesse post).
E finalmente, temos meu favorito Ronald Weasley, o Rony (Rupert Grint é responsável por parte do meu amor pelo personagem). Segue um trecho na voz do personagem, para entende-lo um pouco:

 “- Cinco. – Por alguma razão, ele pareceu triste. - Sou o sexto da minha família a ir para Hogwarts. Pode-se dizer que tenho que fazer justiça ao nosso nome. (...) Gui foi chefe dos monitores e Carlinhos foi capitão do time de quadribol. Agora Percy é monitor. Fred e Jorge fazem muita bagunça, mas tiram notas muito boas e todo mundo acha que eles são realmente engraçados. Todos esperam que eu me saia tão bem quanto os outros, mas se eu me sair bem, não será nada de mais, porque eles fizeram isso primeiro. E também não se ganha nada novo quando se tem cinco irmãos. Uso as vestes velhas de Gui, a varinha velha de Carlinhos e o rato velho de Percy.” – Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Tudo bem que, comparada com a família de Harry, a família Weasley é perfeita e Rony não tem do que reclamar, mas nunca é assim tão simples, não é? Só nós entendemos o que nos deprime em nossas famílias e nada vai mudar isso.
No último livro, Rony sente o peso de tudo isso e somado com sua preocupação pela família, ele acaba tomando uma decisão que decepcionou alguns de seus fãs. Falando por mim, ele me decepcionou, mas depois se redimiu e eu consigo entender como ele chegou a isso.
Em tempo, eu sei que não falei da Gina Weasley, mas nunca me importei muito com ela. Isso é mais um problema meu com sua intérprete no cinema do que com a personagem em si, mas Gina não chega a ser uma underdog. Ela tem amigos, namora, e não sofre como Rony por ser a mais nova da família. Pelo contrário, ela tem vantagem por ser a caçula e por ser a única menina.
O que eu gosto em HP é a maneira como tudo o que é escrito sobre os personagens quando eles são apresentados, se ligam harmoniosamente no final do sétimo livro, e podemos ver o quanto eles evoluíram. Podemos perceber o momento em que eles perceberam que não eram mais crianças e que teriam que enfrentar seus medos e inimigos. E qual dos leitores de HP nunca passou por isso?

J. K. Rowling e a fúria Romione


Quando comecei a ler HP eu já gostava de Rony e Hermione e, especificamente depois do quarto livro/filme (O cálice de fogo), comecei a torcer por eles como um casal (Romione). Uma das razões para isso é que não seria o herói a ficar com a mocinha e Rony, que nunca teve nada e sempre ficou em segundo lugar, teria Hermione, que o amaria por quem ele é.
Harry poderia ficar com qualquer uma, que estaria bom para mim, sinceramente nunca me importei com seus pares românticos. A única coisa que eu sabia era que não queria Harry e Hermione (Harmione) juntos.
Eu sei que muita gente torcia por Harmione, mas sempre creditei isso ao fato que as pessoas subestimam a importância e a beleza da relação de irmãos que eu sempre acreditei que eles tinham. Amor de irmão não é menos importante que qualquer outro tipo de amor, seja de amigo, ou o amor romântico. E, sob esse ponto de vista, admito que Harry e Hermione são perfeitos juntos. Mas é só assim, como irmãos. Qualquer outra coisa entre eles, pelo menos para mim, estragaria.
Sei que muitos fãs de Harmione usariam a parceria deles como argumento para justificar o casal, entendo e respeito isso, embora não concorde.
Sobre Romione, os dois passaram várias páginas discutindo, mas ambos eram orgulhosos demais para admitir os sentimentos que começaram a ter um pelo outro. Tive a nítida impressão que foi Rony quem gostou de Hermione primeiro, mas sempre acreditou que poderia perde-la para Harry. A própria J. K. disse que Rony tem problemas de auto-estima, pois sempre ficou à sombra dos irmãos e do melhor amigo, O-Garoto-Que-Sobreviveu.
De fato, ficou claro em “As relíquias da Morte” que Rony não se sentia digno de Hermione e que a qualquer momento ela perceberia isso e escolheria Harry.

“- Vi seu coração, e ele é meu. (…) Vi os seus sonhos, Rony Weasley, e vi os seus temores. Tudo o que você deseja é possível, mas tudo que você teme também é possível… (…) Sempre o menos amado pela mãe que desejava uma filha… menos amado agora pela garota que prefere o seu amigo… sempre segundo, sempre, eternamente na sombra…” - "As relíquias da morte".

Rony precisa lidar com isso o que mostra não apenas amadurecimento, mas a conquista de algo que ele nunca teve: autoconfiança. Você sente isso quando lê o último livro, percebe que Rony precisou superar seus sentimentos de inferioridade, seus preconceitos e principalmente, percebe que ele mudou por causa de Hermione e por ela. É lindo e é mágico.


Daí, a autora resolveu dar uma entrevista polêmica, dizendo que se arrependeu de ter feito Hermione ficar com Rony, e que ela seria mais feliz com Harry.
A pior parte é que ela segue dizendo que espera não estar quebrando corações com essa declaração.
Imagina! Quem se importa com Romione? Quem se importa com Rony? A autora obviamente não, pois declarou em outra entrevista mais antiga que já pretendeu mata-lo. Claro, por que não? Harry não é infeliz o suficiente ainda.
Quando você acompanha uma série por tanto tempo, você se sente um pouco parte dela, um pouco “dono” dela. Você conhece detalhes dos personagens e sente que são como amigos muito íntimos. Eu sei que pelo menos os fãs de Harry Potter se sentem assim.
Levou uma semana para que eu parasse e pensasse nessa declaração friamente.
Acontece que você esquece que a autora conhece os personagens muito melhor que você, sabe o que realmente se passa em suas mentes (sei que são fictícios, mas só que escreve entende do que estou falando), goste você disso ou não. Se J.K. diz que Rony não teria superado sua baixa autoestima tão facilmente, você é obrigado a pelo menos ouvir o que ela está dizendo. Não é o leitor o dono da verdade.
O que não torna a declaração dela menos desnecessária. Para quê reacender a discussão e a guerra de casais que havia entre os fãs dos casais Romione e Harmione? Sério, naquela época as pessoas até esqueciam que os três eram amigos acima de tudo.

“- Ela é como uma irmã – continuou ele. – Eu a amo como uma irmã e acho que ela sente o mesmo com relação a mim. Sempre foi assim. Pensei que você soubesse.” – Harry, em “As relíquias da Morte”.

A declaração de J.K. gerou polêmica desnecessária, quebrou milhares de corações, mas não é capaz de mudar o que está escrito. O que é um alívio, a menos que ela resolva recolher todos os exemplares do último livro por “erro de fabricação” e corrigir seu engano. O que não vai acontecer, então, Potterheads, relaxem. Ninguém vai mexer nos seus personagens preferidos, nem no que aconteceu com eles, nem a própria criadora.


No fim, a única coisa que quero realmente saber é por que J. K. não dá outra entrevista dizendo que se arrependeu de não ter feito Neville e Luna ficarem juntos?