quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Livro | Resenha | O pistoleiro - A torre negra 1 - Stephen King

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“Você deve compreender que a Torre sempre existiu, e sempre existiram rapazes que sabiam de sua existência e ansiavam por ela, mais do que pelo poder, riquezas e mulheres… rapazes que procuravam as portas que levavam a ela…”

O autor

Stephen King é conhecido como um importante autor de histórias de terror um tanto bizarras, mas estranhamente fascinantes. Também é um dos autores com o maior número de adaptações para o cinema e televisão, a citar: “Carrie, a estranha”, “À espera de um milagre”, “A colheita maldita”, “O nevoeiro”, “O iluminado”, “1408”, “Conta comigo” (para citar apenas os que eu assisti) e “Sob a redoma” (conto adaptado para a televisão recentemente), entre muitos, muitos outros.

            Ao contrário de muito fã por aí a fora, comecei logo pela obra mais complexa do autor - A Torre Negra, que é uma série composta por sete livros: "O Pistoleiro", "A escolha dos três", "As terras devastadas", "Mago e vidro", "Lobos de Calla", "A canção de Susannah" e "A torre negra". Recentemente, Stephen King lançou também "O vento pela fechadura", um livro no mesmo universo, que se passa entre o quarto e o quinto livro, e não é, portanto, uma continuação, tampouco parte essencial da história principal.

Volume I – O Pistoleiro



O primeiro volume é o menor da série e funciona como um prólogo gigantesco (sem trocadilhos). Sua função é apresentar o universo em que a história se passa, o personagem principal e, consequentemente, a genialidade do autor. Pode ser pura e simples interpretação, exagero meu mesmo, mas não me lembro de ter lido uma primeira frase que dissesse tanto sobre a história. Ela não apenas "começa" a história, ela resume e apresenta a principal característica do personagem principal - sua determinação cega e pragmática:

“O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás”.

Na frase temos dois personagens muito parecidos e ao mesmo tempo opostos. O protagonista, o pistoleiro, Roland Deschain, e o homem de preto, um homem "sem face", também conhecido como "Walter das sombras". A princípio não há uma explicação muito detalhada de porquê Roland quer tanto alcançar esse homem, mas logo nos primeiros capítulos, quando Roland para em uma cidadezinha perdida no meio do deserto, você logo descobre o quanto esse homem é perigoso e que é melhor que seja encontrado logo.


O protagonista

Roland é um homem amaldiçoado, que tem essa maldição reforçada em todo lugar aonde vai. É assim que ele se vê, mas ao contrário dos problemas de autoestima de muita gente por aí, ele não está enganado. Sua vida é um amontoado de desgraça que começa quando ainda era muito jovem e o persegue indefinidamente.
Por esse e outros motivos, Roland é um homem duro e obcecado, jurado pelos sentimentos de traição e vingança, a perseguir seu objetivo: encontrar a Torre Negra. Esse é o seu Ka, seu destino.

Símbolo do Ka
Ele é o último de uma linhagem nobre de sua terra natal, Gilead, e o último pistoleiro. Os pistoleiros homens treinados na arte das armas, que têm um rígido código de conduta, representado pelo lema: “jamais esqueça o rosto de seu pai”.

“- Fale a Língua Superior – ele [Cort] disse em voz baixa. Um tom plano, ainda que com ligeira, embriagada aspereza. – Diga seu Ato de Contrição na língua da civilização pela qual homens melhores que você tantas vezes morreram, seu verme.
Cuthbert estava se levantando de novo. Lágrimas pairavam brilhantes em seus olhos, mas os lábios estavam comprimidos numa forte marca de ódio que não tremia.
- Lamento – disse Cuthbert num tom ofegante de autocontrole. – Esqueci o rosto de meu pai, cujos revolveres espero um dia carregar.”


O mundo

            O mais interessante, no entanto, não são os personagens, mas o ambiente em que eles estão inseridos. Este é um "mundo que seguiu a diante", um conceito tão amplo quanto o tempo que ele possivelmente engloba. Tudo ao redor está deteriorado, inclusive a condição humana, que segue inconsciente, individualista e degradada, enquanto ainda canta os hinos de uma Igreja que conhecemos muito bem. Aliás, nasce daí uma das cenas mais grotescas do livro, uma matança generalizada que sei que muita gente vai gostar.
            À primeira vista, parece um cenário comum de faroeste, até que o pistoleiro se depara com sinais de uma tecnologia até mais avançada que a de nosso tempo. Isso não é surpresa para ele, claro, mas é causa de estranhamento para o leitor. Isso é o que vai te impulsionar na leitura, mesmo quando as coisas não estiverem assim tão favoráveis.
            A leitura é lenta, arrastada, quase como é a travessia de Roland no deserto sem fim. É lá no final do livro que a história volta a se agitar, já na presença de Jake, um garoto de doze anos, que Roland encontra no meio do nada. É através do garoto que Roland toma conhecimento de um mundo completamente diferente do seu, ou de um tempo diferente do seu, antes de "o mundo ter seguido à diante". E é o garoto que parece entender esse mundo melhor que o próprio Roland...


            Adaptações
            Como muitos outros livros do autor, A Torre Negra também tem sido namorada para ganhar uma adaptação live action. O ator, cineasta e produtor Ron Howard está a frente do projeto, mas não se sabe muito a respeito. Já foi dito que os livros virariam uma série televisiva, que poderia ter os direitos de adaptação comprados pela Netflix - a menina dos olhos de muitos nerds -, e até que suas temporadas seriam intercaladas por filmes. Surgiu boatos de atores que teriam sido cotados, como Aaron Paul (de Breaking Bad), possível Eddie Dean, personagem do segundo livro.
            (Os fãs continuam cruzando os dedos para que Clint Eastwood rejuvenesça trinta anos para viver o protagonista… ora, eles podem sonhar).

            Muito se fala, mas pouco se concretiza. O principal problema é adaptar uma história que mistura fantasia, viagem no tempo/universos alternativos, terror e faroeste. Cá entre nós, se conseguiram adaptar "Game of Thrones" e "O Senhor dos Anéis", não há nada que dinheiro e boa vontade não possam fazer, mas quem sou eu para ensinar o caminho das pedras?


            De qualquer forma, a obra já foi adaptada em outras mídias, como o caso das Graphic Novels "Nasce um pistoleiro", "O longo caminho para casa", "A queda de Gilead", entre outras, que vão adaptar os flashbacks espalhados pelos livros e contar a juventude de Roland Deschain e a queda de sua terra natal, Gilead. Vale a pena conferir. O texto é ótimo, os desenhos são incríveis e as edições brasileiras estão impecáveis. Perfeito para quem já é fã aproveitar ainda mais a história.

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“ - Vá, então. Há outros mundos além deste.”

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Livro | Resenha | O lado bom da vida - Matthew Quick

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 Pat Peoples acaba de sair do “lugar ruim” e seu maior desejo agora é reconquistar Nikki, sua esposa, e acabar com o “tempo separados”. O “lugar ruim” a que ele se refere nada mais é que um manicômio e, logo de cara, você fica se perguntando “porque diabos esse cara foi parar no manicômio?”.
E a resposta, claro, não vem tão cedo. A história é narrada em primeira pessoa, através de um diário que é escrito por Pat, e que tem o intuito de ser entregue a Nikki (um ser quase místico ao longo de quase todo o livro, já que Pat só sabe falar dela), quando chegar ao fim o “tempo separados”. O motivo de estarem separados também não é dito, embora você possa entender algumas coisas quando Pat explica porque está tão motivado a fazer exercícios e praticar o “ser gentil ao invés de ter razão”. Através das pequenas coisas que Pat solta durante a narrativa, você pode perceber que ele não era exatamente o marido ideal, achava-se superior, não ouvia a esposa e debochava de seus gostos. Agora, recém saído do “lugar ruim”, Pat quer provar para Nikki que se tornou uma pessoa melhor, um homem melhor e um marido melhor.
Logo de cara você percebe que tem alguma coisa errada nessa história. Lógico que a ausência de resposta para a questão da internação de Pat vai te incomodando, mas tem outras coisas também. Pat acredita que ficou apenas alguns meses no “lugar ruim”, mas a vida de todas as pessoas que ele conhece e até fatos importantes no seu mundo mudaram demais para que tudo tenha acontecido em apenas alguns meses. Sua mãe não gosta de falar sobre Nikki e curiosamente, ladrões entraram na casa e roubaram todos os porta-retratos onde se encontravam fotos de Pat e Nikki casados.
Pat não percebe o absurdo da situação logo de cara, mas o leitor percebe e é apenas mais uma coisa que fica ali, no fundo da sua mente, te importunando e te fazendo ler mais, até finalmente descobrir...
Pat não é burro. Logo nas primeiras linhas, você percebe certo ar de inocência abobalhada na escrita dele, provavelmente proveniente do tempo que passou no manicômio, ou, quem sabe, daquilo que o levou a ser internado, para começo de conversa.
Desde que sai do “lugar ruim”, Pat faz basicamente isso: malhação, flexão, corrida e assiste aos jogos do Eagles, o time de futebol americano para o qual torcem não apenas sua família, mas seu melhor amigo, seu novo terapeuta e aparentemente TODOS OS PERSONAGENS DO LIVRO...
Sério, o livro é basicamente Pat falando sobre malhação, Eagles e Nikki. A escrita é simples e leve, mas extremamente repetitiva. Volta sempre para o mesmo lugar e até quando você acha que vai mudar um pouco o foco... não muda!

Uma coisa eu tenho que dizer em defesa da escrita, no entanto. Ao passo que o leitor está um pouco perdido com o que está acontecendo, é perceptível que o próprio personagem está tentando se encontrar no tempo e espaço, já que o que para ele foram meses, para o resto das pessoas foram anos. E esse é um ponto louvável do livro. Eu curti.

Fui atrás desse livro por causa do filme, e me interessei pelo filme por causa de Jennifer Lawrence que ganhou um Oscar de melhor atriz por sua interpretação de Tiffany.
Eu gostei da personagem da Tiffany, porém mais do que eu gostei do protagonista. Esse é parte do problema. O personagem secundário parece mais interessante que o protagonista, mas fica limitado pela famosa e desgastada narração em primeira pessoa  (na minha nada humilde opinião).
Pat a conhece e passa a maior parte do tempo a estranhando e, então, do nada, você tem que acreditar que Tiffany se interessou por ele.
A verdade é que mal acabei de ler o livro e pouco me lembro dele. Confesso que passei boa parte do dia lendo resenhas de outros blogs a fim de tentar identificar o que realmente sinto em relação a esse livro e a resposta é um grande... vazio. Não senti nada demais lendo esse livro, nenhuma identificação, nenhuma catarse, dei umas risadas aqui e ali, mas no fim, ter lido ou não o livro não faz a menor diferença na minha vida.
Talvez faça na sua, cada um é cada um.
É um bom livro para relaxar, entre um ou outro livro de Tolkien, George R. R. Martim ou Stephen King, para um dia de domingo, uma viagem de férias após um ano estressante (meu caso), sem compromisso, sem exigências...
Mea-culpa: Para ser sincera, talvez eu esteja apenas sendo mal-humorada demais, não tenha encarado o livro com o espírito certo, ou esteja com problemas para ver o lado bom de “O lado bom da vida”.
Espero um dia reler esse livro com o espírito certo, talvez como uma torcedora fanática pelos Eagles... quem sabe?