domingo, 30 de novembro de 2014

Livro | Resenha | Quem é você Alasca? - John Green

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Título original: Looking for Alaska - John Green


 "Antes"

Miles Halter é um garoto de dezesseis anos que gosta de ler biografias e colecionar “últimas palavras”. Ele não tem uma vida muito empolgante, não tem amigos, apenas colegas, dos quais nem gosta muito. Ao ler a última frase dita por François Rabelais (“Saio em busca de um Grande Talvez”), que passa a ser a sua preferida, decide ir atrás de seu próprio Grande Talvez. Miles pede para que os pais o matriculem no colégio interno em que o pai estudou, a Culver Creek, onde pretende descobrir novas maneiras de interagir com o mundo, com as pessoas, conhecer-se melhor, enfim, aventurar-se.
O colega de quarto de Miles é Chip Martin, um garoto baixo, forte e rebelde, que odeia os garotos ricos do colégio por princípio, e é ele quem apresenta Miles à Alasca Young.
Os fãs mais apaixonados por John Green vão ter que perdoar aqui, pois a melhor maneira de começar a descrever Alasca é dizendo que ela é um clichê. Calma, vou explicar:
Alasca é uma garota divertida, imprevisível e triste, que chama a atenção de todo mundo com seu jeito independente e que vira a cabeça de Miles de cabeça pra baixo. Bem, se nunca viu isso em nenhum filme, ou livro, ou série, avise-me… Mesmo assim, é uma personagem marcante e complicada, que justifica totalmente a sua importância na história.
Como é possível imaginar, Miles se apaixona por essa independência e imprevisibilidade da Alasca, mesmo que a amizade deles às vezes transcorra entre trancos e barrancos. A própria Alasca lhe diz uma vez:
“Sabe quem você ama, Gordo? Você ama a garota que faz você rir, que vê filmes pornográficos e bebe com você. Mas não a garota tristonha, mal-humorada, maluca”.
E ela estava certa, segundo o que o próprio Miles admite. O que me leva de volta ao protagonista…
Miles é um personagem interessante no começo, parece um adolescente deslocado como quase todos os adolescentes que conheci, parece-se comigo, aliás, no último ano do Ensino Médio que atravessei sozinha e passando os intervalos na biblioteca da escola. Sem drama. Só que ele decidiu muito antes de mim que estava na hora de tentar alguma coisa diferente, foi lá e fez. O que me deixou só um tiquinho irritada com ele é o seguinte: Miles não queria começar a fumar, mas lhe ofereceram cigarro e ele aceitou. Ele não queria começar a beber, mas lhe ofereceram bebida e ele bebeu. E continuou fazendo essas coisas que não queria fazer e a se transformar numa pessoa que não tinha a intenção de ser e eu comecei a me perguntar se, nesse ponto, ele estava realmente tentando descobrir quem ele era ou tentando ser quem gostariam que ele fosse.
Quando você pega um livro Young/Adult para ler, você tem que estar preparado para questões comuns da adolescência. A minha adolescência foi complicada, porque eu não conseguia me encaixar em nenhum lugar, achava que meus gostos eram estranhos e que ninguém conseguiria me entender. Foi apenas na faculdade, quando conheci pessoas que vinham de lugares diferentes, que tinham experimentado coisas diferentes, e que estavam em fases diferentes da vida, que percebi que eu não precisava mudar para me adaptar, que não era vergonha não ser igual a todo mundo, e que eu não era a única que tinha aqueles gostos que até então eu achava estranhos. Ou seja, foi apenas quando eu admiti que eu sou desse jeito, que sou nerd, que gosto de ler, escrever, conhecer o máximo possível da cultura pop, e que está tudo bem gostar mais de HQs do que de revistas de moda, que eu comecei a me sentir melhor comigo mesma, e as coisas começaram a mudar para mim. Até minha timidez, que sempre foi uma trava social poderosa, começou a diminuir.
Eu sei, cada um tem sua própria história, sua maneira de agir e seus limites, e é preciso sair da sua zona de conforto para descobrir coisas novas, mas não consigo deixar de sentir falta de um Miles - ou Gordo, como Coronel ironicamente começou a chamá-lo - mais consciente do que queria ou não fazer.
Outra coisa que me incomodou muito foi o apelo sexual adolescente, mas não vou comentar muito sobre isso, pois não chega a estragar a história... nem a acrescentar nada a ela, e esse é ponto.
Enfim, um evento X acontece e da início à segunda parte do livro:

"Depois".

É nesse momento que o verdadeiro propósito do livro aparece e as grandes questões levantadas por Alasca (“Como vou sair desse labirinto?”) e por Miles (“Saio em busca do Grande Talvez”) começam a ter suas respostas procuradas.
É aqui que o leitor percebe o quão diferente John Green é como autor para o público adolescente. Nada de triângulos amorosos melosos, o que está em jogo em seus livros é o amadurecimento, a essência do que é ser jovem, a valorização da vida e do que é realmente importante nela.
Mais uma vez John Green me ganhou com sua maneira única de combinar simplicidade com profundidade. Li esse livro em dois dias e sei que amanhã ou depois, vou ler de novo. “Quem é você Alasca?” superou minhas expectativas, pois eu achava, pelo pouco que eu tinha visto, que era apenas mais uma história sobre um garoto deslocado se apaixonando por uma garota descolada.
Eu estava errada. Ainda bem.

domingo, 2 de novembro de 2014

Livro | Resenha | As crônicas de Nárnia - C. S. Lewis

Um comentário:
Possíveis spoilers.

"Inclino-me quase a afirmar como regra que uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim. As boas permanecem." - C. S. Lewis.

Capa do Volume único
Um dos exercícios mais difíceis e essenciais para uma leitura proveitosa é aquele que exige do leitor adaptar-se ao livro que vai começar a ler. Ou seja, entrar no clima da história, seja romance, terror, drama, comédia ou, como o assunto desse post, infantil.
Quando peguei "As crônicas de Nárnia", de C. S. Lewis para ler, eu procurei ser cuidadosa. Não que a leitura possa ser incomoda para a mente de um adulto, mas certamente a compreenção será diferente. Para dar exemplos práticos, quando eu era criança e assistia "Chaves", "Chapolin" e "Os Simpsons", eu interpretava as histórias de maneiras completamente diferentes das que interpreto agora. Hoje tenho consciência de que "Os Simpsons" é tudo, menos um desenho feito para crianças.
A minha edição é o volume único com os sete livros apresentados na ordem cronológica da história, e não da publicação, embora todos possam ser lidos separadamente e em qualquer ordem, sem prejuizo do entendimento. Recomendo, apenas, que "A última batalha" seja lida por último, por motivos que a própria história revelará a seu tempo.
Eu sinceramente não sei dizer qual das sete histórias é a minha favorita, cada uma tem sua própria atração, embora talvez eu possa apontar uma ou duas que não me agradaram muito, como Príncipe Caspian, sabe-se-lá porquê, talvez pela demora para que alguma coisa acontecesse, e "A última batalha", por causa de Suzana e do arremate da história que é, simplesmente, "..." demais pra mim. Sei que muita gente gosta e que o significado vai muito além do preto no branco, mas mesmo assim...
Algumas pessoas consideram "Nárnia" como um "livro bíblico", como eu tive a oportunidade de ouvir pessoalmente. Errado. Não é um livro bíblico, embora alguns pontos sejam claramente inspirados na bíblia e Aslam, o Leão que guia os personagens, seja uma alusão óbvia à Jesus Cristo. Talvez tais alusões incomodem, por exemplo, um ateu, mas como eu disse no começo do texto, é preciso "entrar no clima da história", vestir sua capa de criança e ler sem compromisso com significados cristãos ocultos.
Eu tive uma criação católica, mas por x motivos acabei por me afastar da igreja e questionar alguns dogmas religiosos se tornou uma atividade natural para mim. Mesmo assim, procurei ler esses livros como leria uma fantasia, ou um conto de fadas. Se você não for o tipo de pessoa irredutível, radical, preconceituosa e sem imaginação, não terá dificuldade para ler Nárnia.
Nessa edição também há um ensaio do autor, chamado "Três maneiras de escrever para crianças", no qual ele disserta a respeito do que significa, para ele, escrever para criança, dar o que a criança quer, de forma automática, ou procurar a melhor forma para descrever a ideia que se quer passar? Recomendo a leitura, pois se eu for colocar todas as citações que achei interessante desse texto, esse post não acaba mais.

O sobrinho do mago

A primeira história foi a penúltima a ser lançada, em 1955. Conta a história de Digory, um menino cuja mãe está doente e que vai morar com os tios, e de sua nova vizinha, Polly. Um belo dia os dois estão brincando no sótão da casa, quando por acidente vão parar no quarto do tio de Digory, um homem meio maluco chamado André.
Esse tio é um estudioso de universos paralelos e acaba de descobrir uma maneira de viajar por esses universos através de dois tipos de anéis que ele inventou: um verde, para ir para outro mundo, e um amarelo, para retornar. Porém, o tio André não tem coragem para embarcar nessa aventura e acaba enviando o sobrinho e a amiguinha dele nessa empreitada.
Essa é a história que narra a criação de Nárnia, dos animais falantes, a nomeação de seus primeiros Rei e Rainha, de uma das principais inimigas desse novo mundo, a Feiticeira Branca, além de uma explicação plausível (dentro de um universo de fantasia) para os portais dimensionais que levam as crianças das outras histórias até Nárnia.

O leão, a feiticeira e o guarda-roupa

Essa história não deve ser novidade para quem já assistiu ao filme com o mesmo nome, e vale dizer que dos três filmes, esse é o mais fiel ao livro a que se refere. É aqui que conhecemos os quatro reis mais importantes de Nárnia, Pedro, Edmundo, Suzana e Lúcia. Vou logo largar um spoiler inofensivo aqui e dizer que eles são sobrinhos de Digory (desculpa, se você não achou isso inofensivo). A Inglaterra está em meio à guerra e as quatro crianças são enviadas para a casa do tio, onde, durante uma brincadeira de esconde-esconde, Lúcia encontra um guarda-roupa mágico que a transporta para Nárnia.
Seu irmão, Edmundo entra no guarda-roupa atrás dela, mas não a encontra, ao invés disso, conhece a Feiticeira Branca, que o convence que há um grande mau cercando Nárnia e que, se ele a ajudar, será nomeado Grande Príncipe e governará aquela terra ao seu lado. Para isso, tudo o que ele precisa fazer é entregar a ela as outras crianças que entraram em Nárnia.
Tudo bem que, nessa história Edmundo nada mais é que um traidor, mas acredito que de todos os irmãos, é ele quem mais se transforma a partir de sua ida para Nárnia. Ele era chato, arrogante e egoista, e ao perceber seu erro, e ouvir um sermão de Aslam, Edmundo se transforma e passa a ser um garoto justo e leal.

O cavalo e seu menino

Uma das histórias que eu mais gostei, embora muita gente discorde de mim. Narra a história de um garoto órfão, Shasta, que é criado como um escravo, e de um cavalo falante de Nárnia, chamado Bri, que foi levado para longe de sua terra natal e usado como cavalo de guerra comum. Shasta tem um forte pressentimento de que seu verdadeira destino está longe da Calormânia, onde está no início da história, e tudo o que Bri quer é voltar para sua terra natal, onde os cavalos são nobres e tratados descentemente.
Essa é uma história sobre auto conhecimento e humildade, quando Shasta aprende sobre ser corajoso e Bri sobre ser humilde.
Também nos apresenta as terras vizinhas a Nárnia, como a Arquelândia, amiga, e a Calormânia, inimiga.





Príncipe Caspian

Em determinado momento da história de Nárnia, essa terra deixa de ser governada pelos quatro reis, as crianças que voltaram para o "mundo real" e sumiram de Nárnia sem maiores explicações para seu povo. Agora, Nárnia é governada pelos telmarinos, um povo que veio das Montanhas Ocidentais, e que praticamente "transformaram" a história de Nárnia em lendas, afinal, que coisa absurda crer que animais falam e que houveram quatro reis vindos de outro mundo! Enfim, é desse povo que provém Caspian, herdeiro do trono, mas que tem fortes ligações com as histórias que os telmarinos chamam de lendas. Quando seu tio tenta assassiná-lo para que seu filho seja o herdeiro do trono, Caspian foge e acaba por ser acolhido por anões e animais falantes, que lhe juram lealdade e prometem ajudá-lo a reconquistar Nárnia. Além deles, Cáspian também recebe ajuda dos quatro grandes reis de Nárnia, há muito desaparecidos, e que retornam nessa história, e em outras, sempre que Nárnia se encontra em perigo.

A viagem do Peregrino da Alvorada

Essa é, provavelmente, a minha história preferida e tem aquele que eu considero meu personagem favorito: Eustáquio. Da mesma forma que aconteceu com Edmundo em sua primeira viagem à Nárnia, esta é a vez de Eustáquio ser "transformado", no que vem a ser uma das transformações mais extremas de toda a narrativa sobre Nárnia. Além disso, nessa história o Rei Caspian tem como missão encontrar os sete fidalgos de Nárnia fieis a seu pai e que, há muito tempo, tinham sido mandados por seu tio para o mar em busca das Ilhas Solitárias. Toda a viagem e as paradas nas ilhas são interessantes, e lamento hoje, tendo lido o livro após assistir o filme, que certas coisas tenham sido mudadas.






A cadeira de prata

Nessa história Eustáquio retorna a Nárnia em companhia de uma colega de escola, Jill, e a missão deles é encontrar o príncipe desaparecido, Rilian, que foi sequestrado por uma feiticeira há mais de dez anos. Eles recebem de Aslam alguns sinais que devem ser seguidos para que consigam cumprir a missão e, embora, consigam, o final é um pouco... melancólico.

A última batalha

Nessa história, um macaco malandro usa seu inocente amigo, um jumento, e uma pele de leão para enganar os habitantes de Nárnia, fingindo agir sob as ordens de Aslam. Assim, ele faz um acordo com o povo historicamente inimigo de Nárnia, os calormanos, e começa a cortar árvores e vender animais como escravos para a Calormânia. O atual rei de Nárnia, Tirian, precisa fazer alguma coisa para salvar seu povo e sua terra. E mais uma vez, recebe a ajuda das crianças, Eustáquio e Jill, além de outras ajudas que aparecem mais tarde, para resolver a situação que já está bem crítica...
Tem algumas partes nessa história que são um pouco assustadoras, como a presença do deus Tash, que é simplesmente medonho, sob a forma de uma espécie de ave carniceira, de quatro braços e... dá calafrios só de pensar. Essa é a entidade venerada pelo povo da Calormânia, por quem eles têm adoração e pavor.

"As crônicas de Nárnia" são histórias muito ricas, sobre bondade, descência e fé. Como toda boa história, tem um começo, um meio e um fim, sem pontas soltas, sem grandes questionamentos, tudo apresentado de forma leve e bonita. São belas histórias para crianças e belas histórias para adultos, que valem a pena serem lidas e passadas a diante.

"(...) Em nossa época, se um homem de cinquenta e três anos admite ainda adorar de anões, gigantes, bruxas e animais falantes, é menos provável que ele seja louvado por sua perpétua juventude do que seja ridicularizado e lamentado por seu retardatismo mental."

"Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino, inclusive o medo de ser infantil e o desejo de ser muito adulto".

- C. S. Lewis.

domingo, 14 de setembro de 2014

Livro | Resenha | Orgulho e preconceito - Jane Austen

Um comentário:
O livro é narrado em terceira pessoa (um viva para isso!) e conta a história da família Bennet, que, como outras famílias da região, descobre que há um novo rapaz rico e solteiro chegando para passar o verão. Imediatamente, a Sra. Bennet tenta convencer o marido a, conforme o protocolo da época, ir visitar seu novo vizinho, o Sr. Bingley, a fim de que, em algum momento, ele se apaixonasse e casasse com uma de suas cinco filhas.
A situação financeira da família Bennet, apesar de boa, não é muito promissora. Por não ter tido nenhum filho homem, assim que o Sr. Bennet falecer, suas propriedades passarão para um parente distante, o Sr. Collins, que nenhum deles jamais conheceu, e que poderia facilmente expulsar a Sra. Bennet e suas filhas de sua casa, deixando-as sem nada.
Por isso mesmo que é tão importante para a Sra. Bennet que uma de suas filhas, de preferência todas elas, faça um bom casamento. Porém, pode ser que nem tudo saia do jeito que a pobre Sra. Bennet deseja...
As cinco filhas do casal, com exceção de Kitty, não poderiam ser mais diferentes uma da outra. A mais velha, Jane, é a pureza em pessoa, embora às vezes inocente demais quanto a intenções maliciosas. Elizabeth Bennet é a segunda filha do casal, não tem grandes pretensões matrimoniais, é muito inteligente e tem sempre uma resposta sagaz na ponta da língua. Mari é uma garota chata e sem graça, que faz questão de se mostrar inteligente, eficiente e superior em tudo. Lydia, é, em termos simples, cabeça-oca e facilmente deslumbrável. Por fim, há Kitty, que apesar de ser mais velha que Lydia, é bastante influenciada pela caçula, sem personalidade mais específica que isso.
Durante um baile, pouco após a sua chegada, o Sr. Bingley demonstra considerável interesse na filha mais velha do casal, Jane, que também sente uma forte atração por ele. Parece uma história de amor bem simples, mas há de se considerar que numa sociedade em que os valores financeiros eram por vezes mais interessantes que os valores morais, nem tudo poderia ser tão fácil. A situação da família de Jane é muito distante da da família Bingley e não faltariam pessoas para se contraporem a uma possível união entre elas. Entre eles, está o Sr. Darcy.
Fitzwillian Darcy (nome lindo esse, heim? 'Bora colocar no seu filho?) é um homem arrogante, orgulhoso e absurdamente rico. Nesse mesmo baile, ele só dança com as irmãs de seu amigo Bingley, e com mais ninguém. Ele é tido por toda aquela pequena sociedade como um homem desprezível e desagradável, apesar de ele não ter ofendido diretamente ninguém, além de uma pessoa...
“Devido à falta de pares, Elizabeth Bennet fora obrigada a ficar sentada durante duas danças; e parte desse tempo ela passou suficientemente próxima a Sr. Darcy para ouvir uma palestra entre ele e Sr. Bingley.
(...)
__ Você está dançando com a única moça realmente bonita que existe nesta sala __ disse Sr. Darcy, olhando para a mais velha das irmãs Bennet.
__ Oh, é a mais bela moça que já vi na minha vida, mas bem atrás de você está uma das suas irmãs, que é muito bonita e agradável. Deixe-me pedir ao meu par que o apresente a ela?
__ Qual? __ perguntou ele, voltando-se e detendo um momento a vista em Elizabeth até que, encontrando os seus olhos, desviou os seus e disse, friamente: __ É tolerável, mas não em beleza suficiente para tentar-me. Não estou disposto agora a dar atenção a moças que são desprezadas pelos outros homens.”

Depois de ouvir esse comentário, Elizabeth, ou Lizzy como é chamada durante boa parte da história, pode não ter ficado tão ofendida quanto qualquer outra mulher ficaria, mas permaneceu determinada a não lhe oferecer mais simpatia do que havia recebido. De fato, a princípio, todas as interações entre o Sr. Darcy e Lizzy não foram mais simpáticas do que cordiais.
Porém, a inteligência e naturalidade de Lizzy começam a chamar a atenção do Sr. Darcy, que, apesar de preferir manter uma distância saudável de todos os membros da família Bennet, parece incapaz de ignorar Elizabeth, que por sua vez, ignora por completo o interesse dele.
“Ocupada em observar as atenções de Sr. Bingley para com sua irmã, Elizabeth estava longe de suspeitar que estava se tornando o objeto de algum interesse aos olhos do amigo de Sr. Bingley. A princípio, Sr. Darcy nem sequer tinha concordado com os que achavam que ela era bonita. Olhara-a no baile sem admiração. E da outra vez em que se encontraram, fitara a moça apenas para criticá-la. Mas logo que declarara a si mesmo e aos amigos que Elizabeth não possuía um só traço agradável no rosto, começou a achar que a bela expressão dos seus olhos negros dava àquele rosto um ar excepcionalmente inteligente. A esta descoberta sucederam outras igualmente humilhantes. Embora o seu olhar crítico houvesse descoberto mais de um defeito na simetria das suas formas, foi forçado a reconhecer que as linhas do seu corpo eram de grande pureza; e apesar de sua afirmação de que as maneiras dela não eram as do mundo elegante, sentiu-se fascinado pela sua encantadora naturalidade.”

Pobre Sr. Darcy, antes tivesse ficado de boca fechada. Depois disso, todas as suas tentativas de aproximação com Elizabeth estão fadadas ao fracasso, pois cada coisinha que falava a ela era recebida com severa crítica e devolvida com excessiva astúcia.
De fato, essa relação não parece de forma alguma promissora durante todo o livro, especialmente quando Lizzy conhece o jovem Whitham. Ele é um jovem oficial, que chega à cidade causando grande impressão em todos os moradores. É bonito, inteligente e agradável, tão diferente de Sr. Darcy, que não admira que sua recepção, onde quer que fosse, fosse tão calorosa. Principalmente aos olhos de Lizzy, que vê nele objeto de grande admiração. Durante uma conversa, Elizabeth descobre que o Sr. Whitham e o Sr. Darcy conhecem-se desde a infância e que, graças à ingratidão e antipatia de Sr. Darcy, o Sr. Whitham estava agora privado da vida que deveria ter e tinha que se arranjar como pudesse.
...
Aqui, vou parar de falar sobre o enredo, pois, além desse ponto, vou acabar falando mais do que devo e estragando a experiência da leitura.
O título “Orgulho e preconceito” é perfeito para o livro. Na primeira metade do livro, cabe ao Sr. Darcy a parte do orgulho, que é o que o impede de assumir seus sentimentos e merecer assim o afeto de Lizzy, preocupando-se demais com a situação financeira e nada prestigiosa da família dela, e agindo com todos como se fosse superior. E a Lizzy, cabe o preconceito, pois mesmo que no início tenha motivos para julgá-lo um homem orgulhoso e arrogante, mais para frente na história, está tão cega pela sua antipatia por ele, que não consegue avaliar as situações tal como elas realmente são. E ela, que se achava tão inteligente e imune à enganações, é forçada a perceber que nem tudo é como parece.
É muito gostoso observar como a autora desenvolveu cada um dos personagens, nenhum deles parecido com o outro, a menos que isso fosse proposital, como no caso das irmãs Lydia e Kitty. Elizabeth Bennet é uma personagem muitíssimo interessante, que não deixa a história ficar entediante em nenhum momento, algo difícil de fazer, tendo praticamente todo o foco sobre ela. Porém, o mais interessante de tudo, são as interações entre ela e o Sr. Darcy. Tudo bem que eu sou assumidamente uma “boba apaixonada”, mas sério, eles são perfeitos juntos, e não digo apenas como um casal, mas como personagens que atuam juntos na história. As mudanças que acontecem nas personalidades de cada um são naturais e as motivações totalmente justificáveis.
Há muito tempo que este livro estava na minha já grande e ainda crescente lista de livros que eu tenho que ler na vida, mas nunca tinha encontrado um momento apropriado para lê-lo. Até que, no mês passado, eu me rendi. Li e... me descobri subitamente obcecada pela história, pelo Sr. Darcy, pela Srta. Bennet (Elizabeth, para ser mais exata). A maneira como Jane Austen constrói o enredo torna impossível abandonar a história a menos que seja extremamente necessário, como para trabalhar, dormir, comer... A leitura fluiu absurdamente rápida, leve e apaixonante, e assim que terminei eu sabia que ainda não estava pronta para deixar a história para trás. Aliás, é por isso que gosto tanto de séries, elas permitem que a história demore mais para acabar. Enfim, na impossibilidade de uma continuação, eu tive que caçar outro jeito de me manter presa na história.

Minissérie da BBC - 1995
Não queria reler, então fui atrás da minissérie da BBC britânica, em 6 capítulos, adaptada por Andrew Davies e estrelada por Jennifer Ehle e Colin Firth, perfeitos em seus papeis (todos os episódios, legendados, estão no youtube).
Espero que eu tenha conseguido mostrar o quanto eu amei esse livro, o quanto me arrependo de ter demorado tanto e o quanto estou feliz por finalmente ter me rendido aos encantos dele. Esse é um daqueles livros que a gente quer recomendar não apenas por que é bom, mas porque ele tem que ser lido. Então leia o livro, assista à minissérie da BBC e até ao filme, pois tenho certeza que, quando você terminar, estará louco/a por mais.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Livro | Resenha | Belas maldições - Neil Gaiman e Terry Pratchett

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Passei um pouco mais de um ano ensaiando para escrever essa resenha, simplesmente porque não sabia por onde começar. Algumas pessoas que me conhecem sabem que tenho um ou mais parafusos soltos, e talvez seja uma consequencia, mas adoro o humor britânico, e alguns livros conseguem me fazer rir por coisas que muita gente não acharia a mínima graça.

Sim, enrolei por um parágrafo, se isso fosse um texto jornalístico eu estaria levando uma bronca do meu chefe e tendo que reescrever tudo até aqui. Enfim, sem mais delongas, não é dessa vez que vou escrever sobre o Guia do Mochileiro das Galáxias, mas sim sobre o livro Belas Maldições - As belas e precisas profecias de Agnes Nutter, bruxa, de Neil Gaiman e Terry Pratchett, publicado em 1990.

Quando vi esse livro não sabia muito o que pensar, primeiro porque não tinha lido nada do Terry Pratchett até então, e segundo porque achei que era mais um livro do Neil Gaiman, e não, não estou reclamando, sou fã dos livros que já li dele, mas imaginava que não me surpreenderia mais com o estilo.

Vou tentar explicar um pouco sobre o livro sem revelar muitas informações, porque é um livro de humor que vale a pena ser lido e, alerta de spoiler, a maioria das piadas deixam de ter graça depois que se sabe o que acontece.

A Trama

A história tem uma premissa simples: o fim do mundo que acontece graças ao anticristo. Até aí, beleza, nada demais, apesar de livros e filmes que falem sobre o apocalipse e o anticristo normalmente serem chatos por levarem a Bíblia ao pé da letra, as vezes com um toque de ação explode tímpanos hollywoodiana. Mas não é o caso nesse livro. E dá pra perceber isso com a primeira frase dele: "Crianças! Provocar o Armagedon pode ser perigoso. Não tentem isso em 
casa.".

Então a história começa, com o anjo e "comerciante de livros raros" Aziraphale conversando sobre o certo e o errado com o demônio-serpente Crowley, que segundo a lista de personagens era "um anjo que não chegou exatamente a cair, apenas foi rastejando lentamente para baixo".

A citação anterior ao Guia do Mochileiro não foi a toa. É quase impossível não continuar lendo sem lembrar do estilo de Douglas Adams, que a cada linha usa um humor sarcástico tipicamente britanico pra mostrar aos leitores como não sabemos nada, mesmo achando que sabemos de tudo, e nada melhor pra provocar essa sensação do que dizer que a Terra é do signo de Libra, e que o horóscopo dela estava correto no dia em que a história começou, exceto pelas saladas, que deveriam ser evitadas.

Aos poucos descobrimos quem é o anticristo e como é o bichinho de estimação dele, qual é o papel do Crowley e do Aziraphale na luta entre o bem e o mal, além de que nem todas as freiras são boas e os quatro cavaleiros do apocalipse são, atualmente, motoqueiros.

Os personagens

Belas Maldições é um dos livros com mais personagens que já li, e gosto disso. Os esteriótipos estão presentes mas não mesmo assim cada personagem consegue ser único. 

As crianças são as típicas crianças que aprontam mas não acham que estão aprontando, afinal eles querem ser os heróis e melhorar a humanidade, qual criança nunca passou por uma fantasia dessa? Os anjos são os típicos anjos das histórias, que seguem as ordens sem questioná-las e parecem nunca entender sarcasmo, mas isso não é diferente para os demônios, que também só seguem ordens e tem um péssimo senso de humor.

Os humanos... Bom, são humanos. Erram, são fracos, mas ficam tentando arrumar tudo o tempo todo, mesmo que sem querer, como é o caso dos caçadores de bruxas. E nessa parte não posso deixar de falar da bruxa que dá o nome para o livro, a Agnes Turner, meio louca, mas sempre acertava as profecias, o problema era entender o que ela queria dizer antes que acontecesse.

Além dos motoqueiros cavaleiros do apocalipse. Morte, que virou o típico motoqueiro alto, forte e caladão, que está sempre com a roupa de couro preta. Guerra, a típica ruiva femme fatale que provoca o caos por onde passa. Fome é um executivo da indústria de alimentos responsável por uma marca popular de comida que não engorda e não nutre. Peste se aposentou em 1936, depois da criação da penicilina, e foi substituido por Poluição, um jovem de cabelos que tende passar despercebido por ai.

Curiosidades

Para quem não sabe, alguns nomes já são responsáveis por descrever um pouco da personalidade de cada personagem, por exemplo, Nutter em inglês é usado para dizer que alguém é louco ou excêntrico, enquanto a palavra crawl, em Crawley, é equivalente a rastejar. Por causa disso alguns nomes tiveram alterações quando o livro foi traduzido em outros paises, como a França. 

Nos EUA ele foi publicado com cerca de 700 palavas a mais, para explicar o que aconteceu com um personagem americano, além de outras alterações, como notas de rodapé.

Além disso, Terry Gilliam (conhecido por Monty PythonO Mundo Imaginário de Dr. Parnassus) está tentando adaptar o livro para o cinema desde 2002, mas ainda é incerto se o roteiro que já está pronto vai ser filmado algum dia, ou se vai ser readaptado para a TV.

domingo, 22 de junho de 2014

Blog | Comentários

5 comentários:
Um comentário pelo amor de Deus. Um comentário, meu, por caridade...

Não, não vou comentar nem responder comentários do blog. Também não vou pedir por nenhum comentário. Apenas vou tentar repassar para vocês uma discussão frequente em um grupo que sigo no Facebook, além de outras considerações que acumulei sobre o assunto durante meus seis anos como ficwriter e blogueira. E, não vou mentir, vou procurar conscientizar alguns de vocês da importância de gastar alguns minutinhos comentando um post, um capítulo, qualquer outro conteúdo recebido na internet...
Você pode perguntar para qualquer produtor de conteúdo para internet o que é que o deixa mais feliz. A resposta será ter o retorno daquilo que ele produziu. E aproveite e pergunte o que é que o deixa mais desanimado para continuar produzindo: não receber esse retorno. Estamos falando de dinheiro? Não. Poucas pessoas conseguem efetivamente ganhar dinheiro na internet. Estamos falando de reconhecimeno pelo trabalho feito? Talvez, isso seria bem legal, realmente. Ou estamos simplesmente falando de comentários. Não precisa ser bom, não tem problema se for ruim. Se eu receber um comentário dizendo que meu texto é uma droga, vou ficar chateada, sim, mas aceitarei e tentarei corrigir.
Não sei porque as pessoas não comentam. Quero dizer, você gasta lá certo tempo lendo um post num blog e o que faz assim que acaba de lê-lo? Segue para outro, fecha aquele site... o quê? Sério, não é uma pergunta retórica. O que você faz quando termina de ler uma das resenhas desse blog?
Como não tenho maneira de saber a resposta antes de postar esse texto, vou seguir em frente. Então, vou simplesmente imaginar uma pessoa que permanece no mesmo blog depois de terminar um texto. Também não tenho como saber o que essa pessoa achou do texto, se ela não me disser. Como não recebi nenhum xingamento até agora, vou simplesmente assumir que as pessoas não estão odiando o que escrevo, o que é um alivio. Mas será que posso assumir isso como certo? Enquanto ninguém me disser nada que prove o contrário, posso sim. Então, obrigada?
Nha, prefiro não agradecer por isso.
Vamos lá. Como eu disse lá no comecinho desse post, sou ficwriter há seis anos. E com isso quero dizer que escrevo a mesma fanfic (de Naruto, desculpa sociedade), há seis anos. De qualquer forma, o que aprendi com essa experiência, além de melhorar a minha escrita graças à muitas tentativas e erros, foi lidar com uma coisinha superestimada chamada comentários.
No começo, boa parte dos comentários que eu recebia era do tipo: "continuaaaaa", "posta mais" e "acompanhando". Simples, curto e que não diz nada. Eu, natualmente, odiava todos eles. Quanto maior era o "continuaaaaaaa" mais eu odiava. Mas, pior que isso é não ter comentário nenhum. Porque pelo menos um "continua" te mostra que alguém está interessado naquilo. Não é o ideal, mas é alguma coisa. Aprendi a aceitar isso.
E foi sem surpresa que descobri, já há bastante tempo aliás, que muitos dos meus colegas ficwriters passam pelo mesmo problema e, olha, isso gera muito drama. Palavra!
Na tal comunidade do Facebook que citei, as pessoas vivem se perguntando, e perguntando para os outros, se tem alguma coisa errada com as histórias delas, com suas escritas, com elas! Muita gente desiste de escrever. Tudo bem, algumas pessoas, especialmente aquelas que estão com raivinha por que "Cinquenta tons de cinza" só existe por ser uma fanfic de "Crepúsculo", que é muito bom as pessoas pararem de escrever fanfics. No entanto, ignoram que muitas pessoas, como eu, começaram a escrever fics para exercitar a escrita, perder algumas travas e descobrir se alguém leria o que quer que elas escrevam. É um bom método? Talvez sim, talvez não, para mim funcionou por um tempo.
Outro efeito colateral da falta de comentários são as pessoas começarem a   chantagear o leitor. "Só posto se tiver X comentários". Sim, pois é, existe esse tipo de gente. Mas francamente, você pode realmente culpá-la? Como ela pode saber se está fazendo algo certo se as pessoas não dizem para ela?
Ok, você não consegue se solidarizar com gente que "usa a obra de outros autores para se promover"? Então, vamos voltar para o universo dos blogs. Também sou blogueira e também sei o que é ficar horas, dias, semanas e meses esperando comentários nos posts que escrevo aqui... e eles muitas vezes não chegarem. Pois é, isso é com você aí, sim senhor(a).
Não vou ficar aqui implorando, nem reclamando, mas pare para pensar um pouquinho na situação de alguns blogueiros por ai, que estão tentando colocar conteúdo interessante na internet. Pense na quantidade maravilhosa de blogs literários que surgiram nos últimos cinco anos, e até nos vlogs que estão enchendo o youtube e me deixando muito feliz. Pense por um momento nas horas que essas pessoas gastam pensando no que vão postar, em como vão escrever aquela resenha, qual livro vão ler, e no tempo em que o texto em si demora para ficar pronto. Agora imagina que você é uma dessas pessoas.
Legal, né?
Pois bem, eu não vou implorar, pedir, nem dizer que precisamos de comentários. Como eu disse antes, até agora não me xingaram, nem à minha amiga Bárbara, e temos cada vez mais seguidores no Facebook (obrigada, aliás). Sendo assim, pelo que sei, estou autorizada a achar que estamos fazendo bonito.
Ao invés de pedir comentários, vou deixar o meu compromisso em comentar todo conteúdo que eu ler ou assistir na internet. Ou pelo menos, mais que a metade, o que já é considerável, considerando o tanto de coisa que eu vejo na web...
Peraí, Soraya, você está dizendo que não comenta tudo? Sim, meu caro leitor, é exatamente o que estou dizendo. Especialmente no youtube,  enfim. Não me orgulho de ter deixado tanta gente sem feedback. Agora que tenho visto tanta gente sofrendo por falta de comentário, percebi o quanto é importante. Claro, com o passar dos anos, aprendi a relevar a falta de comentário. Tem muita gente que sente muita timidez, mesmo que a internet tenha a característica de nos esconder, tem medo de falar besteira, de dizer algo irrelevante, sei disso porque já me senti assim. Porém, comecei a me perguntar se a minha omissão contribuiu para o desânimo de algumas pessoas. Decidi não arriscar e começar a comentar. Mas essa sou eu. Cada um tem sua própria forma de ver as coisas e suas prioridades.
Sobre este blog: queremos comentários? Claro que sim. Você é obrigado a comentar? Claro que não. Vamos nos desanimar completamente e fechar o blog se ele não tiver comentários? Não. Você gastou alguns minutos para ler um texto e pode gastar mais alguns minutos para comentá-lo? Esteja à vontade. Críticas, sugestões e dúvidas são bem vindas. Não quer perder tempo comentando? Tudo bem. Um abraço e até a próxima então. :)

domingo, 13 de abril de 2014

Livro | Resenha | Morte súbita - J. K. Rowling

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O primeiro romance da autora da série Harry Potter, que se arrastou por sete livros e mais três livros complementares (Animais fantásticos & onde habitam, Quadribol através dos séculos e Contos de Beedle, o Bardo) é completamente diferente daquilo que seus fãs estão habituados. À época de seu lançamento, e sob a sombra daqueles que acham que J. K. Rowling deu apenas a sorte de escrever o livro certo para o público certo, Morte súbita carregou nos ombros a responsabilidade de provar que JK não é apenas uma boa escritora, mas que sua carreira pode sobreviver após, apesar e além de Harry Potter.
O livro foi lançado em 2012, e acredito que muita gente esteve pensando exatamente como eu. Se por um lado não se aguentavam de vontade de comprar o livro e descobrir como ele era, por outro tinham receio de não sentir a mesma emoção na leitura dele, que sentiram ao ler Harry Potter.
De fato, não senti as mesmas emoções, mas isso não foi ruim. Como eu disse antes, Morte súbita é completamente diferente dos outros livros da autora. É um livro para o público adulto, ou o público que cresceu lendo seus livros, e procura discutir questões como a vaidade e a hipocrisia da sociedade.
Para isso, JK escolheu como cenário um pequeno vilarejo fictício no interior da Inglaterra, chamada Pagford. A comunidade parece pacífica, conservadora e de certa maneira orgulha-se de seu isolamento, o que a ajuda a preservar seu estilo de vida. Só tem uma coisa que incomoda os moradores de Pegford, uma mancha em sua sociedade que alguns acreditam que deve ser eliminada o quanto antes. Trata-se de Fields, um bairro pobre na divisa do vilarejo com a cidade de Yarvil, onde vivem as pessoas marginalizadas, os viciados e criminosos.
É nesse bairro que nasce Barry Fairbrother, um dos conselheiros do vilarejo, que tem a capacidade de conquistar as pessoas com seu jeito fácil e brincalhão. Ele é considerado um dos poucos casos de pessoas nascidas em Fields que conseguiram “vencer” na vida, e tem dedicado seu tempo e influência, defendendo a permanência de Fields como parte de Pagford (seus adversários defendem que Fields passe a ser anexado às fronteiras de Yarvil, tirando do vilarejo a responsabilidades pelo bairro e pelas pessoas que vivem nele).

Logo no início do livro, porém, Barry Fairbrother morre e é aí que a autora apresenta aos leitores a comunidade e as pessoas que nela vivem, mostrando as diferentes reações à morte desse homem tão importante, e dando início à uma disputa política para substituílo no Conselho Distrital.
De um lado, temos as pessoas que o amavam, que decidem defender seus ideais. Do outro, seus inimigos políticos, ávidos pelo poder e em defesa da imagem imaculada de Pagford. E ainda há pessoas que não tiveram suas vidas influenciadas diretamente por Barry Fairbrother, mas que nem por isso devam ser ignoradas.
O ponto forte de JK é sua construção de personagens e a importância que ela dá aos seus conflitos internos, a aparência externa versus seus desejos mais íntimos. Se por um lado grande parte dos personagens não está onde gostaria, por outro lá há alguns muito satisfeitos em mostrar que são importantes, no controle das próprias vontades e inabaláveis em seus tetos de vidro.
J. K. decide contar essa história através de cenas, como se estivéssemos assistindo a um filme ou uma série. Não é exatamente como o George R. R. Martim em "As crônicas de gelo e fogo" onde cada capítulo se refere a um personagem, mas o esquema é mais ou menos o mesmo. O livro é dividido em sete partes, cada uma subdividida por cenas marcadas por números romanos, sendo assim: Parte um, I, II, III, IV, etc. E cada uma dessas subdivisões se refere a um núcleo. Tem o núcleo da família Wall, o da família Mollison, o da família Weedon, o da família Jawanda, e por aí vai. A história vai se desenrolando lentamente, e cada coisa que acontece na cidade interfere de maneira diferente em cada uma dessas famílias. Não sei se vai agradar todo mundo, algumas pessoas preferem se apegar a um personagem e seguir a partir daí, mas eu acho que, quando você se acostumar logo de início com a narrativa, em algum momento vai se identificar com algum personagem.
Não sei se consigo falar sobre cada um dos personagens sem deixar esse post grande demais. Então, vou me focar em apenas um, Krystal Weedon, que representa todas as questões que me incomodaram durante a leitura. Não por ser mal trabalhadas, longe disso. Mas por lembrar situações que tenho assistido no “mundo real”.

O que eu amei sobre Morte súbita foi justamente essa proximidade com a realidade. Escolhendo uma pequena comunidade, JK Rowling conseguiu retratar um retrato muito maior da sociedade, e conseguiu trazer isso para perto dos leitores, mesmo aqueles que não vivem na Inglaterra, mesmo aqueles que não vivem em cidades pequenas, mesmo aqueles que nunca conheceram uma Krystal ou uma Terri ou um Robbie Weedon.
Morte súbita é um livro que fala sobre as pequenas falhas de caráter das pessoas, suas vaidades, seus egoísmos e suas hipocrisias. Mas também fala da sociedade, de como as pessoas preferem ignorar certos problemas, como as drogas e a desigualdade social, fingindo que o que falta aos outros é um pouco de autocontrole e senso crítico, e ignoram que talvez o que falte é um pouco de compaixão e humildade para enxergar os próprios defeitos.

terça-feira, 25 de março de 2014

Livro | Resenha | Divergente - Trilogia Divergente 1 - Veronica Roth

2 comentários:
1º livro da trilogia de Veronica Roth: "Divergente"
A história se passa em uma Chicago distópica, delimitada por uma cerca e guardada por homens armados, onde a sociedade se dividi em cinco facções:
Abnegação – que prega o altruísmo e a ausência de vaidade. Geralmente, os líderes dessa facção são eleitos para o Conselho da cidade, por terem o espírito livre da tentação pelo poder. Não é a minha facção. Sou mão de vaca mais do que abnegada e ando meio cansada de pensar nos outros.
Amizade – que é bem parecida, pelo menos ao meu ver, com a Abnegação, embora eles não tenham nenhum problema com vaidades, nem sejam tão compromissados com o altruísmo. Essa facção busca a paz e o diálogo. Sua sede parece um bom lugar para passar o verão, mas eu não sei se conseguiria passar o resto da minha vida seguindo esse padrão. A Amizade é responsável por distribuir os alimentos que eles cultivam.
Audácia – é o grupo que fica responsável por guardar as cercas da cidade, embora nem mesmo eles saibam direito o motivo para tanta precaução. Uma ou duas vezes no primeiro livro, haverá a pergunta: “o que há do outro lado da cerca?”. Também não é a minha facção. Sou indecisa e medrosa até o osso.
Erudição – o maior tesouro deles é a informação. São responsáveis pela tecnologia, pelas pesquisas químicas, físicas, biológicas, e, para resumir, são os gênios da história. Provavelmente seria a minha facção, mas não sou tão inteligente. Eu ficaria na biblioteca, lendo e passando despercebida. Talvez resenhando alguns livros aqui e ali…
Franqueza – não lembro qual o papel deles nessa sociedade, acredito que sejam os juízes, ou sei lá. Realmente não lembro se foi dito algo a respeito (mea culpa). O que eu sei é que eles possuem o Soro da Verdade, que parece bastante útil se você é um juiz. Eles são comprometidos com a verdade, doa a quem doer. Eu passaria bem longe dessa facção, tenho dificuldade em lidar com pessoas que não sabem controlar a língua.
Todas as pessoas nascem em uma facção, aquela à qual seus pais pertencem e apenas uma vez têm a oportunidade de escolher se permanecem em sua facção de nascimento ou se procuram uma que se adapte melhor à sua personalidade e às suas “ambições”, por assim dizer.
Essa oportunidade acontece quando os jovens completam dezesseis anos. Se escolherem trocar de facção, precisam ter em mente que será necessário abandonar suas famílias, amigos e todo o estilo de vida ao qual estava acostumado. A partir do momento em que escolhem uma facção, os jovens se mudam para a sua sede e assumem completamente o seu ideal e seu comportamento.
Para ajudar nesse processo, os jovens passam por um teste de aptidão, que lhes dirá com qual facção eles têm mais afinidade. O teste é programado de modo que cada escolha da pessoa elimine a possibilidade dela ser apta a uma das facções, até que reste apenas uma.
É justamente aos dezesseis anos que conhecemos Beatrice Prior, uma jovem que vive com seus pais e seu irmão, Caleb, em uma casa simples no setor da cidade pertencente à Abnegação. Ela vê sua facção com prós e contras, não sendo capaz de aceitar a submissão, mas admirada com a boa vontade das pessoas. Enquanto tenta decidir se continuará com sua família, a quem ama, ou se seguirá um caminho no qual se encaixe melhor, Beatrice enfrenta suas dúvidas calada. Ela espera conseguir alguma ajuda com o resultado do teste de aptidão, mas é ai que as coisas ficam mais complicadas para ela.
O teste de aptidão de Beatrice, no entanto, é inconclusivo, mas não por ela não ter afinidade com nenhuma facção (o que significaria se tornar uma sem facção – uma mendiga, vivendo da bondade da Abnegação, provavelmente). Beatrice tem aptidão para três facções: Abnegação, Erudição e Audácia.
Só tem um problema. Não é comum que um teste de aptidão dê mais de um resultado. É ainda mais raro que o teste dê três resultados possíveis. Beatrice não é uma garota comum. Ela é uma Divergente. O que isso significa, de verdade, o leitor só descobre lá no final do livro, e tudo o que ele precisa saber até chegar lá é que ser Divergente não é visto com bons olhos por essa sociedade.
Mas é só lá nas últimas páginas que você descobre para onde a história está indo, depois de muito lenga-lenga sobre a iniciação da Audácia, o que é ser Divergentes, um romance que nasce meio do nada, tentativas de vencer o medo, e uma trama de suspense que demora para se apresentar. Ah e vale o mesmo conselho que recebem todos os que se aventuram nas primeiras páginas de Guerra dos tronos: não se apegue a ninguém. Sério! Tem gente que vai morrer logo no primeiro livro. E mais gente que vai morrer no segundo. E até já sei quem morre no terceiro (pois é, tomei spoiler).
Embora só um trabalho psicológico muito forte convenceria tantas pessoas que elas só podem ser uma coisa, de cinco: ou você é abnegado, ou amigo, ou audaz, ou erudito, ou franco. O tema desse livro está na ideia que todos podemos ser um pouco de cada coisa e que não nos enquadramos em um padrão. Seria impossível. Nenhum ser humano é igual a outro. A questão que Veronica Roth tentou levantar nesse livro tem mais a ver com a natureza humana que com política. Seja quem você quiser ser e não deixe que te digam o que fazer, o que pensar, como agir.

Décadas atrás nossos ancestrais compreenderam que isso não é uma ideologia política, crença religiosa, raça ou nacionalismo (…). Eles se dividiram em facções que pretendiam erradicar essas qualidades que eles acreditavam serem responsáveis pela desorganização do mundo. Aqueles que culparam a agressão formaram a Amizade. Aqueles que culparam a ignorância se tornaram Erudição. Aqueles que culparam a hipocrisia criaram a Sinceridade/Franqueza. Aqueles que culparam o egoísmo fizeram a Abnegação. E aqueles que culparam a covardia foram o Destemor/Audácia. - Divergente, Veronica Roth.

Os personagens são interessantes, mas mereciam melhor desenvolvimento. A narrativa é em primeira pessoa e para ser sincera essa foi uma das poucas vezes que não senti falta de uma narrativa onisciente. A escolha da autora está O.K.. Não gostei muito da quantidade de vezes que Tris se lamenta pelo passado, presente e futuro, mas tudo bem, ela ainda é uma adolescente de dezesseis anos, fazendo coisas que uma adolescente não deveria fazer.
Uma coisa que ficou estranha é que não vejo essa sociedade funcionando muito bem, a impressão que me deu é que a qualquer momento as coisas simplesmente não iriam mais para frente. Centenas de pessoas vivem em uma cidade, por décadas, e a coisa não parece ter evoluído muito.
Vale ressaltar que, apesar de ter romance, não é focado nisso, a protagonista não é a única esperança da Terra, não tem dezenas de pessoas dispostas a defendê-la, ou segui-la, ela apenas está ali e coincide de ter certa importância na trama (pelo menos até o terceiro livro que, de novo, ainda não terminei). A trama em si é interessante, mas não é original. Se vasculhar bem na cultura pop, vai achar várias outras tramas parecidas.
Se eu gostei ou não ainda é difícil decidir. Por muito tempo não conseguia parar de ler, no outro  momento queria pular parágrafos, voltava a ler para saber onde tudo aquilo iria dar, de repente estava pensando se estava faltando alguma coisa naquela cena, depois meio irritada com o romance sem sal, sem açúcar, sem propósito… Mas li até o final, sem perder nada, e queria muito saber o que vinha a seguir. Acho que a proporção final de gostar ou não gostar é 50/50. Nem morri de amores pela série, nem odiei irrevogavelmente.
Cheguei ao final de Divergente doida para saber o que acontecia em Insurgente, porque a resposta para as perguntas que ficaram lá no final de um, só poderiam ser encontradas no começo do outro. Veronica Roth consegue deixar no leitor essa vontade de querer saber qual a explicação para o que aconteceu e assim, um livro leva ao outro e você vai acabar chegando, como eu, quase sem saber como, a Convergente.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Livro | Resenha | A culpa é das estrelas - John Green

Um comentário:

Mais um livro lido na série “todos estão lendo, então quero saber do que se trata”. É uma citação desse livro aqui, outra ali, e já tem até data de estréia no Brasil da adaptação para o cinema. Logo, vocês já devem saber que é um sucesso. Mas o que isso realmente significa? Muitas coisas fazem sucesso hoje em dia. Todos os livros que li nos últimos três anos tinham a inscrição “Best seller no New York Times”, o que agora posso dizer por experiência, não é sinônimo de qualidade.
Trata-se de um livro Y/A, young-adult ou, ainda, Jovem-adulto, público alvo que tem recebido bastante atenção do mercado publicitário nos últimos anos. Isso porque os fãs de Harry Potter e Crepúsculo cresceram e as editoras estão interessadas em fisgar esses leitores e sua tendência a amar incondicionalmente uma série.
Vale dizer que “A culpa é das estrelas” pode até ter o mesmo público alvo, mas não tem elementos fantásticos, nem faz parte de uma série. É um livro solo, narrado em primeira pessoa e bem simples de ler. Três coisas com as quais eu estou cada vez menos acostumada.
Aliás, é impressão minha ou os livros Y/A (uai-ei) quase sempre são escritos em primeira pessoa? O que eles pensam, que jovens e adolescentes não conseguem se apegar a um personagem se a história for escrita em terceira pessoa? (Uma pergunta com um “Q” de retórica, mas sinta-se a vontade para responder).
Já faz alguns dias que terminei de ler “A culpa é das estrelas” e precisei desse tempo para pensar bem antes de começar a escrever essa resenha. Não que seja um livro difícil de analisar. É só que eu terminei de ler em uma semana particularmente sensível, e chorei como se esquecesse que se tratavam de personagens fictícios.
Pôster do filme

Hazel Grace é uma adolescente de dezesseis anos, inteligente, de pensamentos um tanto ácidos, e com câncer no pulmão. Gostei da personalidade dela, porque 1) menininhas frágeis são insuportáveis, 2) apesar de ser frágil pela natureza de sua doença, Hazel é forte por sua personalidade e 3) ela detesta que a considerem “uma heroína” por causa de sua luta contra o câncer. Diversas vezes ela contesta a motivação das pessoas em achar que pacientes de câncer são especiais apenas por estarem doentes. O que, por outro lado, não a impede de usar as “vantagens de se estar morrendo”, mas para ser justa, nem sempre essa escolha depende dela.
Também temos o par romântico de Hazel, o encantador August Waters, que é simplesmente fofo demais. Ele também tem câncer, embora esteja em reminiscência há alguns anos. Tal como Hazel, Gus não quer ser lembrado por sua luta contra o câncer nos ossos. Luta essa que nenhum dos dois acredita que exista. Ele gostaria que sua vida tivesse algum propósito, que se tivesse que ser considerado um herói, fosse por realmente salvar a vida de alguém e que, se fosse para ser lembrado, que fosse como alguém que fez algo tão importante, que seus feitos serão lembrados até depois de sua morte.
O livro me fez pensar em algumas coisas. A sociedade tem lutado contra todo tipo de desigualdade e tem sido cada vez mais importante mostrar que somos todos iguais, mesmo em nossas diferenças. No entanto, às vezes parece que buscamos o efeito contrário ao nosso discurso, tornando ainda mais evidente aquilo que é diferente. Você entenderá o que estou dizendo, pela reação das pessoas à doença de Hazel. A compaixão exagerada, a síndrome do coitadinho, que atinge muito mais quem observa do que aquele que é observado. Ou não, talvez afete aos dois de maneiras diferentes… pense nisso você também.
A história em si é um pouco previsível, desde o início deu para perceber que se tratava muito mais de uma história sobre perdas, do que sobre esperança, mas não é um livro triste, embora também não dê para dizer que é o livro mais feliz do mundo. Talvez algumas pessoas odeiem o final, talvez amem, e talvez seja apenas mais um livro. Mas a história, e o autor, não são ruins. Pelo contrário, para esse tipo de livro e para esse público, em meio a uma enxurrada de livros que se copiam, sem nenhum atrativo próprio, John Green surge como um alívio mais que necessário.

Alguns infinitos são maiores que outros. - John Green (A culpa é das estrelas) 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Divagando | Harry Potter, Romione e J. K. Rowling

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[Esse post pode conter spoiler]

            Harry Potter e os personagens secundários


Rony, Hermione, Luna, Harry, Gina e Neville
Nunca morri de amores pelo protagonista, embora seja difícil não gostar dele. No fundo, acho que gosto dos underdogs, os perdedores, pessoas como Ron, Mione, Neville e Luna. Não que Harry seja uma pessoa feliz e sortuda, exatamente o contrário. A única família que lhe resta o odeia e ele passa boa parte da vida sem saber porquê, seus pais foram assassinados e desde que tinha apenas um ano de idade, tem sido caçado pelo bruxo das trevas mais poderoso que já existiu. É muito azar e tristeza para uma pessoa só. Sinceramente não sei como Harry conseguiu se manter depois do final deprimente de “A Ordem da Fênix”, parabéns a ele pela perseverança.
Essas são as coisas que eu gosto em Harry, o fato de que, apesar de tudo, ele não desiste. Porém, Harry é o protagonista e isso lhe dá certas vantagens. Sim, eu acabei de citar as coisas ruins de sua vida e já estou falando das vantagens. Parece estranho, mas siga comigo.
Como o herói da série, Harry está numa posição em que ele não tem que lutar para ser reconhecido. As pessoas o amam, por uma coisa que ele não lembra de ter feito. Harry passou onze anos de sua vida sem saber que era bruxo, descobre da forma mais abrupta possível, e começa seu primeiro ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Na primeira aula de voo, ele sai voando como se tivesse feito isso a vida toda, torna-se apanhador do time de quadribol, e a justificativa para isso é o fato de seu pai ter jogado na mesma posição quando era estudante em Hogwarts. Harry também conquista facilmente a simpatia de algumas pessoas, especialmente da família Weasley, de Hagrid e de Dumbledore...
Resumindo, a condição de protagonista te dá muitas dores de cabeça, é uma merda, mas há algumas regalias, que compensam muito bem a maldade do autor (porque todo escritor é um pouco “sociopata” com seus personagens).
Voltando aos underdogs da série, temos um grupo apaixonante de azarões ajudando Harry em suas aventuras.
Hermione Granger é uma menina genial, nascida em uma família trouxa, ou seja, uma família de pessoas sem qualquer tipo de magia no sangue, chamada por isso de “sangue-ruim” pelos bruxos adeptos da magia das trevas. No primeiro livro, Hermione é metida, intrometida e não tem amigos. No último livro, Hermione faz uma escolha extremamente difícil e altruísta, em nome de seus amigos e daquilo que acredita, que a tornou uma das melhores personagens femininas da literatura.
Luna Lovegood aparece no quinto livro e é simplesmente muito fofa. Luna é provavelmente a aluna menos popular dos livros, é estranha e as pessoas não entendem seu jeito de ser. Mas o leitor entende e o jeito como nada parece assustá-la ou magoá-la é quase uma lição de vida e você fica desejando ser “tão normal quanto ela”.
Neville Longbotton consegue ser ainda mais fofo que Luna e é a essência do que significa ser um underdog. Passei seis livros torcendo por ele, no quinto livro quase chorei com a história de seus pais, e fui recompensada com um Neville confiante e na liderança da resistência! Que orgulho!
(Também fiquei torcendo por Neville + Luna, mas vamos falar das escolhas românticas da série mais tarde nesse post).
E finalmente, temos meu favorito Ronald Weasley, o Rony (Rupert Grint é responsável por parte do meu amor pelo personagem). Segue um trecho na voz do personagem, para entende-lo um pouco:

 “- Cinco. – Por alguma razão, ele pareceu triste. - Sou o sexto da minha família a ir para Hogwarts. Pode-se dizer que tenho que fazer justiça ao nosso nome. (...) Gui foi chefe dos monitores e Carlinhos foi capitão do time de quadribol. Agora Percy é monitor. Fred e Jorge fazem muita bagunça, mas tiram notas muito boas e todo mundo acha que eles são realmente engraçados. Todos esperam que eu me saia tão bem quanto os outros, mas se eu me sair bem, não será nada de mais, porque eles fizeram isso primeiro. E também não se ganha nada novo quando se tem cinco irmãos. Uso as vestes velhas de Gui, a varinha velha de Carlinhos e o rato velho de Percy.” – Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Tudo bem que, comparada com a família de Harry, a família Weasley é perfeita e Rony não tem do que reclamar, mas nunca é assim tão simples, não é? Só nós entendemos o que nos deprime em nossas famílias e nada vai mudar isso.
No último livro, Rony sente o peso de tudo isso e somado com sua preocupação pela família, ele acaba tomando uma decisão que decepcionou alguns de seus fãs. Falando por mim, ele me decepcionou, mas depois se redimiu e eu consigo entender como ele chegou a isso.
Em tempo, eu sei que não falei da Gina Weasley, mas nunca me importei muito com ela. Isso é mais um problema meu com sua intérprete no cinema do que com a personagem em si, mas Gina não chega a ser uma underdog. Ela tem amigos, namora, e não sofre como Rony por ser a mais nova da família. Pelo contrário, ela tem vantagem por ser a caçula e por ser a única menina.
O que eu gosto em HP é a maneira como tudo o que é escrito sobre os personagens quando eles são apresentados, se ligam harmoniosamente no final do sétimo livro, e podemos ver o quanto eles evoluíram. Podemos perceber o momento em que eles perceberam que não eram mais crianças e que teriam que enfrentar seus medos e inimigos. E qual dos leitores de HP nunca passou por isso?

J. K. Rowling e a fúria Romione


Quando comecei a ler HP eu já gostava de Rony e Hermione e, especificamente depois do quarto livro/filme (O cálice de fogo), comecei a torcer por eles como um casal (Romione). Uma das razões para isso é que não seria o herói a ficar com a mocinha e Rony, que nunca teve nada e sempre ficou em segundo lugar, teria Hermione, que o amaria por quem ele é.
Harry poderia ficar com qualquer uma, que estaria bom para mim, sinceramente nunca me importei com seus pares românticos. A única coisa que eu sabia era que não queria Harry e Hermione (Harmione) juntos.
Eu sei que muita gente torcia por Harmione, mas sempre creditei isso ao fato que as pessoas subestimam a importância e a beleza da relação de irmãos que eu sempre acreditei que eles tinham. Amor de irmão não é menos importante que qualquer outro tipo de amor, seja de amigo, ou o amor romântico. E, sob esse ponto de vista, admito que Harry e Hermione são perfeitos juntos. Mas é só assim, como irmãos. Qualquer outra coisa entre eles, pelo menos para mim, estragaria.
Sei que muitos fãs de Harmione usariam a parceria deles como argumento para justificar o casal, entendo e respeito isso, embora não concorde.
Sobre Romione, os dois passaram várias páginas discutindo, mas ambos eram orgulhosos demais para admitir os sentimentos que começaram a ter um pelo outro. Tive a nítida impressão que foi Rony quem gostou de Hermione primeiro, mas sempre acreditou que poderia perde-la para Harry. A própria J. K. disse que Rony tem problemas de auto-estima, pois sempre ficou à sombra dos irmãos e do melhor amigo, O-Garoto-Que-Sobreviveu.
De fato, ficou claro em “As relíquias da Morte” que Rony não se sentia digno de Hermione e que a qualquer momento ela perceberia isso e escolheria Harry.

“- Vi seu coração, e ele é meu. (…) Vi os seus sonhos, Rony Weasley, e vi os seus temores. Tudo o que você deseja é possível, mas tudo que você teme também é possível… (…) Sempre o menos amado pela mãe que desejava uma filha… menos amado agora pela garota que prefere o seu amigo… sempre segundo, sempre, eternamente na sombra…” - "As relíquias da morte".

Rony precisa lidar com isso o que mostra não apenas amadurecimento, mas a conquista de algo que ele nunca teve: autoconfiança. Você sente isso quando lê o último livro, percebe que Rony precisou superar seus sentimentos de inferioridade, seus preconceitos e principalmente, percebe que ele mudou por causa de Hermione e por ela. É lindo e é mágico.


Daí, a autora resolveu dar uma entrevista polêmica, dizendo que se arrependeu de ter feito Hermione ficar com Rony, e que ela seria mais feliz com Harry.
A pior parte é que ela segue dizendo que espera não estar quebrando corações com essa declaração.
Imagina! Quem se importa com Romione? Quem se importa com Rony? A autora obviamente não, pois declarou em outra entrevista mais antiga que já pretendeu mata-lo. Claro, por que não? Harry não é infeliz o suficiente ainda.
Quando você acompanha uma série por tanto tempo, você se sente um pouco parte dela, um pouco “dono” dela. Você conhece detalhes dos personagens e sente que são como amigos muito íntimos. Eu sei que pelo menos os fãs de Harry Potter se sentem assim.
Levou uma semana para que eu parasse e pensasse nessa declaração friamente.
Acontece que você esquece que a autora conhece os personagens muito melhor que você, sabe o que realmente se passa em suas mentes (sei que são fictícios, mas só que escreve entende do que estou falando), goste você disso ou não. Se J.K. diz que Rony não teria superado sua baixa autoestima tão facilmente, você é obrigado a pelo menos ouvir o que ela está dizendo. Não é o leitor o dono da verdade.
O que não torna a declaração dela menos desnecessária. Para quê reacender a discussão e a guerra de casais que havia entre os fãs dos casais Romione e Harmione? Sério, naquela época as pessoas até esqueciam que os três eram amigos acima de tudo.

“- Ela é como uma irmã – continuou ele. – Eu a amo como uma irmã e acho que ela sente o mesmo com relação a mim. Sempre foi assim. Pensei que você soubesse.” – Harry, em “As relíquias da Morte”.

A declaração de J.K. gerou polêmica desnecessária, quebrou milhares de corações, mas não é capaz de mudar o que está escrito. O que é um alívio, a menos que ela resolva recolher todos os exemplares do último livro por “erro de fabricação” e corrigir seu engano. O que não vai acontecer, então, Potterheads, relaxem. Ninguém vai mexer nos seus personagens preferidos, nem no que aconteceu com eles, nem a própria criadora.


No fim, a única coisa que quero realmente saber é por que J. K. não dá outra entrevista dizendo que se arrependeu de não ter feito Neville e Luna ficarem juntos?