quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Divagando | Fanfics: originalidade x homenagem

2 comentários:
Fanfiction: O que é?

Também conhecido com fanfic ou simplesmente fic, o termo nasceu da junção das palavras fan (fã) e fiction (ficção), traduzindo-se como ficção de fã. Explicando melhor, uma fanfiction nada mais é que uma história criada por um fã de determinada obra ou celebridade. Pode ser sobre:
- Livros: Harry Potter, Crepúsculo, Guerra dos tronos;
- Revista em quadrinhos/Graphic Novel: Batman, Homem-aranha;
- Mangas ou animes: Naruto, Bleach, One piece;
- Séries: Supernatural, The big bang theory, Vampire Diaries, Pretty little liers;
- Filmes: Matrix, Meu primeiro amor, ABC do amor, O exterminador do futuro;
 - Artistas: Jennifer Lawrence, Paramore, Tokyo Hotel;
- Ou qualquer coisa de que você seja fã e sobre o quê queira criar uma história;

Há discussões sobre a “legalidade” das fanfictions, pois elas geralmente usam personagens e universos literários criados por outras pessoas, ou usam o nome de pessoas famosas que nem sempre consideram a fic como uma “homenagem”. Há inclusive autores que proibiram o uso de suas obras em fanfics, como Anne Rice, que não quis saber de nenhum fã usando um de seus vampiros em outras histórias.

Cinquenta tons no Crepúsculo

Por falar em vampiros, quem já ouviu falar de um livro sobre uma humana que se apaixona por um vampiro? Sim, estou de novo citando “Crepúsculo” (um caso de amor mal resolvido? Despeito? Pura e simples necessidade? Quem vai saber…). Enfim, a fama de Crepúsculo pode agradar algumas pessoas tanto quanto irrita outras, mas devo reconhecer que o livro de Stephenie Meyer ajudou a tornar o termo fanfiction conhecido do grande público. Não sei ainda se isso é bom o ruim, mas o fato é que foi graças ao livro de Meyer que o mercado literário ganhou um novo brinquedinho sadista para um público masoquista: “Cinquenta tons de cinza” (outra citação repetida, outro amor mal resolvido?). Sim, como muitos sabem – e para os que não sabem – Cinquenta tons é uma fanfiction de Crepúsculo, mas baseada em um universo alternativo.
“50 tons” nasceu com o nome de “Master of the universe”, onde Eddward Cullen seria um CEO misterioso e sadista, que se apaixonada por Bella, uma garota imperfeitamente normal, e a introduz em um mundo em seu mundo de dominação, submissão e jogos eróticos. Não muda muita coisa do enredo que conhecemos de “50 tons” e, pelo que sei, nem as falas originais escritas por Stephenie Meyer são muito diferentes das usadas por E. L. James…

Publicidade na literatura: Quantidade X Qualidade

Quero me concentrar no fato de que uma editora pegou uma fanfiction famosa de Crepúsculo, a transformou em um livro polêmico, e deu início a uma avalanche de livros ruins, oportunistas, e plágios mal disfarçados.
Em tempos mais felizes da literatura, as obras costumavam ser originais, traziam discussão à sociedade ou, pelo menos, alguma distração decente. Hoje, é apenas repetições de padrões, fórmulas de sucesso que não têm nada a ver com qualidade, e sim com jogos de publicidade. Algo que teve início com a busca de substitutos para “Harry Potter” e o próprio “Crepúsculo”, momento em que surgiram centenas de livros juvenis com propostas parecidas, mas sem a metade da magia de seus antecessores.

Fale bem, fale mal…

Sim, estou falando de magia e me referindo também a Crepúsculo. Eu não gosto da série, li apenas o primeiro livro e não há nada que me convença a ler o segundo, mas tenho que admitir que a técnica do “ame-o ou odeie-o, mas fale dele” deu muito certo. Crepúsculo é amado por uns e odiado por outros na mesma medida. Você saberia dizer com certeza se essa saga tem mais amantes do que inimigos? Eu não.
O problema é que Crepúsculo abriu um triste precedente publicitário no mercado. A mesma tática foi usada em Cinquenta tons de cinza, que se tornou um fenômeno de vendas e, ao mesmo tempo, de rejeição.

Deus do sexo dominador

Por sua vez, 50 tons abriu as portas para os romances eróticos, que andavam esquecidos, e ajudou a mostrar para o mundo que mulheres também gostam de sexo. As editoras não perderam tempo e estão tirando de seus arquivos aqueles velhos manuscritos perdidos, a maioria provavelmente destinada a ser mais um título desimportante de outra edição de Sabrina.
Ao invés disso, ganharam um ar de importância não merecida e estão enchendo as livrarias com romances que mais parecem cópias uma das outras, tudo muito parecido. Maior exemplo disso é “Toda sua”, livro erótico de Sylvia Day, que admitiu ter baseado sua história no próprio “50 tons”. Tudo bem, Sylvia Day escreve melhor que E. L. James, mas isso não vem ao caso.
Se eu pegar mais um livro sobre um CEO de uma empresa próprio, que seja jovem, forte, “deus do sexo” e dominador, eu não sei se aguento. É tanta vergonha alheia pelos autores desses livros, que dá pena.
Aliás, “Deus do sexo dominador” até parece aqueles anúncios que enfeitam os telefones públicos: “Ninfeta loira”, “Morena fatal” e outros clichês que não sei porque ainda funcionam.
Cadê a originalidade? A pergunta serve tanto para os autores quanto para os garotos de programa. CADÊ A ORIGINALIDADE?

Fanfictions: Falta de originalidade, homenagem ou treino?

Podemos ficar com um pouco dos três? Okay, eu admito, eu sou ficwriter (escritora de fanfics) e, às vezes, me sinto culpada por isso. Eu queria poder dizer que as histórias que criam usando personagens de outro autor são minhas, mas não sei se isso é totalmente verdade. Por definição, os personagens pertencem a outro autor, então eu não teria direito de usá-los. A melhor desculpa que eu e outros ficwriters usamos é que as fics não têm interesse comercial, são apenas "brincadeira" de fã, servem para divulgar a obra original e conhecer outras pessoas com os mesmos interesses. E para treinar.
"Ah, mas não pode treinar com seus próprios personagens?". Bem, sim. Na verdade, deveríamos treinar assim, mas é divertido brincar com nossas histórias e personagens favoritos. Eu, pelo menos, quando começo a gostar de um livro, começo a criar mil e uma outras possibilidades de interação entre os personagens e isso faz a minha mente trabalhar. Gosto de compartilhar isso com outras pessoas que gostam das mesmas coisas e sempre deixo os devidos créditos.
Claro, é difícil olhar para tudo o que você escreveu e não ver ali algo que seja seu. A fanfic é sua e se eu soubesse alguma forma de desapegar delas, eu usaria agora mesmo.
No entanto, vamos ampliar um pouco mais essa discussão. Você sabe o que são fanarts? (Fan = fã + Art = Arte), em outras palavras, são desenhos feitos por fãs de seus personagens ou celebridades favoritos. É um outro jeito de contar uma história, mas ao invés de palavras, usa-se o desenho. Você julgaria alguém por desenhar Harry Potter ou Naruto ao invés de criar um personagem próprio e desenhá-lo? Se o desenhista faz isso para homenagear ou para treinar, você pode acusá-lo de falta de originalidade?
"Como isso é diferente do que foi discutido no tópico anterior?"
Os livros comentados no tópico anterior querem vender em cima de sucessos anteriores, que abriram as portas do mercado, e não estão preocupados com qualidade. As fanfics e as fanarts só querem declarar seu amor às outras obras. Isso é errado? Se for, eu gosto de fazer coisa errada.