terça-feira, 27 de agosto de 2013

Livro | Resenha | Trilogia erótica - Anne Rice

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Trilogia Erótica I
Numa época em que virou moda livros soft porn a lá "Sabrina", chega nas livrarias uma trilogia erótica escrita por Anne Rice, com o pseudônimo de A. N. Roquelaure, mas dessa vez sem vampiros, bruxas ou qualquer outro ser sobrenatural. No entanto, algo que poucos sabem, é que essas obras não são resultados de um esforço de pegar carona numa moda já tão saturada.

O primeiro livro foi publicado em março de 1983, com o nome de "Os Desejos da Bela Adormecida". O enredo começa quando o Príncipe encontra a Bela e a acorda da maldição que a fez dormir por 100 anos. O até-então-conto-de-fadas muda de figura quando, ao invés do 'felizes para sempre', a princesa descobre que agora é uma escrava que servirá ao príncipe e toda sua corte no reino dele.

Para a surpresa da inocente princesa, ela descobre que não será uma escrava comum, mas sim uma escrava que vai andar nua e servir aos desejos de seus senhores, que podem variar desde uma obrigação simples como servir bebidas, até fazer sexo. Não demora até ela também descobrir que servirá junto com outros príncipes e princesas escravos.

A trama é simples e o primeiro livro cumpre aquilo que se propõe a fazer, descrever cenas de sexo. O fundo sado-maso influencia nos acontecimentos, deixando algumas cenas mais 'pesadas', a ponto de ter gente que fica chocada e desiste de ler nas primeiras 50 páginas. Meu ponto de vista: é a mesma coisa que assistir um filme pornô que não seja 'female-friendly' (amigável com as mulheres), ou seja, se você acha que pornôs são nojentos mas por algum motivo misterioso ama 50 tons, pode ler, mas não reclame depois.

Trilogia Erótica II
O segundo livro da trilogia foi publicado em março de 1984, um ano depois do primeiro, com o nome de "A Punição de Bela". Não vou revelar o que acontece, não quero cortar o possível tesão que alguém tenha lendo a trilogia, mas esse livro não agrega nada à trilogia. É a repetição da mesma fórmula usada no primeiro, e só um capítulo me surpreendeu. Se no primeiro o limite era mostrar homens sendo violentados por cenouras, no segundo o limite passa a ser um gang-bang (sexo grupal, no caso com uma mulher e vários homens).

Meu ponto de vista, minha opinião tosca

Livros eróticos nunca chamaram minha atenção, apesar de já ter lido vários contos. Mas é aquilo, conto é rápido, não é algo que se estende por mais de 10 páginas. Quando isso acontece ele passa a ter continuação. Esses dois livros serviram para reafirmar o que eu já achava sobre livros eróticos, por mais bem escritos que eles sejam, as vezes ver um filme pornô é mais eficaz, seja porque você quer ter prazer ou porque você quer se entreter vendo sacanagem.

Demorei uns cinco meses só enrolando pra começar a ler e terminar de ler o segundo livro, e cada página foi um tédio, justamente por não ter nada além da mesma fórmula que vi ser usada no primeiro.

Trilogia Erótica III
O terceiro livro, publicado em junho de 1985, chama "A Libertação de Bela". Não sei quando vou ler, muito menos quanto tempo vou demorar para ler, mas se por acaso ele mudar alguma coisa no que já li, faço um texto sobre isso. Caso contrário, vou ficar devendo.

Mas considerando o contexto histórico no qual essa trilogia foi escrita e o que dizem ter sido o motivo pelo qual Anne Rice a escreveu, ela cumpriu muito bem o seu objetivo. 

Numa época quando movimentos feministas eram contra a pornografia, se bobear com o mesmo discurso que vejo um monte de mulheres proclamando hoje por ai, de que as mulheres têm que se dar ao respeito e não usarem roupas curtas, Rice escreveu como uma forma de dizer que as mulheres têm direito a liberdade de ler e escrever o que bem entenderem, inclusive pornografia. Nisso repito, a fórmula usada no primeiro livro, é a mesma de um roteiro de filme pornô, o que não muda no segundo livro e acho que já consegui deixar bem claro porque duvido que vá mudar no terceiro.

Possível spoiler

Me arrisco até a dizer que no terceiro livro é capaz do personagem principal ter as vezes de senhora, com um escravo ou mais para poder brincar e 'brincar' a vontade.

sábado, 10 de agosto de 2013

Livro | Resenha | Toda sua - Crossfire 1 - Sylvia Day

Um comentário:
Uma coisa leva a outra

Acompanhe meu raciocínio: Crepúsculo é uma série sobre uma menina de dezessete anos que nunca se apaixonou na vida, nem viveu nenhum tipo de emoção em sua vida até se apaixonar por um vampiro e ter que praticamente implorar para que ele a transformasse. São necessários três livros de uma saga que não tem razão de ser para que ela consiga o que quer.
Uma fã já grandinha dessa série adolescente resolve escrever uma fanfiction em um universo alternativo em que Bella é uma formanda da faculdade e Edward é um poderoso magnata sadomazoquista. A fanfic faz tanto sucesso que a autora decide virar escritora profissional e lançar sua fanfic como uma original, mudando alguns detalhes aqui e ali, deixando o básico para não mudar a história toda e o mercado editorial ganha um novo brinquedinho: Cinquenta tons de cinza.
A história de amor e sexo de Christian Grey e Anastasia Steele conquista as fãs de Crepúsculo que já tinha crescido um pouquinho e, de quebra, outros corações desavisados que nunca tinham lido um livro erótico na vida. E, de repente, o mercado editorial descobriu uma coisa inovadora: mulheres também gostam de sexo e gostam de comprar.
O resultado foi uma enxurrada de títulos eróticos nas prateleiras das livrarias, da mesma forma que aconteceu quando Harry Potter e Crepúsculo acabaram e as lojas precisavam de substitutos. Títulos como Luxúria, S.E.G.R.E.D.O., O inferno de Gabriel, A bibliotecária, Belo desastre, e a mais nova fanfiction de Crepúsculo que virou livro Cretino irresistível, e as respectivas continuações estão lotando as prateleiras e é difícil acompanhar o ritmo.

Um desses títulos é o tema da resenha de hoje.

Crossfire, livro 1 - Toda sua
Toda sua é o primeiro livro da série Crossfire da autora de livros eróticos Sylvia Day. A série já tem mais dois livros lançados, com os originais e geniais nomes de Profundamente sua e Para sempre sua e promete encerrar com mais dois livros (só espero que desistam de colocar a palavra "sua" nos próximos títulos em português), ainda sem previsão de lançamento. Sylvia Day é uma conhecida autora de livros eróticos e tem na carreira outros títulos que fizeram algum sucesso lá fora. O provável motivo de Toda sua ter se destacado é a declaração da própria autora de ter se "baseado" em Cinquenta tons de cinza na composição da história e de seus personagens. Não, não se trata de uma fanfiction de "50 tons", mas – arrisco dizer – uma versão melhorada. Nenhuma grande proeza, porém.

Comparações necessárias

Eu não gosto muito de fazer comparações desnecessárias, mas algumas são inevitáveis. Enquanto na resenha de Cinquenta tons de cinza eu fiz um rápido paralelo Edward Cullen/Christian Grey e Bella Swan/Anastasia Steele, agora me vejo diante de um curioso "jogo dos sete erros", com personagens e história essencialmente parecidos, mas colocados no papel por uma escritora experiente.
Christian Grey é um magnata que atua em todas as áreas que pode e controla Seatle como se fosse o quintal de sua casa. É bonito, atraente e pode ter a mulher que quiser... desde que ela esteja interessada em sexo com brinquedinhos e surras ocasionais. Ele tem um bom relacionamento com sua família adotiva, embora prefira se manter distante por causa de seu passado traumático com uma mãe prostituta e viciada, e o cafetão dela que gostava de queimar bitucas de cigarro em seu peito. Aos quinze anos, Christian tornou-se submisso de uma mulher mais velha, casada e amiga de sua mãe adotiva. Seus traumas deixaram marcas, entre elas a fobia de ser tocado.
Gideon Cross é um magnata que atua em todas as áreas que pode e controla Nova York como se fosse o quintal de sua casa. É bonito, atraente e pode ter a mulher que quiser. Seu relacionamento com a família é bastante conturbado. Ele é filho de um empresário que roubava dos próprios clientes e que optou pelo suicídio para não ser preso por seus crimes. Sua mãe casou-se novamente, mas o passado de seu pai ainda o atormentava, transformando-o em uma criança cheia de problemas. Quando sua mãe contrata um psicólogo é quando a vida do jovem Cross realmente se torna um inferno. Desses fatos, Gideon desenvolve um problema que o atinge praticamente todas as noites, a parassonia sexual atípica, fazendo seus pesadelos ultrapassarem o limite da imaginação e tornando impossível que ele divida sua cama com alguém.
Os dois têm preferência por mulheres morenas o que poderia ser irrelevante se Anastasia Steele e Eva Tramell, respectivamente não acreditassem que esse é um bom motivo para se sentirem inseguras e ciumentas.
Ana e Eva não têm muito em comum além da atração irresistível que sentem por seus magnatas e que despertam neles sem qualquer explicação plausível. Enquanto Ana é uma morena bonita e virgem, sem grandes problemas em seu passado, Eva precisa lidar com as lembranças do abuso sexual que sofreu dos dez aos catorze anos, uma mãe superprotetora e os problemas pscicológicos de seu melhor amigo e porto seguro Cary. Apesar dos traumas, Eva conseguiu fazer as pazes com o sexo e o desejo embora, por muito tempo, tenha usado isso como uma ferramenta de fuga de seus problemas reais, danificando ainda mais sua autoestima e seu psicológico.
A maneira como os casais se encontram não é muito diferente também. Ana e Eva caem no chão, literalmente aos pés do deus-do-sexo de seus respectivos livros.
Não é apenas na escrita que Sylvia Day se destaca de E.L.James, mas também na maturidade de algumas partes de seu enredo. Claro que em nenhum momento se cria a ilusão de que em um romance erótico o enredo tem alguma chance de se sobressair aos orgasmos múltiplos e madrugadas inteiras de sexo selvagem. Apesar de ser uma escritora melhor, Sylvia também entedia o leitor com passagens desnecessárias e algumas coisas são tão previsíveis que perde a graça. Sem falar na minha velha conhecida implicância com histórias narradas em primeira pessoa.

Autora da série Crossfire - Sylvia Day
A história

Eva Tramell acabou de ser formar em publicidade e consegue emprego em uma importante agência, que funciona no vigéssimo andar do imponente edifício Crossfire. Lá, ela conhece Gideon Cross, dono do prédio e de quase toda Manhathan.
A atração entre eles é intensa, mas ele quase estraga tudo ao propor um encontro rápido baseado unicamente em sexo. Apesar de tentada, Eva sabe que seus problemas apenas pioram quando usa o sexo como válvula de escape e, desde que saiu de São Diego para viver em Nova York, decidiu apenas se envolver sexualmente com homens com quem tivesse um relacionamento ao menos amigável. Ela não está interessada em namoro, pois preza sua liberdade e independência acima de qualquer coisa. Gideon aceita a oferta dela e é aí que a paixão e os problemas começam a dividir a atenção dos dois, que mergulham em um relacionamento imaturo, com uma interminável disputa de poder e sexualmente intenso. Eles resolvem todos os problemas na cama – ou melhor, no sexo, já que nem sempre isso acontece na cama propriamente dita.
Gideon atrapalha-se consstantemente com suas tentativas de se manter em um relacionamento sério no qual está emociconalmente envolvido pela primeira vez, ao mesmo tempo em que seus problemas psicológicos começam a afetar Eva mais profundamente do que seria saudável. Os dois têm traumas parecidos, mas maneiras diferentes de lidar com isso, o que pode acabar afastando-os para sempre.
No meio da confusão que a vida deles como casal se torna, fica difícil saber quem é mais dependente de quem. O relacionamento pode ser explicado pela frase que vem logo na capa do livro "Ele me possuiu e eu fiquei obsecada". O curioso é que o mesmo poderia dizer Gideon a respeito de Eva. Eles são viciados um no outro.
O que torna a história minimamente atraente é a sensação de que eles não deveriam estar juntos. É estranho, mas durante a leitura, às vezes você se pega pensando que seria melhor se cada um seguisse seu caminho. Até mesmo eles sabem disso, mas teimosamente se recusam a abrir mão daquilo.

O mercado de romances eróticos

Os romances eróticos Luxúria e Cinquenta tons de cinza
No mercado atual de romances eróticos todos os livros se parecem e a relação dominador/submisso se faz presente de uma maneira que me faz pensar se não tem alguém por trás desses livros tentando definir um padrão de comportamento nos casais. É um pouco revoltante que alguns dos livros mais lidos hoje em dia ditem que uma relação, para dar certo, tem que ter a pessoa que manda e a pessoa que obedece, e não a boa e velha concessão de ambas as partes.
Os livros da série Crossfire são alguns dos representantes da literatura erótica para mulheres, que se caracteriza por uma estranha mistura de soft porn¹ com BDSM (Bondage², Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo). No segundo livro, Profundamente sua, fica claro que Gideon Cross é um dominador, mas ele não tem um "quarto vermelho da dor", nem o desejo de bater, amarrar ou usar brinquedinhos em Eva. Entre eles é uma coisa muito mais psicológica do que física. O que não é uma justificativa, mas pelo menos muda um pouco do enredo de "50 tons" e os livros da trilogia Luxúria, por exemplo.
Toda sua não é o melhor livro do mundo, não tem a melhor escrita, os melhores personagens ou o melhor enredo. Mas é estranhamente atraente e viciante.

¹ Soft porn - Pornô leve, suave.
² Bondage - Prática de amarrar, prender, imobilizar o parceiro.