sábado, 25 de maio de 2013

Livro | Resenha | Crepúsculo - A Saga Crepúsculo 1 - Stephenie Meyer

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Ensinaram-me que não se deve “julgar um livro pela capa” e muito menos deixar-se levar pela opinião alheia, dois pensamentos que eu sigo e que até hoje me deram poucos motivos para arrependimento. Portanto, foi consciente do risco que eu peguei Crepúsculo para ler, depois de ter assistido os filmes e decidido que não gostava do que tinha visto neles. Mas eu precisava saber, precisava entender porque tantas pessoas odeiam e outras tantas amam. Eu achava, talvez com demasiada inocência, que tinha que haver um bom motivo para o livro despertar emoções tão fortes e contraditórias. Foi assim que me deparei com uma das histórias mais irrelevantes já criadas.
 Se eu fosse julgar o livro pela capa, contrariando uma das primeiras lições que tive na minha vida de leitora, a capa de Crepúsculo me prometeria muito mais do que aquilo que eu encontrei em suas páginas. Mãos segurando uma maçã, eterno símbolo da tentação e do pecado original, levado para um mundo onde há vampiros e lobisomens, é uma maneira interessante de apresentar uma história. Mas a promessa dura pouco e percebe-se logo que não há nada que justifique o porquê daquela história estar sendo contada.
Se Crepúsculo fosse apenas uma história sobre uma garota nova na cidade que se apaixona pelo cara popular, possivelmente não venderia tantas cópias, sequer passaria pela primeira leitura dos editores e jamais seria publicada, pois coisas como essas já vimos aos montes e não precisamos de mais. O que vendeu Crepúsculo foi o elemento sobrenatural, fantástico, e a presença de um vampirinho camarada que brilha no sol e é vegetariano, apesar de comer ursos e veados.
Nunca me interessei por histórias de vampiros, li “Entrevista com o vampiro”, assisti alguns filmes e ouço amigos que jogam “Vampiro, a máscara” dissecar todas as características que acham que eu devo conhecer sobre os clãs de vampiros do Mundo das Trevas. Ou seja, meu raso contato com essas lendas não me torna uma especialista, então não vou comentar a fundo o fato de Edward brilhar no sol ao invés de morrer. Também não sei se ele deveria ou não ser alérgico (ou sensível, ou seja-lá-o-que-for) a dentes-de-alho e crucifixos. Pois, na verdade, isso não me incomoda, nem me preocupa em nada. Sei que para os verdadeiros fãs de vampiros essas pequenas coisas que Stephenie Meyer faz são justamente o problema.
Mas o excesso de purpurina nos vampiros não é a pior parte.
Em “Entrevista com o vampiro”, por exemplo, a história é densa e angustiante em muitos momentos. A narração em primeira pessoa colabora para esse clima pesado, pois acompanhamos os dramas acumulados por séculos pelo protagonista, o que não é exatamente legal, e por vezes até chato, mas mesmo isso é parte da história. A autora, Anne Rice, nos faz sentir um pouco daquilo que Louis sente, o que torna a obra extremamente eficaz em seu propósito. E, aqui, falo do propósito da literatura em geral, que é a da identificação e da catarse.
Em Crepúsculo, temos uma soma infinita de cenas e situações clichês, temperadas por uma narração em primeira pessoa que, ao invés de aproximar o leitor da protagonista, para que haja identificação, só faz com que o leitor se canse rapidamente dela.
Bella Swan é uma adolescente e, depois que você sabe isso, poucas coisas são interessantes a respeito dela. E até ela sabe disso! O único jeito do leitor gostar menos de Bella é sendo a própria Bella, pois dificilmente haverá um personagem com uma auto imagem tão depreciativa. A impressão que dá é que, se dependesse dela, Bella ficaria trancada no quarto, para não ter que lidar com as outras pessoas.
Não que ela tenha motivos para isso. Ela acabou de se mudar para a cidade mais chata do mundo (muito chata mesmo), e todos no colégio querem ser seus amigos. Como se não bastasse, três rapazes se apaixonam por ela, isso sem colocar na conta um certo vampiro e um lobisomen ( Jacob, que aqui ainda é um garoto de quinze anos). Que vida difícil, heim, Bella?
Como sua vida é extremamente sem graça (e nisso sou obrigada a concordar com Bella), não é difícil entender porque ela fica tão excitada com a descoberta de que o único garoto que chama sua atenção no colégio é, na verdade, um vampiro. É preciso apenas uma pesquisa na internet e um passeio na floresta, para que ela entenda o que Edward realmente é e aceite a ideia, sem pirar como qualquer pessoa sensata faria. Ninguém aqui se iludirá o suficiente para acreditar que “sensata” é um adjetivo adequado para Bella, não é?
Não tem nenhuma explicação para o fato de tantos caras se interessarem por Bella, pois a narração é em primeira pessoa, e Bella tem sérios problemas com sua auto estima (para não dizer problemas com autopreservação). Logo, a narração se concentra em Edward, que até ela sabe que é mais interessante. Mais da metade do livro é dedicado a conhecê-lo e saber mais sobre sua habilidade de ler mentes, sobre como ele é bonito, forte, rápido, estressadinho e bipolar, e como ele a faz sentir... viva. Até sexualmente viva, aliás.
Não sei se é implicância minha, mas não vejo nada de muito romântico num vampiro ficar obcecado numa humana. Stephenie Meyer quer convencer o leitor que essa obsessão de Edward equivale ao amor de Bella, mas me parece muito doentio.
Porém, não são poucas as coisas que ficam sem explicação nesse livro. A primeira é o que Bella tem de tão especial para chamar a atenção dos três humanos, do lobinho e do vampiro. A segunda é o porquê dos Cullen acharem que é uma boa estratégia encontrar estabilidade numa cidade pequena em que todos se conhecem. Quero dizer, se você quer passar despercebido, você não vai para uma cidade pequena, vai para uma cidade grande, onde o anonimato é mais garantido. Se você quer ficar longe da tentação do sangue humano, você vai para lugares onde quase não há humanos, ou seja, viver no meio da floresta, não em um colégio cheio de adolescentes indefesos. E mais, se é para Edward e seus “irmãos” passarem por adolescentes normais e repetirem os anos de colégio pela eternidade, a família vai ter que mudar de cidade a cada quatro anos? Que tipo de estabilidade é essa?
O plot básico da história é esse, que só acaba depois da metade do livro. No final, lá no finalzinho mesmo, é quando alguma coisa começa a acontecer. Bella vai assistir o namorado vampiro jogar basebol com a família e conhece vampiros de verdade. É a primeira vez, em todo o livro, que ela parece perceber que vampiros são perigosos e que é melhor não mexer com eles. Bella é “apetitosa” para um desses novos vampiros e, mesmo que caçá-la represente uma perda de tempo, com tantas outras vítimas disponíveis e menos protegidas, esse vampiro decide que vale a pena arriscar. Edward e a família decidem protegê-la. Algumas páginas chatas depois disso, Bella encontra-se com o grande vilão da história e… desmaia. A limitação da narração em primeira pessoa aparece mais uma vez, pois só sabemos o que aconteceu no final do confronto, quando alguém o relata à Bella. Depois disso, mais páginas inúteis e o merecido fim.
Enfrentei a leitura de Crepúsculo com dois objetivos: o primeiro era descobrir porque tanta gente odeia o livro. Objetivo atingido. O segundo, descobrir porque tanta gente ama. O que  ainda é um mistério, pois dizer que foi “por causa do romance” não é o bastante. Romances têm aos montes por aí e nem todos têm a devida atenção. O romance de Bella e Edward na maioria das vezes soa forçado, obsessivo, co-dependente e autodestrutivo. A grande dúvida que fica é se podemos, ou devemos, chamar isso de romance.
Algumas leituras encaram Crepúsculo como uma metáfora da adolescência, um momento de questionamentos e transformações, cheio de dramas e exageros, e da certeza de que o primeiro amor é forte, indestrutível e insuperável. Dá para ver isso em Bella, uma protagonista genérica e sem carisma, mas que, contraditoriamente, consegue fazer com que muitas mulheres se identifiquem com ela (não todas, apenas o suficiente). Bella representa um apanhado de muitas das inseguranças femininas relacionadas ao amor e auto estima.
Eu gosto de metáforas e até gosto desse aspecto de Crepúsculo, mas isso não torna a história boa. No livro todo não acontece nada de interessante. É só uma garota falando de suas inseguranças, seus desajustes e de seu primeiro e grande amor.
Para terminar, fica a defesa de que, antes de falar mal de uma coisa, é preciso conhecê-la. Essa foi minha verdadeira missão na leitura desse livro, no fim das contas. Se você deve ou não ler, se deve ou não gostar, é por sua conta e risco.