domingo, 24 de fevereiro de 2013

Livro | Resenha | Cinquenta tons de cinza - Trilogia Cinquenta tons 1 - E. L. James

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Pornô para mães

A primeira vez que ouvi falar do livro, eu não me interessei muito, pois foi logo com uma crítica nada positiva sobre ele. A segunda vez foi durante a leitura de um trecho, em que a pessoa que lia pra mim estava super animada e um pouco envergonhada com o que lia. No entanto, enquanto ela lia, eu me lembrava dos muitos “Sabrina”, “Bianca” e “Julia” que li no começo da minha adolescência.
São aqueles livros de banca de jornal, romances açucarados, que tinham sempre, sempre mesmo, uma protagonista muito jovem (lá na casa dos dezoito anos), muito virgem (inexperiente até com beijo), muito independente (sempre com uma opinião e uma resposta na ponta da língua), e muito incapaz de se livrar dos braços do homem mais velho (na casa dos trinta anos, não mais que isso, mas não menos de vinte e um).
As mocinhas desses romances eram, em geral, cheias de valores e problemas, e conheciam aquele cara maravilhoso, que nunca, nunca mesmo, era simpático com elas, pareciam odiá-las sem nenhum motivo aparente, as julgavam sem saber a fundo o que acontecia com elas e, ao mesmo tempo, as agarravam sempre que tinham oportunidade. E sem que elas quisessem ser agarradas. Bem, pelo menos no começo, porque elas nunca conseguiam sair dos braços deles, até que eles decidissem soltá-las. E elas se apaixonavam perdidamente em algum momento. A explicação deles? As amavam desde o momento em que as conheceram. Sim, simples assim.
Sobre o trecho que minha amiga estava lendo para mim, nada muito diferente do que eu já tinha lido nesse tipo de livro uma dezena de vezes… um estilo do qual eu já havia me cansado há um tempo. E aí é que está.
O que incomoda em “Cinquenta tons de cinza” não é a relação Dominador/Submissa, é a repetição de um estilo de livros que minha avó já lia enquanto fazia o enxoval dela. Só que com elementos de masoquismo… Não por menos, o livro está sendo conhecido lá fora como “Pornô para mamães”.
Na terceira vez em que ouvi sobre ele, minhas colegas de trabalhao começaram a aparecer com cópias desse livro e eu me rendi: precisava descobrir com o que estava lidando.

Fanfiction

“50 tons” nasceu como uma fanfiction de Crepúsculo. Eu não li esses livros – ainda -, mas assisti os filmes (eu apagaria da memória, se pudesse). E, de fato, há alguns padrões muito semelhantes entre os personagens. Veja:
Cristian Grey: Rico, misterioso, perigoso, cheio de segredos, ele e os irmãos são adotados. Edward Cullen: Rico, misterioso, perigoso, cheio de segredos, ele e os irmãos são adotados.
Anastasia Steele: Morena, pobre, dirige um fusca velho, é insegura, estabanada, tem pelo menos dois caras que se mostram interessados nela e fica completamente obcecada por Cristian no instante em que o vê. Bella Swann: Morena, pobre, dirige um caminhão velho, é insegura, estabanada, tem pelo menos dois caras que se mostram interessados nela e fica completamente obcecada por Edward no instante em que o vê.
Detalhe: Tanto Edward quanto Cristian avisam suas donzelas de que eles não são o homem certo para elas. Ambas as donzelas não ligam para o aviso.
Não tenho absolutamente nada contra fanfictions (ficção de fã), pelo contrário, sou totalmente a favor delas. O problema não é como “50 tons” surgiu e sim o modo como você pode facilmente relacionar uma obra à outra, e isso é muito frustrante (mesmo que, como eu, não goste nem de uma, nem de outra).
Acho que as fanfictions têm que permanecer exatamente onde estão e ser o que são. Se alguém quiser evoluir de um escritor de ficção de fã, para um escritor de verdade, pelo menos tenha a decência de escrever algo novo, original e diferente.

Personagens

Anastasia Steele tem 21 anos, está terminando a faculdade e estuda literatura. No entanto, no instante em que conhece Cristian, Ana – como gosta de ser chamada – passa a se comportar como uma garotinha de colegial.
A personagem é apresentada exatamente como todas as personagens daqueles romances de banca que citei acima. Cheia de opiniões e virgem, beijou apenas dois caras em toda a sua vida.
Dá para perder as contas de quantas vezes ela diz “Uau” ou “puta merda” ou faz algum comentário bem infantil sobre como Cristian mexe com ela, provocando sensações que ela desconhecia até então. Tudo isso antes dele sequer propor que ela seja sua submissa. E isso fica chato logo, pois o livro é narrado em primeira pessoa. Sem falar de sua irritante esquizofrenia: Ana fica o tempo todo falando de sua "deusa interior" e seu "inconsciente" como se fossem amigas de infância... é esquisito, chato e infantil.

Cristian Grey. Nem ele, que é bem mais interessante que sua companheira, tem uma apresentação muito melhor. Ele é rico. Jovem empresário bem sucedido. Misterioso. Possessivo. Perseguidor. Dominador. Sei lá, se a história não fosse contada em primeira pessoa, se o personagem principal fosse ele e não Anastasia, e se a escrita não fosse tão ruim, “Cinquenta tons de cinza” poderia muito bem ser um livro com a história certa.
Porém, “50 tons” se resume a uma personagem principal insossa, que fica o tempo todo repetindo “puta merda”, “ual” e o nome de “Cristian Grey”, o comparando com um “herói romântico”, um “cavaleiro reluzente”, e achando absurdo o fato de um “deus grego, um Adônis” como ele estar interessado nela.
E o pior é uma mulher, inteligente e independente, ficar toda derretida e cheia de desculpas aceitáveis para o fato de um cara que ela mal conhece persegui-la, rastrear seu celular, manda-la sentar, comer, dormir… e também achar sexy e sedutor o seguinte diálogo:

- Isso quer dizer que você vai fazer amor comigo hoje à noite, Cristian?
- Não, Anastasia, não quero dizer isso. Em primeiro lugar, eu não faço amor. Eu fodo… Com força.
Meu queixo cai. Foder com força. Puta merda, isso parece muito excitante.” - Pág. 89.

Dominador / Submisso

Vamos deixar uma coisa bastante clara aqui, antes de continuar: não sou contra sadomasoquismo ou essa relação “Dominador/Submisso”, e não vou ficar discursando sobre a liberdade feminina. Por que isso não vem ao caso.
Aqui, o que importa é a preferência de duas pessoas que querem manter uma relação, independente do “conteúdo” dela.
Ele quer dominar e, inexperiente ou não, Anastasia quer ser dominada. Tudo bem, ela leva mais da metade do livro tentando decidir se quer ou não assinar o tal contrato que impõe as regras dessa relação, os limites rígidos e os limites brandos, porém, se Anastasia não quisesse ser submissa, não teria esperado tanto, e teria negado logo de cara. A verdade é essa: ela quer, a decisão é dela, e não tem nada a ver com a relação homem/mulher na sociedade. Mesmo porque, - cuidado com o rápido spoiler - o próprio Cristian foi submisso anteriormente.
Anastasia é aquela garota insegura e sem graça que todos nós conhecemos, e que magicamente consegue atrair pelo menos três homens diferentes. Dois deles, ela nem considera, e o outro, bem, é o tal deus grego. Ela conhece Cristian e, depois de alguns encontros nem tão acidentais assim, ele a avisa que não é o homem certo para ela. Claro que, como em qualquer história, isso não funciona e Ana continua maravilhada com ele.
Cristian, incapaz de ficar longe dela, naquele tipo de magnetismo inexplicável, decide apresentá-la a seu mundo e deixa-la decidir se quer fazer parte dele. Claro, aqui, tem algo a se considerar nessa coisa de “a decisão foi dela”. Ao primeiro sinal de que Anastasia vai recuar e esquecer essa história, Cristian aparece na casa dela e a “convence” a pensar um pouco mais.
No entanto, repito, se no fundo ela não quisesse, não haveria livro (não que isso seja uma ideia tão ruim assim).

Meias palavras

Há aquelas cenas de palmadas, chicotadas e brinquedos eróticos que você provavelmente está esperando, mas há um padrão que se repete: ela goza e, em seguida, ele goza. Não que seja impossível, mas isso acontece exatamente da mesma forma todas as vezes. Mudam alguns detalhes aqui e ali, mas depois é assim que termina.

Outra coisa, Anastasia admite que quer fazer sexo masoquista com esse homem misterioso, mas é incapaz de ser direta quando o assunto é dizer onde está sentindo prazer. Ela fica cheia de meias palavras: “Eu sinto ele tocando… ali”, “Minha parte mais íntima”, “Lá embaixo”… Ou seja, depois de tantos “puta merda” e “foder com força”, ela não consegue falar “vagina” ou “clitóris”. Sendo que nem são termos pejorativos, e sim parte da anatomia feminina.

Lembra daquelas aulas de biologia, em que seus colegas ficavam de risadinhas sempre que ouviam as palavras “pênis” e “vagina”? Então, a sensação é a mesma.

Enfim…

“Cinquenta tons de cinza” tem tudo aquilo que as garotas adoram: uma personagem com que se identificar, um homem lindo, rico, sensual e misterioso, sexo, e até alguns momentos para dar uma risadinha ou deixar o coração apertar. Mulheres são mulheres e não têm como fugir do romance… ainda que torpe.

Contudo, o resultado final é um livro que pretende ser adulto, mas falha ao não conseguir encontrar o tom certo para a história narrada e acaba soando extremamente infantil.

A história é fraca, a escrita é podre, a personagem principal é chata. Tudo muito ruim para ser considerado.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Original | Conto | Uma noite - Ana Bárbara

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Antes de qualquer coisa: Esse texto não é aconselhável para moralistas, homofóbicos e menores de 18 anos! Não tem nada explícito, pelo menos não que eu ache, mas não estou disposta a ouvir mimimi alheio por não ter avisado.

Para quem não sabe, jogo RPG. Não sou das mais viciadas por regras, mas gosto de criar as histórias dos meus personagens. 

O texto a seguir fiz nas últimas semanas para mais uma mesa na qual vou participar. O personagem foi criado por outro jogador, mas escrevi a história e mudei algumas coisas da versão original...

Bom, só para entender, essa história é para um jogo de Vampiro, e a personagem se chama Esther Garcia de Moros. Ela é uma judia espanhola, nascida em 1418, em Córdoba. A cena a seguir acontece em meados de 1444, na Itália, lugar para onde ela fugiu depois de uma revolta na Espanha que resultou na morte dos pais e em seu sequestro pelos mouros. Depois de ser violentada e forçada a viver como prostituta, Esther 'abraça' essa vida e consegue fugir num navio.

Espero que gostem!

Volto a avisar que não é aconselhável para moralistas, homofóbicos e menores de 18 anos!

Ah, e um pequeno spoiler para quem não conhece nada sobre RPG de Vampiro, os Giovanni são vampiros e bom... daí se pode ter uma ideia.

***

Ela não tinha ideia de quanto tempo havia passado desde o pôr-do-sol, mas não estranharia se fosse tarde, afinal já podia ouvir as vozes no andar de baixo e o som de passos do lado de fora de seu quarto. No entanto, Esther não tinha vontade de sair, ou talvez não quisesse mesmo, não sabia dizer ao certo.

Estava completando sete anos naquela cidade, e ainda não se acostumara aos seus sons, cheiros e costumes. Sentia saudades de Córdoba, da sinagoga que frequentava com seus pais... Seus pais... O aniversário de sua morte passara, e não existia um túmulo onde pudesse visitá-los, a não ser em seu coração.

Durante todo esse tempo ela pensava se talvez a morte não tivesse sido melhor. Do que adiantou continuar viva? Perdeu sua dignidade como mulher, era mal vista pela crença de seus pais, e talvez eles mesmos a odiariam e se envergonhariam de tê-la como filha se ainda vivessem. A única coisa com o que se importava no momento eram suas meninas, mas sabia que elas estavam bem, colocando em prática as coisas que lhes ensinara quando vieram até sua porta...

Se pudesse voltar no tempo! Teria convencido seu pai a fugir quando a revolta começou e assim estariam juntos até hoje, e ela provavelmente estaria casada, cumprindo seus deveres como esposa e talvez se preocupando com filhos ao invés de criar meretrizes. Mas tudo isso está perdido... Seus sonhos se perderam junto com sua inocência, no bordel onde fora vendida pelos mouros, aqueles cães Malditos!

Hoje está casada com a noite, e suas filhas riem e cheiram a perfumes e vinho enquanto entretém senhores, distintos ou não. E agora as cicatrizes de sua alma começam a aparecer em sua pele, nova de mais para isso, principalmente em sua profissão.

Ouviu a porta abrir. Pelo espelho pode ver Carina entrando. Ela era uma de suas meninas mais novas, tanto na idade quanto na casa. Esther se afeiçoou pela garota de um modo que não conseguia explicar, e sabia que Carina também se sentia assim.

- Esther? Ainda não está pronta? Alguns... Senhores estão esperando para vê-la.

Ela não gostava que Esther trabalhasse como uma delas e não conseguia esconder sua insatisfação. Esther entendia, a garota era nova, jovem demais para compreender algumas coisas, mas ela tinha futuro, conseguia o que queria, e era uma das que mais lucravam ali dentro.

No te preocupesEstán aqui por otros motivos.

E como sempre, Esther não conseguia resistir àqueles doces olhos, que a encaravam com uma mistura de temor e afeição. Não sabia se Carina fazia aquilo de propósito ou não, mas não importava. A desejava, e esse desejo a fazia querer cumprir todas as vontades da garota. Se aproximou de sua menina e acariciou seu rosto, quando percebeu que ela segurava alguns envelopes.

- Cartas de quién?

Carina sentou na cama enquanto mostrava as cartas, jogando os cabelos de lado e encostando nos travesseiros, com as pernas despropositadamente visíveis pela fenda do vestido. Esther sabia o que ela pretendia, conhecia aquele jogo muito bem, afinal foi o primeiro a aprender nessa vida...

- Algumas são de comerciantes, outras são mensagens dos senhores que estão lá embaixo, e esta... - disse mostrando uma carta com um G de um lado e o nome de Esther do outro - Não sei de quem é.

Esther pegou as cartas, já imaginando do que se tratavam, e lutando para ignorar o que sentia por Carina.

- Lo de costume...Comerciantes agradecidos por mis empréstimos, algunos hasta querem marcar un encontro para me pagar... Otros pedindo desculpas... Ves? Los senhores que esperan abajo estan ávidos por una respuesta, como se yo fuera un milagre para sus oraciones y bolsillos... Ora! Un mensaje de Giacomo!

Ela não pode deixar de perceber a expressão de Carina, e não tentou disfarçar um sorriso por isso, embora não soubesse se era só pela revolta no rosto da garota ou por ter notícias de seu amado.

- Então é dele a carta misteriosa?

- No... No conosco este brasão...

Uma carta misteriosa... Esther não estava com vontade de ler agora, tinha uma sensação estranha só de segurar a carta. Será que ela também era de Giacomo? Não fazia sentido, ele nunca tinha sido tão formal a ponto de mandar uma carta daquelas. Aliás, formalidade não o descrevia no relacionamento deles, pois era Esther quem se encarregava dessa parte.

- Não vai abrir? Pode ser um novo jogo entre vocês e você nem sabe ainda. - Carina a olhava com desdem. Esther a conhecia tão bem, pobre garota. Achava que realmente a manipulava, e era por isso que estava se controlando para não ceder.

- No. Tengo más con o que me preocupar!

Jogou a carta na cama e foi procurar uma roupa para a noite. Já era tarde e os negócios a esperavam.

Enquanto se trocava, não conseguia parar de pensar no motivo que faria Giacomo escrever uma carta daquelas, principalmente se era verdade que ele estava lá embaixo, a sua espera. E pensar nele não ajudava a se controlar, principalmente com Carina ali, sentada na cama observando Esther tirar a roupa.

Quase sem pensar se aproximou de Carina e a beijou. Não conseguia mais resistir e também não queria resistir. Segurava o rosto da garota enquanto a beijava, sentindo suas mãos subirem por suas pernas nuas. Não queria mais nada, por ela o mundo poderia acabar que não sentiria nada, nada além daquelas mãos em seu corpo e aqueles lábios sorridentes em sua boca.

Aquilo não estava certo, nunca estava certo... Mas não conseguia compreender como algo tão bom podia ser tão errado.

Tinha que parar com aquilo, mas não queria. Para Esther era impossível se afastar daquela boca, daquelas mãos que a tocavam e puxavam... Se entregava cada vez mais àquela menina, que tinha aprendido tão bem como lhe provocar.

Não hesitou quando Carina a puxou para cama. A única coisa que queria era ficar ali, sentindo tudo, aproveitando... Só lutava para tentar retribuir cada toque, que proporcionava um arrepio diferente, e cada beijo, que a fazia pedir mais.

Era perfeito! Não desejava mais nada a não ser se perder cada vez mais naquele momento. Talvez a única coisa que melhorasse seria se tivesse Giacomo ali, olhando as duas, sentindo o desejo dele enquanto vislumbrava aquela cena, para no fim se juntar a elas e implorar para que lhe dessem atenção. Mas Esther sabia que no fim o centro de tudo seria ela, e isso a excitava mais ainda.

A noite parecia eterna, fixada naquele momento. Sabia que estavam ali há horas por causa do cansaço e do suor, mas não importava. Tudo o que queria era ficar ali, mesmo que fosse só para ficar deitada e abraçando Carina, sentindo aqueles beijos, agora carregados de ternura. Ela sentia como se nada pudesse acontecer para acabar com aquele momento... Suas dificuldades e tristezas estavam no passado e nada podia lhe atingir agora. Sabia que no fim tudo daria certo.

Não tinha ideia de quanto tempo passou, muito menos quando adormeceu. Acordou com as batidas na porta, mas não tinha vontade de ver quem era nem o que queriam, agora só queria continuar ali, deitada com Carina, sentindo a mão da garota em seu seio e tentando se controlar para não acordá-la.

A pessoa que estava na porta era insistente, e não tardou até Carina acordar. Ficou revoltada por isso, afinal ela queria acordar a mulher do seu lado, e não deixar que algum doido a acordasse com barulhos ininterruptos.

Se levantou, passando por cima da garota e se aproveitando para lhe acordar um pouco entre as pernas. Foi até a porta e encontrou a causadora de seu descontentamento.

- Basta! Diga, o que quieres...

A garota do lado de fora parecia ansiosa, e ao mesmo tempo curiosa para tentar ver quem mais estava no quarto.

- Desculpa se atrapalhei, mas os senhores que estão lá embaixo estão impacientes. Nenhuma de nós consegue mais distrai-los, principalmente agora que estão bêbados e parecendo uns gambás...

- Certo, puedes ir...

- Mas...

- No ouviré más! No tengo que dar satisfación. Vaya!

Esther bateu a porta, abafando o resmungo da garota, e ficou mais nervosa ao perceber que Carina estava rindo da cena.

- Quem diria que você acorda de mau humor!

- La culpa es tuya!

Estava voltando para a cama quando viu que Carina estava lendo uma das cartas, com um expressão séria.

- Você devia ter lido isso... Pelo que entendi, parece um convite...

Esther pegou a carta e finalmente pode ficar tranquila sobre o que faria Giacomo mandar uma carta daquelas. Estava errada, a carta era de um tal senhor Giovanni, e a convidava para um jantar. Não podia evitar a surpresa, afinal nunca fora convidada para um jantar depois de ter saído da Espanha, ninguém considerava certo ter alguém como ela dentro da própria casa. Mas também estava curiosa, e sabia que se fizesse tudo certo poderia ter ótimas oportunidades. Mesmo assim, nada calava seu receio, coisa que há muito tempo tinha deixado para trás.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Livro | Resenha | Trilogia Jogos Vorazes - Suzanne Collins

5 comentários:
Esse texto pode conter spoilers acidentais.


Primeiro volume
Sinopse:

Era uma vez um país chamado Panem, localizado no território antes conhecido pelo nome de América do Norte, ou o que sobrou dela após a invasão da água sobre os continentes e outras inúmeras catástrofes naturais, como terremotos, vulcões e outras inconveniências provocadas pela ação do homem no Planeta Terra.

Panem é formado por 13 distritos mais a Capital, o centro do governo. Cada distrito é especializado em uma atividade de sub-existência, mas todo lucro e regalias fica restrito para a população da Capital, deixando o resto do país em miséria.

Após um levante rebelde iniciar no Distrito 13 (durante os Dias Escuros), a Capital exterminou aquela região e todos que viviam ali. Para lembrar a todos o seu poder de destruição e o destino certo àqueles que se oporem ao governo da Capital, é criado o Tratado da Traição, que institui, entre outras coisas, os Jogos Vorazes...


"O Tratado de Traição nos deu novas leis para garantir a paz e como uma lembrança anual de que os Dias Escuros jamais deveriam se repetir, também nos deu os Jogos Vorazes (...). Como punição pelo levante, cada um dos doze distritos deve fornecer uma garota e um garoto - chamados tributos  para participarem. (...). Por várias semanas os competidores deverão lutar até a morte." - Pág. 24-25, Jogos Vorazes.

O vencedor dessa competição mortal pode voltar para casa, conquistando uma vida tranquila para ele e sua família. E, por um ano, o Distrito do tributo vencedor, terá cotas extras de comida.

*****

Fiquei sabendo desse livro quando sua adaptação para os cinemas começou a ser anunciada como a sucessora dos sucessos inquestionáveis Harry Potter e Crepúsculo. De fato, não pretendo questionar que Crepúsculo seja um sucesso, embora tenha uma ou duas coisas a questionar sobre os motivos que o fizeram sê-lo. Porém, longe de querer levantar uma polêmica entre os fãs dessas três franquias, comparando-as e sendo injusta com as três, pretendo deixar claro que essa afirmação não poderia estar mais errada.

Harry Potter fala sobre amizade, destino e esperança. Sobre a eterna luta do bem contra o mal e que somos aquilo que nos permitimos ser, não aquilo que esperam que sejamos, aquilo que nos obrigam, aquilo que nos limitam a ser.

Crepúsculo fala de amor e, na melhor das hipóteses, sobre as transformações e exageros da adolescência.

E Jogos Vorazes fala sobre a autoconfiança, a lealdade, a necessidade de questionar e pensar por si só. Fala sobre totalitarismos, aparências e futilidades, desigualdades, guerras, e o poder centralizador e manipulador da mídia.

Tendo colocado as diferenças básicas entre essas três obras, espero poder, a partir de agora, nunca mais ler uma besteira qualquer comparando-as e colocando-as sob os mesmos holofotes. E isso está além das minhas preferências. Comparações são ridículas e dispensáveis, portanto, façam-me o favor e mudem o discurso.

Eu li a trilogia de Jogos Vorazes em exatos 11 dias. Claro que o fato dos três livros juntos não darem um livro de As Crônicas de Gelo e Fogo, provavelmente me ajudou nessa leitura em tempo recorde. Quando terminei o primeiro livro, assisti o filme, curiosa, e acabei saindo meio decepcionada, meio feliz. O que importava estava lá. O que não importava... eram as partes que eu mais gostava do livro. Mas tudo bem, isso não chega a estragar a história.

Em seguida, devorei os outros dois livros, e chorei feito uma adolescente em crise no terceiro.
Não que Suzanne tenha dado uma de JK Rowling e matado metade dos personagens que levamos 11 anos amando e idolatrando. Sim, Suzanne mata alguns, mas ninguém que, em 11 dias, tenha ganhado meu coração para sempre.

Mas o que me matou nesse livro foi o modo como ela me fez ficar completamente desesperada para socorrer, abraçar e dizer "está tudo bem" para o meu personagem preferido: Peeta Mellark. Como esse garoto ganhou meu coração tão rápido, logo em sua primeira aparição é algo que vou explicar mais tarde nesse post. Antes, vou seguir a ordem natural das coisas e começar pela protagonista: Katniss Everdeen.

Segundo volume

Katniss ficou órfão de pai aos 11 anos, quando ele e mais alguns mineiros sofreram um acidente nas minas do Distrito 12, onde moram. Sua mãe entrou em depressão, tão profunda, que era como se Katniss e sua irmã Primrose, estivessem sozinhas nesse mundo cruel, pobre e irracional. Desde então, Katniss tem se dedicado a alimentar a mãe e a irmã, e o velho, feio, rabugento e meio acabado gato Buttercup.

Portanto, Katniss é uma jovem de 16 anos que foi forçada a crescer antes do tempo, assumir responsabilidades e aprender a se virar para conseguir colocar comida na mesa. Seu pai fazia arcos e flechas, e a ensinava a caçar (embora a caça seja proibida, mas convenientemente ignorada pelos Pacificadores – a polícia de Panem). Com esses conhecimentos, Katniss leva para casa parte da caça que consegue com seu amigo Gale na floresta, e o restante troca no mercado negro do Distrito 12, conhecido como Prego.

Os distritos são responsáveis cada um por uma atividade de subexistência, sustentando os exageros e extravagâncias dos habitantes da Capital, enquanto são abandonados à própria sorte, morrendo de fome e sem acesso a hospitais. Katniss questiona essa realidade, mas prefere guardar suas preocupações e opiniões para si, aprendendo a mascarar seus sentimentos e expressões.

O Festival da Colheita sorteia dois nomes de crianças de 12 a 18 anos, um menino e uma menina, para serem tributos nos Jogos Vorazes. Obviamente, Katniss não tem planos de ser sorteada, pois tem uma família para sustentar. Mas quando, desafiando as possibilidades, sua irmã Prim é sorteada, Katniss sente que é sua obrigação tomar seu lugar.

Ao se oferecer para tomar o lugar da irmã, Katniss começa a chamar a atenção da população de Panem, para sua personalidade forte e determinada, deixando claro que não estará nos Jogos para se transformar em um alvo facil. Katniss, em alguns momentos, chega a ser arrogante e precipitada, julgando atitudes sem ponderar todas as consequências... Peeta que o diga. Durante mais da metade do livro, Katniss o julga, o condena, e não para para ouvir o que o gentil e determinado garoto tem a dizer.

Peeta Mellark é o outro tributo sorteado durante o Festival da Colheita, para ser mandado aos Jogos Vorazes. E Katniss não fica nada feliz com isso. Não que os dois sejam amigos, mas há uma história significativa entre eles, a qual não facilitaria em nada o momento em que, na arena dos Jogos, Katniss tivesse que matá-lo.

Katniss é uma ótima personagem feminina, é forte, independente, inteligente e cheia de valores, embora seja capaz de deixar alguns deles de lado para poder voltar para casa e cuidar da irmã. Porém, ela é chata. Algumas vezes a narração dela em primeira pessoa é difícil de engolir, porque Katniss reclama, julga, reafirma seus conceitos precipitados e chega uma hora que você percebe que seria muito, muito difícil conviver com ela. Não que ela tenha tido uma vida fácil, mas… é isso, ela é chata. Mas até que isso é uma boa coisa. Afinal, personagens Mary Sue, cheias de valores inquestionáveis e motivações forçadamente nobres, temos aos montes na literatura mundial.

Não acho que a narração em primeira pessoa a favoreça, às vezes é meio cansativo ficar dependente das opiniões e "achismos" da personagem, para entender o que está acontecendo na história. Além disso, principalmente no terceiro livro, você fica cada vez mais interessado em saber o que (e o porquê) está acontecendo ao redor da Katniss, mas não pode. É impossível, por exemplo, não sentir agonia imaginando a atual situação de Peeta, e não conseguir chegar até ele, enquanto é forçada a ler e reler os dramas e frescuras angústias de Katniss.

Ao chegar no terceiro livro, você até entende que os questionamentos e decisões da personagem são ainda mais importantes para que ela assuma seu papel na trama. Mas, para mim, a narração em primeira pessoa, desde o primeiro livro, não é a ideal para narrar o mundo em que a história de Suzanne Collins está inserida. Fica muito limitado à visão de Katniss, mesmo que ela possa reunir os principais personagens dentro dela: habitante de um dos distritos, participante dos Jogos Vorazes, vencedora dos Jogos, rebelde, pária…

Eu pelo menos, senti falta, no terceiro livro, de realmente ler o que o personagem Finnick tinha a dizer sobre o Presidente Snow. Observe como essa passagem é apresentada. Katniss e Finnick, ambos campeões de edições diferentes dos Jogos Vorazes, são chamados pelos rebeldes para falar à população de Panem sobre os jogos e sobre o Presidente Snow. Como Katniss foi a mais nova campeã, ela não tem muito a dizer a respeito disso, mas Finnick é mais experiente e passou por coisas significativas, relacionadas ao presidente. E, quando você fica interessado em saber quem é o comandante dessa nação, o que ele fez para chegar a esse cargo e porque diabos a boca dele fede a sangue, tudo o que você recebe é um ou dois parágrafos, narrados por Katniss, resumindo miseravelmente a história que Finnick conta.
     
Foi nesse momento que a narração em primeira pessoa realmente me irritou. Mas, antes, já vinha me incomodando. Principalmente por causa do final do segundo livro.

Terceiro volume
Peeta Mellark é o tipo de personagem que, ou você vai amar no primeiro instante em que ele aparecer, ou vai odiar. O problema desse personagem é que ele surge como um contra ponto da protagonista. Ela é autossuficiente, sabe utilizar arco e flecha, sabe sobreviver na selva e sabe nadar (em Panem, só habitantes do Distrito 4, como Finnick, tem necessidade de aprender a nadar, pois vivem no litoral. Os habitantes dos outros distritos, só precisam aprender aquilo que os ajudará a exercer a função que a Capital determinou para cada um deles).

Peeta sabe fazer pão, enfeitar bolos, desenhar, pintar e fazer camuflagem. É forte o bastante para carregar pesados sacos de farinha, mas nunca aprendeu a caçar ou nadar, e nunca foi tão questionador quanto Katniss. Por isso, algumas pessoas estranham Peeta. Isso porque estamos todos (sim, todos) acostumados a ver o homem proteger a mulher, ser mais forte, mais determinado, mais contestador, mais confiante.
     
Em Jogos Vorazes, você precisa abandonar isso. Katniss é quem precisa ajuda-lo na maior parte do tempo, mantê-lo vivo, alimentá-lo… só lendo o livro para saber porque ela faz isso ao invés de mata-lo, já que o propósito dos Jogos é que somente um sobreviva.
     
Mas, antes que, lendo essa resenha você decida não gostar de Peeta, deixe-me advogar em defesa dele. Ele é inteligente, altruísta, corajoso e companheiro. Não tem tempo ruim para ele. Sem Peeta, Katniss enlouquece. Se antes, no Distrito 12 eles mal se falavam, quando enfrentam juntos os Jogos Vorazes, eles passam a ter uma ligação muito mais forte. E é isso o que transforma a trilogia no que ela é, pois, sem Peeta, sem o falso romance que eles desenvolvem na Arena, sem a cena que encerra a Vigésima Quarta Edição dos Jogos Vorazes, da qual eles participam, Panem teria continuado a ser o que era: um lugar de desigualdades, fome, autoritarismo, e “pão e vinho”.

Sim, eu gosto mais do Peeta que do Gale, melhor amigo de Katniss. Eu acho a existência de Gale insossa, desnecessária, tediante e cheia de mimimi. Outras pessoas pensam o mesmo em relação ao Peeta. Mas, como eu expliquei no parágrafo anterior, sem Peeta, toda a trilogia seria muito diferente, o que seria uma pena. Sem Gale, a única coisa da qual seríamos poupados, seria de um triângulo amoroso sem sal. É como o próprio Gale diz a Katniss no segundo livro: “Seria melhor se ele fosse fácil de odiar”.

No primeiro livro, Peeta me encantou como o garoto apaixonado, o garoto que sabia que não tinha chances de vencer os Jogos Vorazes, mas que até o último segundo, apenas desejou não virar "mais uma peça nos jogos deles". Ele queria morrer como ele mesmo, sem perder sua honra, sem esquecer quem ele realmente era. E protegendo Katniss da maneira que podia, até onde pudesse. Esse cuidado é mais no âmbito emocional do que físico, afinal, Katniss não é do tipo que precisa ser protegida.

É por isso que eu fiquei tão sensível quando li o que acontece com ele mais para frente na história. Chorei pela primeira vez em muito tempo por causa de um livro, desde que Dumbledore… Enfim. Foi tão injusto o que aconteceu com ele. Em alguns momentos, cheguei a pensar que a Katniss não o merece… daí, me forcei a lembrar de tudo o que ela tentou fazer por ele no segundo livro, e dou um desconto a ela.

Vi em algumas resenhas, pessoas falando que o terceiro livro é o melhor, que fecha a obra com maestria... mas confesso que em partes eu discordo. Para o personagem Peeta, é o melhor livro. Para a personagem Katniss... ela já teve momentos melhores.

Ela às vezes soa arrogante, às vezes ingênua, é usada e, pior, permite-se ser usada, fica de mimimi quando o Peeta mais precisa dela, e ainda precisa de uma chamada de Haymitch (um dos antigos vitoriosos do Distrito 12, mentor de Katniss e Peeta nos Jogos deles), para perceber que está sendo uma idiota completa.

É frustrante ver como uma personagem que se apresentou forte, autossuficiente, e tem uma importância tremenda para o rumo das coisas em Panem, simplesmente se torna uma fantoche. E é estranho que alguém que tenha se encantado e emocionado com uma menina de 12 anos que mal conhecia (Rue, companheira de Jogos, do Distrito 11), tenha agido de forma tão arrogante com alguém que cuidou dela e espantou seus pesadelos durante tantas noites…

Se eu for falar mais, vou acabar dando spoiler sobre o terceiro livro, e estou lutando com afinco para evitar que isso aconteça.

Basicamente, os sentimentos mais fortes que o terceiro livro despertou em mim foram: Tédio quando Gale aparecia, raiva quando Katniss ficava de mimimi na segunda parte, e angústia pelo Peeta durante TODO o livro!

Trilogia Jogos Vorazes

A história se passa em um futuro distópico, ou seja, um futuro muito, muito distante, que está longe de ser aquela maravilha com a qual sonhamos. Nesse mundo, há desigualdade, manipulação, exploração, injustiça, e uma futilidade sem limites. A Capital representa o estado totalitário, opressor, que utiliza a miséria dos Distritos e os Jogos Vorazes, para manter a população sob rédeas curtas.

Os habitantes da Capital são como uma grande massa de fãs da Lady Gaga (sério, quando vi o filme, foi a primeira coisa que pensei). Vestem-se de maneira estranha, exagerada, extravagante, cabelos bizarros, tatuagens, piercings, modificação do corpo, plásticas... acho que já deu pra entender. Todos esses comportamentos elevados ao nível de obsessão e tratados com naturalidade tal que chega a assustar.

Os habitantes dos Distritos são o oposto, privados de comida, hospitais, e qualquer tipo de extravagância.

Porém, é errado pensar que apenas os povos nos Distritos são controlados. Na Capital, os habitantes são como as pessoas que assistem Big Brother na Globo por três meses, sem perder nenhum detalhe. São como as pessoas que assistem Jornal Nacional e acreditam que lá está toda a verdade que se pode encontrar no mundo. A Capital é aquilo no que a população mundial já se tornou: fútil, inútil, vazia, controlada...

Panem rege os Distritos e A Capital de maneiras diferentes, mas nenhum dos dois com liberdade suficiente. Para um, há o medo, a repressão, a assustadora perspectiva de que seus filhos (de 12 a 18 anos) podem ser arrancados da proteção de suas casas, e jogados em uma arena, para matarem outros filhos, de outros pais igualmente desesperados, sem que eles possam fazer nada.

Do outro lado, há a eterna distração, o entretenimento sem limites, sem escrúpulos. Ao passo que os Jogos Vorazes são um pesadelo para quem vive nos Distritos, para as pessoas da Capital é o que as mantém ligadas à TV, assimilando o que os governantes de Panem querem, tornando-se, também, apenas fantoches, alegres e inocentes.

Panem et circenses. Pão e circo. Dê comida e diversão ao seu povo e o terá sempre sob seu controle. Nunca dê comida demais, pois um animal alimentado quer sempre mais. E dê cada vez mais diversão, de preferência sem conteúdo. E ele se contentará sem precisar pensar.

Apesar de gostar da ideia geral desse mundo distópico criado por Suzanne Collins, e tendo lido 1984 (que é arrebatador), não posso deixar de sentir que falta algo. Mais repressão, mais dificuldade para confiar nas pessoas, para dizer o que pensa... Nos distritos, as pessoas podiam casar, ter filhos e algumas vezes até cometer crimes como caçar, sem repreensão, pois aqueles que aplicam as leis fazem vistas grossas. Não permanece assim durante os três livros, claro, mas funcionou assim por tempo suficiente para que Katniss e Gale se tornassem especialistas.

Quando se compara isso com 1984, a dificuldade do personagem para conseguir escrever, a história do país sendo constantemente modificada para melhor comodidade, as frágeis relações familiares, com filhos entregando pais para o governo, com amantes cada vez mais raros, com falsos aliados prontos para uma armadilha... dá para perceber que falta alguma coisa.

Apenas espero que, ao ler Jogos Vorazes, ao invés de se concentrar no triângulo amoroso que se desenrola lentamente, o jovem (público alvo, afinal), possa criar interesse em ler “1984” de George Orwell, ou “Admirável mundo novo” de Adouls Huxley. Ou Battle Royale, história com a qual Jogos Vorazes é constantemente comparada.

Mas funciona. Quem disse que tem uma regra? E, se houvesse, seria considerado um defeito da obra, apenas seguindo padrões estabelecidos.

O ritmo é empolgante, impossível parar antes de estar muito cansado ou, no meu caso, com a vista cansada. Você quer ler mais, quer conhecer Katniss, Peeta, Haymitch, Prim, Finnick e Johanna (ambos do segundo livro) e nunca parar! Como eu disse antes, li os três livros em 11 dias. E, em seguida, reli.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Livro | Resenha | A guerra dos tronos - As crônicas de gelo e fogo 1 - George R. R. Martin

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BATISMO DE SANGUE E FOGO


Não, este não é um texto sobre a série Game of Thrones, da HBO, mas sim sobre o primeiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo, ou A Song of Ice and Fire, em inglês, do tio  avô George R. R. Martin. A Guerra dos Tronos é o primeiro livro das Crônicas e se preparem, porque vem mais seis depois desse e  cinco já foram publicados. 

Antes de ler o livro, ouvi muita gente comparando com Senhor dos Anéis. Li resenhas e críticas que diziam isso e falavam de Martin como o novo Tolkien. Sinceramente? Não achei nada disso!

"Meu Deus, essa mina tá louca, olha só o que ela escreveu!"; "Ca*****, fica quieta que você tá falando merda!"; "Vai se f****! Vai dizer que não gostou da p**** do livro e ainda vem pagar de inteligente escrevendo sua opinião de merda sobre ele!"

Para qualquer um que tenha pensado isso ou coisas parecidas e esteja com as mãos no teclado para me xingar nos comentários, calma! Primeiro, os livros das Crônicas estão no meu top "li, releio, e morro falando deles". Segundo, vou explicar porque não concordo com a comparação.

O modo de escrever dos dois autores são bem distintos, esse por si só já é um ótimo motivo para não comparar. Tolkien foi um gênio que criou um universo próprio, encaixando vários elementos folclóricos e explicando como surgiram e o que fizeram, além de criar idiomas para esses seres. Mas até hoje não conheci uma pessoa que não tenha ficado com sono em algum momento lendo uma de suas obras. O próprio Senhor dos Anéis é um exemplo do quão detalhista ele era sobre o ambiente em que suas histórias aconteciam.

Por outro lado temos Martin. Para mim ele também é um gênio. Ele criou um universo, baseado no nosso, no mundo real, com características medievais e os personagens mais humanos que já vi em um livro de ficção.

Para começar, cada capítulo é um POV (point of view - ponto de vista) de um personagem da história. Ou seja, tudo o que lemos em cada capítulo, é o modo como um personagem enxerga o mundo ao seu redor, com seus pensamentos, sentimentos e escolhas, que com certeza acabam influenciando toda a trama mais cedo ou mais tarde.

Desde o momento em que somos apresentados a esses personagens, vendo através dos olhos deles, não tem como dizer que fulano é um típico vilão, e beltrano o personagem bonzinho que vai fazer tudo dar certo no fim. Isso é Disney!

Admito que quando comecei a ler a Guerra dos Tronos, e passei do prólogo (já volto nesse ponto), fiquei um pouco perdida com os vários nomes que apareciam, de personagens secundários, terciários e por aí vai, e isso é um detalhe que se repete em todos os outros livros, a ponto de tornar algumas passagens cansativas e até confusas, mas nada que, a meu ver, estrague a leitura. Tanto que se nesse ponto for para retomar a comparação Martin - Tolkien, diria que essa é uma característica que até pode se comparar um pouco com as descrições das florestas da Terra Média.

"Beleza, entendi porque você não concorda com a comparação dos dois autores, mas sobre o que é o livro afinal de contas?"

Para explicar melhor a história...

O mundo criado por Martin

A maior parte da história em A Guerra dos Tronos se passa em Westeros, um continente com Sete Reinos que são governados por um Rei. Lembram das aulas chatas  de história sobre feudalismo? É basicamente isso. Cada reino tem um líder, um Senhor (Lord), cada líder tem seus vassalos, e todos têm o chefão supremo, que é o Rei.

Mas antes, há centenas de anos, não existia um Rei para toda Westeros. Aos poucos descobrimos que esse sistema começou com uma das principais famílias da história, os Targaryen, que atravessaram o oceano montados em dragões e assim conquistaram os Sete Reinos, subjugando inclusive alguns Reis, como o Rei do Norte, que era de outra família bem importante no primeiro livro, os Starks. 

Fora a Westeros, somos apresentados a uma parte das cidades além do Mar Estreito (Narrow Sea). Conhecidas a princípio como as Cidades Livres, conforme acompanhamos a história do único personagem com capítulo naquele canto do mundo, percebemos que a escravidão é algo comum por lá...

A trama

Muitas pessoas têm o costume de pular o prólogo dos livros... Por favor, não façam isso em nenhum dos livros dessa saga! 

Em a Guerra dos Tronos somos imediatamente apresentados a três homens, sem saber onde eles estão e qual é o significado da Muralha, lugar de onde eles saíram e para onde dois deles querem voltar o quanto antes, pois sentem algo estranho no ar. Aqui também somos levemente introduzidos as crenças que rodeiam o mundo de Martin, para só depois conhecermos melhor o que são os antigos e os novos deuses, e onde pode ser que as histórias de gigantes, monstros na escuridão e feiticeiros nos levem.

O prólogo começa leve, com o leitor jogado na mente de um desses três personagens sem ter ideia do que esperar. Eu senti certa apreensão no começo, talvez pelo jeito que os pensamentos do personagem tenham sido escritos ou talvez porque esse foi o primeiro livro que li que chegou com os dois pés no peito, me mostrando que tudo é possível.

Depois começam os capítulos 'normais'. Cada um apresenta um pouco de cada personagem, e aparece de novo a sensação de estar sendo jogado numa história onde você não tem noção do que está acontecendo.

Tudo começa no norte de Westeros, onde vemos toda a família Stark, com o honrado Eddard (Ned), sua esposa Catelyn, e seus filhos Robb, Sansa, Arya, Bran e Rickon. E logo descobrimos que até o mais honrado dos homens tem um filho bastardo, chamado Jon Snow.

Mas Eddard é um personagem importante. Ele é o melhor amigo do Rei Robert Baratheon, e inclusive o ajudou a conquistar o Trono de Ferro quando lutaram contra os Targaryen e o Rei Louco. No entanto, Ned vive com a culpa de ter seu filho bastardo, mantendo sempre em segredo quem é a mãe de Jon, e sempre revivendo a promessa que fez a sua irmã, Lyanna, quando ela estava morrendo. Mas suas preocupações mudam um pouco com a notícia da morte de seu amigo e tutor, Jon Arryn.

Com a morte de Arryn, o Rei pede pra Eddard assumir a função de Mão do Rei, que é uma espécie de conselheiro autorizado a governar na ausência do Rei. Com muita má vontade ele aceita o novo cargo, porque acredita que só assim poderá salvar seu melhor amigo das intrigas da corte e tentar descobrir como Jon Arryn morreu. 

Ao mesmo tempo somos apresentados aos Lannisters, com a rainha Cersei, seu irmão gêmeo Jaime Encantado de Shrek, e seu irmão mais novo Tyrion, o anão. 

A família Lannister é a mais rica de Westeros, logo a mais importante, e também a que tem mais fama de má por causa do papel que desempenharam durante a guerra contra o Rei Louco, Aerys Targaryen, morto por Jaime Lannister, que já era Guarda Real, com o juramento de proteger a família real por toda a sua vida. 

Enquanto isso, do outro lado do mar, conhecemos os únicos sobreviventes da linhagem dos dragões: Viserys Targaryen e sua irmã, Daenerys. O herdeiro do Rei Louco quer reconquistar o Trono de Ferro, e por isso ele é capaz até de vender a própria irmã em busca de um exército.

Sangue e fogo

Intrigas e manipulações correm soltas por todo o mundo conforme os personagens movem suas forças no jogo dos tronos. E em um dos melhores momentos do livro, somos avisados pela Rainha Cersei que nesse jogo não há meio termo, ou ganha ou morre.

Lembro que quando li isso não levei muito a sério, afinal nenhum personagem tinha morrido, mesmo quando isso parecia ser o mais provável de acontecer, mas... Sempre existe um 'mas'!

Nada pode evitar a guerra que começa nesse livro, e tudo o que acontece, mesmo quando planejado pelos personagens para se chegar a uma paz, vai por água a baixo...

A meu ver, torcer por alguns personagens nesse livro é fundamental, mas a lição que o seu Martin passa é que todo mundo pode morrer quando menos se espera! Não tem como não ficar chocado com algumas coisas que acontecem, eu perdi a conta de quantas vezes xinguei o nosso bom mau velhinho por isso e depois me xinguei também porque era óbvio que aquilo ia acontecer, mas ninguém quer que aconteça!

E o fim do livro... Acho que nunca tinha lido um livro com tantos cliffhangers, a ponto de me deixarem curiosa como um gato para saber o que ia acontecer, e ao mesmo tempo com medo do que eu poderia ler a seguir.

Sangue e fogo resumem bem as Crônicas de Gelo e Fogo, apesar de sermos lembrados o tempo todo que o inverno está chegando e com ele as coisas só tendem a ficarem mais sinistras.

Curiosidade 

A banda Blind Guardian tem uma música baseada na Guerra dos Tronos. 

Enjoy! ;]

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[ATUALIZADO EM 24/11/2016]
Livro 2: A fúria dos reis - resenha
Livro 3: A tormenta de espadas - resenha

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Livro | Resenha | Herdeiros de Atlântida - Filhos do Éden 1 - Eduardo Spohr

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Filhos do Éden não é - como o autor faz questão de enfatizar - uma continuação de "A batalha do Apocalipse, seu livro anterior, mas se passa no mesmo universo. Na verdade, a história deste livro se passa antes, nos tempos atuais, enquanto ABDA se passava lá para 2016 ou 2020 ou qualquer ano depois das olimpíadas no Rio de Janeiro.

O personagem principal da história anterior, no entanto, faz uma pequena - pequeníssima - aparição em um dos flashbacks, e logo some. Ainda bem, porque o heroísmo dele era meio enjoativo. Portanto, esqueça Ablon e Shamira, e dê espaço para Kaira, Denyel, Urakin e Levih.

Da esquerda para a direita: Urakin, Levih, Kaira e Denyel - Ilustrações oficiais.

Desde já quero deixar expressa aqui minha preferência pelo ofanin Levih. Ofanins são os anjos designados para cuidar dos homens e auxiliá-los, portanto, são os nossos queridos "anjos da guarda".

"Meu anjo da guarda, meu bom amiguinho, leve-me sempre pelo bom caminho"

Eu adorei o Levih. Não amei, porque, na verdade, começo a achar que o autor tem problemas ou má vontade para explorar os personagens realmente bons que tem na manga. Fica lá fazendo "a jornada do herói", utilizando suas teorias de construção de narrativas, criando lutas baseadas em seus jogos de RPG... E parece esquecer que alguns personagens secundários podem sustentar histórias de forma mais eficaz do que o herói que ele tanto se esforça para criar.

Os personagens criados por Eduardo Spohr são caricatos. Eles não têm a individualidade dos personagens de J. K. Rowling, ou de George R. R. Martin, nem, para ficar entre as inspirações conhecidas do autor, a força dos personagens de J. R. R. Tolkien. Porém, não dá para reclamar dessas caricaturas, pois desde sempre Spohr explica que seus personagens são anjos, não têm livre arbítrio, e possuem características básicas de sua casta.

Se o anjo é um ofanim, ele será dócil, protetor dos humanos e avesso à batalhas. Se ele for querubim, será simplesmente incapaz de fugir de uma batalha ou de um desafio proposto por outro querubim, e terá visão pragmática das coisas, razão acima da emoção. Se for um isshin, será ligado às forças da natureza, justamente por pertencer à casta que controla as forças da natureza e aquela responsável pela "arquitetura" do mundo. Se for um hashimalim - se o nome estiver certo - será apegado ao lado negro mal da força das missões angélicas. E, por fim, segundo meus conhecimentos sobre a mitologia do livro (e a mitologia dos anjos em si), se for um malakim, gastará todo o seu tempo e energia para estudar o mundo, fazer teorias e ser ainda mais racional que qualquer querubim perdido por aí.

Logo, o desenvolvimento dos personagens angélicos do livro fica limitado. O que não é propriamente ruim, pois há uma razão para serem assim. Os anjos são guerreiros de Yahweh (não sei como lê), cada casta tem sua função, que gira em torno de proteger e guiar a criação "mais perfeita" de Yahweh: o homem.

Kaira é uma anja que está presa ao mundo dos homens por uma ligação espiritual com uma menininha chamada Rachel (presa dentro de seu corpo, para ser exata), arconte (algo como capitã, comandante) de Gabriel; logo que aparece, com a memória estilhaçada, sem saber que era uma anja e muito menos que comandava uma equipe, não parece ser mais do que Shamira foi em ABDA. Coadjuvante. O livro conta a história de Kaira, enquanto ela se depara com querubins e demônios que estão atrás dela. Aos poucos ela vai se lembrando de quem é e qual era a sua missão quando foi mandada à Terra pelo arcanjo Gabriel.

Não sei bem o que foi, mas Kaira não me ganhou, como se esperaria de uma protagonista. Kaira se parece MUITO com uma coadjuvante, para ser chamada de protagonista e isso incomoda. Muito. Durante todo o livro, ou pelo menos a partir do momento em que Denyel aparece, o leitor tem a impressão de que é ele, não ela, o protagonista desse livro. E não estará errado, ele é, de fato, o personagem mais importante. É ele, inclusive, quem protagoniza a continuação "Anjos da Morte" (parece o título de um livro do Pedro Bandeira).

Denyel. Como a própria Kaira lhe diz duas ou três vezes, ele é um clichê. Não chega a ser chato, é um bom personagem. Prefiro ele a Ablon, embora ambos sejam caricatos. Acho que um bom termo seria "a caricatura de Denyel é melhor que a de Ablon" e ponto. É um personagem interessante, que integrou o grupo de querubins que foram mandados à Terra para viver junto dos humanos, aprender seus costumes, lutar suas guerras (pano de fundo do livro seguinte, diga-se de passagem). Ah, mas antes que possa haver reclamação sobre eu dizer que Denyel estará no próximo livro, não é bem um spoiler. No final de Herdeiros de Atlântida, não é possível saber o que houve com ele e o livro seguinte fala sobre as coisas que ele fez na Terra no período em que esteve nela.

Denyel é um típico canastrão dos filmes americanos, despojado, irônico, misterioso, recluso, sedutor... Tem até aquele sorrisinho 43 charmosíssimo! Ele é tão clichê que faz sentido a escolha do autor para sua personalidade e para sua narrativa. Apesar de previsível, um anjo que viveu décadas na Haled, a Terra como nós a conhecemos, tem todos os vícios, ou quase todos, do homem comum. É disparado o personagem mais bem construído dessa história. E é, por definição, clichê.

Urakin é um querubim e, bem, não há muito mais o que dizer sobre eles. São os guerreiros, as peças no xadrez dos arcanjos.

*

Outra coisa que incomoda: as últimas frases das pausas da narrativa. Imagine um capítulo, separado em algumas partes, que dividem a narrativa, fazem um salto curto no tempo ou mudam o ambiente, como um corte de cena no cinema. E imagine, no final de cada uma dessas pausas, uma frase de efeito para completar o pensamento. Tipo:

"Kaira seguiu pelo túnel, estava frio.
Era o túnel da morte."



Imagine, agora, alguém lendo o texto em voz alta. Fica piegas. E o TEMPO TODO, fica chato.

O autor prometeu, na apresentação, que esse seria um livro que responderia questões e que daria início a novas. De fato, é em Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida que finalmente descobrimos o que acontece com Rafael, o arcanjo patrono dos ofanins e amante dos homens. Porém - e acredite, estou cansada de usar "mas, porém, no entanto" nesse post -, o que o autor faz no livro chega a ser irritante. O tempo todo, quando tem uma oportunidade, começa a traçar todas as linhas possíveis para descrever as castas. Para explicar a ação de um personagem-anjo, tem que dizer que "por ser um ofanim, Levih era incapaz de pensar em matar Andril", "por ser querubim, Urakin era incapaz de recusar o desafio proposto nos olhos de Denyel" e blá. Explicar uma ou outra coisa do universo que ele tenta criar é uma coisa, mas insistir no didatismo durante quase toda a narrativa...

Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida tenta ampliar o universo apresentado em "A Batalha do Apocalipse", mas esbarra na repetição. Tentou fugir da reutilização de elementos já apresentados, mas acabou por ser inferior ao primeiro trabalho do autor.

De qualquer forma, Herdeiros de Atlântida é o primeiro volume de uma nova série. O segundo já tem nome e será "Anjos da morte", o que, pelo que entendi, deve ter mais flashbacks, dessa vez contando mais sobre o passado de Denyel, sobre como ele conheceu Urakin, e dará sequência ao misterioso epilogo do primeiro volume: afinal, o que Primeiro Anjo encontrou e porque é tão perigoso para Teth?

Por fim, o livro acabou me reconquistando no último capítulo, no epílogo e na prévia do prólogo do próximo livro.

*

[Atualizado]
PS: Descobri o maior problema do livro: A interação dos personagens. Absolutamente simples, sem sal e que te deixa com aquela sensação de que "já vi isso em algum lugar". As relações não empolgam.